Durante anos, aprendemos que a democracia dependia da liberdade de expressão. Agora descobrimos que ela depende de uma equipe de verificadores, especialistas, consultores, moderadores, agências de checagem, observatórios digitais e burocratas devidamente certificados para decidir o que podemos ou não dizer.
O cidadão comum acorda de manhã, abre o celular e encontra uma realidade curiosa: nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta gente tentando controlar a circulação dela.
Se alguém publica uma opinião polêmica, surge imediatamente uma força-tarefa digital. Não para debater. Não para contestar. Não para apresentar argumentos melhores. A missão é outra: etiquetar, classificar, enquadrar e, se possível, descredibilizar.
O método é simples.
Primeiro, identifica-se uma opinião inconveniente.
Depois, procura-se uma palavra suficientemente assustadora para associá-la ao autor.
Desinformação.
Discurso de ódio.
Extremismo.
Ataque à democracia.
Pronto. O debate está encerrado antes mesmo de começar.
O curioso é que muitos dos defensores desse modelo juram estar protegendo a democracia. É uma democracia tão delicada que parece incapaz de sobreviver ao contato com opiniões divergentes.
A lógica lembra aquele pai que, para ensinar o filho a andar de bicicleta, decide mantê-lo permanentemente dentro de casa.
Não cai.
Mas também não aprende.
A internet nasceu como um ambiente caótico, aberto e frequentemente desagradável. Era justamente esse caos que permitia que ideias ruins fossem derrotadas por ideias melhores.
Hoje, a solução encontrada por muitos parece ser diferente: em vez de vencer argumentos, basta impedir que eles circulem.
É um avanço extraordinário.
Afinal, discutir exige trabalho.
Censurar é muito mais eficiente.
O problema é que a história tem um hábito inconveniente: toda ferramenta criada para silenciar adversários acaba, mais cedo ou mais tarde, sendo usada contra seus próprios criadores.
Governos mudam.
Tribunais mudam.
Maiorias mudam.
Mas o poder de decidir quem pode falar continua existindo.
E é nesse momento que muitos descobrem que o “Ministério da Verdade” parecia uma excelente ideia enquanto estava perseguindo os outros.
A liberdade de expressão possui um defeito insuportável: ela permite que pessoas digam coisas erradas.
Mas existe um defeito ainda maior em permitir que alguém determine oficialmente o que é permitido pensar.
Por isso, toda vez que alguém propõe mais controle sobre opiniões, mais filtros sobre discursos ou mais autoridades encarregadas de definir a verdade, vale a pena fazer uma pergunta simples:
Quem fiscaliza os fiscais?
Porque, até hoje, ninguém conseguiu apresentar um sistema capaz de produzir seres humanos infalíveis.
E, felizmente, a democracia nunca precisou deles para existir.
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