Se Marie Antoinette vivesse hoje, teria conta no Instagram e cargo de "embaixadora da moda sustentável". Entre uma degustação de croissant e uma visita técnica ao Louvre, Janja da Silva parece ter descoberto que o jeito mais rápido de combater as mudanças climáticas é com uma comitiva de 12 pessoas e um voo intercontinental.
Custo da operação "Salvem o Algodão Orgânico": R$ 847 mil.
Pagamos nós.
O planeta que lute.
Um "investimento" de R$ 23 mil por dia. O Portal da Transparência não mente; apenas dói. Foram R$ 847 mil para promover o conceito de "moda sustentável brasileira" na Semana de Moda de Paris. Detalhe: R$ 23 mil apenas em diárias para uma consultora de imagem. Faça a conta: são 16 salários mínimos por dia para alguém dizer se o vestido de linho combina com o discurso.
Enquanto isso, a perícia do INSS continua com filas que se arrastam por meses, e o Rio Grande do Sul ainda convive com as cicatrizes deixadas pelas enchentes de 2024. Mas calma. Segundo a lógica oficial, não se trata de gasto. Trata-se de investimento em "soft power".
A expressão é elegante. Tem sonoridade internacional. Parece saída de um seminário de relações exteriores realizado em algum hotel cinco estrelas. Na prática, porém, a tradução é mais simples: o soft power é dela; o boleto é nosso. O seu, o meu, o do trabalhador que passa horas numa fila do SUS ou daquele aposentado que aguarda uma perícia para receber um benefício.
E foi justamente em meio a esse cenário que surgiu o famoso "respiro de cultura" com gosto de vinho francês.
A agenda oficial registrou uma reunião com estilistas. O restante do tempo foi preenchido por visitas a museus, compromissos culturais e imagens cuidadosamente compartilhadas nas redes sociais. Entre uma foto no Louvre e outra, Janja resumiu a experiência afirmando que, entre uma agenda e outra, havia encontrado um "respiro de cultura" e que o povo brasileiro merecia estar ali.
Merece mesmo.
O problema é que o povo brasileiro está aqui.
Está no Brasil.
Está respirando fila de hospital, transporte lotado, impostos crescentes e prestações vencendo no fim do mês.
O "respiro" parisiense saiu por R$ 847 mil. Uma quantia que poderia financiar milhares de cestas básicas, mas que dificilmente renderia fotografias elegantes diante da pirâmide do Louvre. Afinal, cesta básica não produz engajamento internacional. Não gera manchetes sobre protagonismo global. Não transforma ninguém em referência de moda sustentável.
É uma forma curiosa de sustentabilidade. Sustentável, nesse caso, é o contribuinte sustentando uma comitiva em Paris.
Há ainda uma ironia difícil de ignorar. Um dos pilares do discurso era a defesa de práticas ambientalmente responsáveis. Entretanto, deslocamentos internacionais, hospedagens, logística e toda a estrutura necessária para a viagem carregam uma pegada de carbono nada desprezível. Mas isso parece ser um detalhe menor quando comparado ao brilho das passarelas e à elegância dos salões europeus.
A hipocrisia, essa sim, continua sendo plenamente reciclável.
E talvez nada ilustre melhor essa história do que a velha questão da régua que só mede para um lado.
Não faz tanto tempo que Michelle Bolsonaro foi alvo de críticas intensas por utilizar um vestido avaliado em cerca de R$ 3 mil durante a posse presidencial. Na época, falou-se em ostentação, desconexão da realidade e incompatibilidade com o momento econômico do país.
Agora, diante de uma despesa centenas de vezes maior, a narrativa mudou.
R$ 3 mil eram apresentados como símbolo de extravagância.
R$ 847 mil passaram a representar diplomacia cultural.
R$ 3 mil eram privilégio.
R$ 847 mil são protagonismo.
A diferença não está nos números. Está em quem realiza a despesa.
Também se repete o argumento de que o Brasil precisa ocupar espaços internacionais, ampliar sua influência e fortalecer sua imagem no exterior. É um raciocínio legítimo. Toda nação relevante busca projetar sua cultura e seus interesses para além de suas fronteiras.
O problema é que existe uma distância considerável entre representar o país e representar a si mesmo em cenários luxuosos.
No fim das contas, a sensação que fica é a de que o governo que prometeu picanha acabou oferecendo um piquenique em Paris.
Com o nosso cartão.
O brasileiro já entendeu como funciona a equação. "Ocupar espaços de protagonismo" parece significar posar para fotografias em cenários históricos enquanto, do outro lado do Atlântico, milhões de pessoas tentam descobrir qual conta conseguirão pagar primeiro.
Talvez a verdadeira moda sustentável dos novos tempos seja esta: sustentar o rolê dos poderosos enquanto se reciclam os mesmos discursos de sempre.
E, se alguém perguntar onde foi parar o tão celebrado soft power, avise que ele provavelmente ficou retido na alfândega, junto com a paciência do contribuinte brasileiro.
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