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Domingo, 26 de Abril 2026
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Por que Trump ainda não agiu?

Nos bastidores da geopolítica, a paciência é estratégia, mas ela também tem prazo de validade

Por que Trump ainda não agiu?
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Há uma inquietação latente — e crescente — entre aqueles que acompanham os bastidores da política internacional. Em Brasília, nos quatro cantos do país e na internet brasileira — o território ainda livre, a ágora dos nossos tempos — uma pergunta se repete com frequência cada vez maior, às vezes em voz baixa, outras com indignação aberta: por que os Estados Unidos ainda não sancionaram autoridades brasileiras, mesmo diante de tantos sinais de desvio autoritário?

A dúvida é legítima, e a expectativa é grande. O que antes parecia impensável tornou-se visível até mesmo para parte da esquerda: prisões sem condenação, censura institucionalizada, criminalização do pensamento, perseguição a opositores e o uso do aparato judicial para intimidar e silenciar dissidentes. Elementos típicos de regimes autoritários passaram a se manifestar em pleno solo brasileiro, sob o verniz da legalidade e o silêncio cúmplice de quase toda a mídia tradicional. E, mesmo assim, a resposta americana — aquela que tantos esperam — ainda não veio, apesar das promessas e convicções de alguns atores dessa empreitada.

Mas a demora, longe de ser descuido ou falta de vontade, é parte de uma engrenagem complexa. A Lei Magnitsky Global, embora poderosa, não é um instrumento automático. Ela exige não apenas provas robustas, mas também o timing político e estratégico adequado. E nesse tabuleiro, o Brasil ocupa uma posição singular: não é uma ditadura declarada, mas tampouco tem se comportado como uma democracia funcional. É o tipo de situação que exige bisturi, não martelo.

Enquanto isso, os Estados Unidos enfrentam desafios mais visíveis e imediatos. A gestão Trump, agora em sua segunda encarnação, lida com a escalada das tensões no Oriente Médio, os riscos crescentes na Ásia-Pacífico, o impasse na Ucrânia e o avanço implacável da influência chinesa na América Latina — sem contar o globalismo da União Europeia. Em termos diplomáticos, isso significa que o Brasil ainda está alguns degraus abaixo na escada das emergências, mas já entrou no campo de visão. Afinal, aqui é o “quintal dos EUA”, como disse Pete Hegseth, secretário de Defesa de Trump.

E há sinais de que o cenário começou a mudar com velocidade.

A recente dissolução da USAID — agência de “desenvolvimento internacional” usada por anos como um braço político disfarçado do progressismo americano e de seu deep state — marcou o fim de uma era de interferência ideológica. Sob o controle dos democratas, especialmente durante as administrações Obama e Biden, a USAID foi instrumentalizada para disseminar agendas identitárias, feminismo radical, ideologia de gênero e programas de censura digital sob o pretexto de combate à desinformação.

No Brasil, esse projeto ganhou rosto e assinatura: Victoria Nuland, então vice-secretária de Estado, fez questão de visitar o país e estreitar laços com figuras da diplomacia brasileira.

O ministro do STF, Luiz Roberto Barroso — em plena efervescência política, à frente do TSE em 2022 — reconheceu publicamente ter solicitado apoio de autoridades americanas, em pelo menos três encontros com representantes dos EUA em Brasília, incluindo o então encarregado de negócios da embaixada americana, Douglas Koneff, que atuou no Brasil entre 2021 e 2023. O objetivo era obter declarações públicas de apoio à democracia brasileira em meio a pressões e ameaças contra o processo eleitoral. Barroso, que nunca escondeu seu entusiasmo com as pautas progressistas globais, celebrou publicamente a parceria em eventos transmitidos com pompa e naturalidade. Um gesto que, hoje, ganha outra leitura: a aliança informal entre instituições brasileiras e interesses estrangeiros com viés ideológico bem definido.

Aliás, o próprio Koneff se reuniu com o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva e reforçou a confiança dos EUA no sistema eleitoral brasileiro, especialmente diante de questionamentos internos sobre a integridade das urnas eletrônicas.

Mas esse ciclo chegou ao fim. Com Trump de volta à Casa Branca, a bússola da política externa americana muda de direção. Sai de cena a diplomacia woke; entra em campo a doutrina realista e soberanista. Prova disso foi outra vitória significativa — e quase silenciosa: a nomeação da cubana Rosa María Payá Acevedo, com apoio direto dos EUA, para um cargo na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. O apoio veio especialmente do senador e atual secretário de Estado, Marco Rubio, um dos principais articuladores da Lei Magnitsky no Congresso americano. Com essa nomeação, o tom da diplomacia regional promete mudar drasticamente.

Agora, há uma confluência de fatores inéditos:

  • Dossiês documentados contra autoridades brasileiras já estão nas mãos de senadores e departamentos em Washington.

  • A máquina progressista que blindava parceiros ideológicos na América Latina foi desativada.

  • A pressão de juristas, parlamentares e organismos civis pelo uso da Lei Magnitsky sobre casos brasileiros é cada vez mais pública e fundamentada.

Ainda assim, o jogo exige paciência. A aplicação de sanções internacionais — especialmente contra membros do Judiciário ou altos cargos institucionais de um país soberano — não é uma medida banal. Mas ela, ao que tudo indica, realmente virá. Não por impulso, mas por acúmulo. Não por vingança, mas por necessidade. Porque há um ponto em que a omissão se torna conivência — e os EUA sabem disso. O que Trump tem demonstrado é que não há conveniência com quem ameaça o futuro da América.

Ministros e outros possíveis sancionados já evitam viagens internacionais? Ao menos aos EUA, parece que sim. Antes tratado com deboche, o tema das possíveis sanções já é pauta de preocupação dentro da própria corte, como revela a grande mídia. O tom mudou. Não por autocrítica, mas por receio.

Atendendo às expectativas, quando as sanções forem anunciadas, não serão espetaculares. Serão cirúrgicas, discretas e devastadoras para os penalizados: congelamento de bens, proibição de entrada em território americano, isolamento diplomático com o Ocidente, reputações arruinadas. E isso, ao que se diz, atingirá inclusive os escritórios de advocacia das esposas dos ministros.

E então, os que hoje perguntam por que os EUA demoram entenderão: a espera não foi fraqueza. Foi cálculo.

Apesar da expressão ter virado sinônimo de bravata, temos um tic-tac. O relógio já começou a bater. Só resta saber se o jogo diplomático e os interesses internacionais conseguirão mudar esse provável cenário. Nos bastidores da geopolítica, a paciência é estratégia — mas ela também tem prazo de validade.

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