Pra frente é que se anda”, diz o velho ditado popular. Pouca gente, porém, fala sobre o preço dessa caminhada.
A transição para um novo patamar de consciência é, antes de tudo, um processo de exílio. Perceber que o ambiente que moldou sua rotina — e as pessoas que compartilhavam das mesmas ideias, hábitos e interesses — já não ressoam com quem você se tornou é um dos choques mais profundos da experiência humana.
Não se trata de arrogância. Tampouco de uma pretensão de superioridade intelectual. Trata-se apenas da constatação de um descompasso inevitável: você mudou, amadureceu, expandiu a percepção sobre determinadas coisas, enquanto parte do entorno permaneceu exatamente no mesmo lugar.
Olavo de Carvalho abordava esse fenômeno com precisão ao tratar do amadurecimento humano e das diferentes camadas da personalidade. Para ele, a busca sincera pela verdade cobra um preço alto: o desapego da aprovação coletiva. O indivíduo que decide romper com o conformismo, abandonar chavões prontos e questionar a realidade inevitavelmente passa a incomodar aqueles que fizeram da superficialidade um modo confortável de existência.
O problema é que o esforço para despertar nos outros o mesmo interesse pelas “coisas do espírito” — ou simplesmente por uma análise mais profunda da realidade — frequentemente encontra um muro de indiferença, banalidade e mediocridade. Não porque as pessoas sejam más, mas porque nem todos desejam sair do lugar onde aprenderam a viver mentalmente.
Volto a experimentar isso agora, curiosamente da mesma forma que antes: momento político conturbado, discussões repetitivas entre amigos e, sobretudo, a mesma sensação desgastante de perda de tempo. Não pela divergência em si — divergências podem ser férteis —, mas pela percepção de que certos debates já não buscam compreender nada. Tornaram-se apenas exercícios automáticos de reafirmação tribal.
Sentir novamente o peso desse distanciamento provoca uma angústia peculiar. É a constatação de que o crescimento não acontece em linha reta, rumo a um conforto definitivo. Ele se move em espiral, arrancando-nos repetidamente das zonas de segurança emocional e intelectual.
Olhar ao redor e perceber que o nível das discussões, as prioridades e até os valores defendidos por pessoas que antes caminhavam lado a lado já não provocam identificação produz um sentimento duplo: o lamento pela perda da conexão e, ao mesmo tempo, a serenidade de permanecer fiel à própria consciência.
A vida intelectual — mesmo para aqueles que não se consideram intelectuais — é essencialmente solitária. E reconheço estar longe do perfil clássico do estudioso obsessivo, do leitor compulsivo ou do acadêmico disciplinado. Mas a própria realidade, batendo constantemente à porta da alma e da inteligência, obriga qualquer pessoa minimamente desperta a observar, refletir e amadurecer.
Aceitar que determinados ambientes já não nos pertencem talvez seja o primeiro passo para proteger a própria mente. Não é soberba. Não é desprezo. É apenas a percepção de que a rotação mudou, de que existe um deslocamento natural entre pessoas que passaram a enxergar o mundo em frequências diferentes.
Como se diz no turfe: a turma mudou, o páreo passou a ser outro.
No fim, o desprendimento decorrente desse salto de consciência não deve ser encarado como um castigo definitivo, mas como o espaço necessário para que novos horizontes — e, eventualmente, novos iguais — possam surgir.
Porque nem todo afastamento nasce do ódio. Às vezes, nasce apenas da compreensão silenciosa de que já não há mais interesse em falar das mesmas coisas.
E isso, por si só, já muda tudo.
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