Recentemente, ouvi de um senhor idoso uma frase que, à primeira vista, pareceu apenas mais uma opinião comum sobre a política brasileira. No entanto, quanto mais pensei sobre ela, mais percebi sua profundidade.
Pessoa simples, sem grandes estudos acadêmicos, sem ocupar cargos importantes ou aparecer nos debates da televisão, mas dotado de uma sabedoria adquirida ao longo da vida, ele afirmou com absoluta convicção:
“Eles não estão envolvidos. Eles são o CV e o PCC.”
A frase me chamou a atenção porque vai muito além das acusações que costumamos ouvir diariamente. Há anos surgem alegações, investigações, denúncias, suspeitas e teorias ligando figuras importantes da República e setores da esquerda a grupos criminosos ou organizações que atuam nas sombras do poder.
Nesse emaranhado de informações, aparecem referências ao Foro de São Paulo, ao PCC, ao Comando Vermelho, ao MST e a diversas outras estruturas que, de uma forma ou de outra, são frequentemente associadas a práticas ilegais, esquemas de corrupção ou mecanismos de controle político. Há ainda organizações sem nome definido, mas que operam em atividades criminosas que lesam milhões de brasileiros, como os escândalos de fraudes contra aposentados e pensionistas, no INSS.
No meio de tanta informação, a fala daquele senhor se destacou por uma razão simples: ela não sugeria uma relação de proximidade entre o poder político e o crime organizado. Ela sugeria algo muito mais grave e com grande chance de obviedade.
A hipótese implícita em sua frase é que não existiria apenas uma parceria, uma convivência ou uma infiltração. Existiria uma identidade de interesses tão profunda que a distinção entre agentes políticos e estruturas criminosas deixaria de existir.
É uma afirmação extrema. Mas será que ela não merece ser cada vez mais estudada?
O que acontece quando organizações criminosas acumulam bilhões de reais, ampliam seu domínio territorial, influenciam eleições locais, infiltram instituições públicas e expandem sua capacidade de corromper agentes do Estado? Em que momento elas deixam de ser apenas organizações criminosas e passam a exercer funções típicas de poder?
A experiência de outros países mostra que essa fronteira pode se tornar perigosamente tênue ou até mesmo inexistir. Na Venezuela, por exemplo, o regime construiu mecanismos de sobrevivência política apoiados em redes ilícitas e em estruturas paralelas de poder. O resultado foi a erosão gradual das instituições e a concentração de poder em torno de um projeto político que passou a controlar praticamente todos os centros decisórios do país e as próprias instituições.
Seria possível que algo semelhante esteja em curso no Brasil?
Talvez não pelos mesmos métodos. Talvez não pelas mesmas instituições. Mas a pergunta permanece válida.
Quando observamos determinadas reações do presidente Lula, frequentemente classificadas por seus adversários como destemperadas ou irracionais, surge outra interpretação possível. E se não estivermos diante de manifestações de loucura política, mas de sinais de preocupação crescente? E se o tom agressivo, a retórica carregada de ressentimento e os ataques constantes a adversários forem sintomas de um ambiente de pressão cada vez maior?
Afinal, para quem enxerga a disputa atual apenas como mais uma eleição, certos comportamentos parecem eleitoreiros. Mas para quem acredita que o jogo envolve a sobrevivência de um projeto de poder muito mais amplo, a intensidade dessas reações passa a fazer mais sentido.
Não afirmo possuir respostas definitivas para essas perguntas. Tampouco pretendo apresentar como fato aquilo que permanece no campo das hipóteses e das percepções.
Mas talvez o mais relevante seja compreender que uma parcela crescente da população já não vê o crime organizado apenas como um problema de segurança pública. Para muitos brasileiros, ele passou a ser percebido como um fenômeno político, institucional e estrutural. O malfadado narco-estado.
E quando essa espalha, ela se transforma de um fato político por si só para um fato policial.
E talvez esse momento atual revele aquilo que para muitos soaria como inimaginável.
Os proceres da nação, os defensores do Estado Democrático de Direito, os ungidos de Brasília sendo tão somente, para o governo americano, chefes de quadrilhas e organizações narco-terroristas que sequestraram o Estado Brasileiro e as instituições pra um projeto criminoso de poder. Como Maduro fez na Venezuela.
Créditos (Imagem de capa): Foto gerada por IA
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