Toda Copa do Mundo reaparece o mesmo discurso: "Enquanto o povo comemora gol, os políticos passam boiadas." Como se a corrupção tivesse hora marcada para acontecer. Como se o problema do Brasil fosse o sujeito que pinta a calçada, veste a camisa amarela e reúne a família para ver um jogo.
Seria ótimo se emenda secreta só surgisse quando o Brasil levantasse uma taça. A realidade é mais cruel: os que vivem do poder metem a mão no bolso do contribuinte na segunda, na terça, na quarta e no domingo. Com Copa ou sem Copa. Com carnaval ou sem carnaval. Com feriado ou expediente normal.
Transformaram o futebol em um bode expiatório nacional. E essa narrativa começou com a esquerda.
Por décadas, venderam a ideia de que gostar de futebol e da Seleção era sinônimo de alienação; que celebrar um título era prova de atraso civilizacional; que o patriotismo popular era suspeito, quase uma doença moral e um atestado de ignorância. E boa parte do povo comprou essa narrativa sem perceber o que vinha junto com ela. Até o mestre Olavo entrou nessa.
Mas é preciso aceitar: o futebol nunca foi apenas futebol. E nem falo da indústria bilionária que gera emprego em diversas áreas.
O futebol é uma das raríssimas linguagens capazes de atravessar todas as fronteiras sociais do país. Ele une o empresário e o pedreiro, o professor e o motorista de aplicativo, o morador do Leblon e o do interior mais distante. O sujeito pode discordar de tudo com o vizinho, mas sabe escalar a Seleção de 82, discutir o gol do Romário ou lembrar onde estava no penta de 2002.
Isso cria identidade. E identidade é poder. É força.
Talvez por isso determinados setores sempre tenham tratado o futebol com tanto desprezo. Não porque desprezem apenas o esporte, mas porque desprezam o Brasil que ele representa: o Brasil das ruas pintadas, das bandeiras nas janelas, das famílias reunidas, do orgulho espontâneo, da emoção coletiva que não depende de autorização de especialistas para existir.
O futebol no Brasil representa dentro e fora do campo um país unido por mestiços com tonalidade de pele indo do preto ao branco, ricos e pobres, homens e mulheres, festas em família. Um Brasil que já não vemos mais depois de anos de esquerda, em vários tons, no poder.
Ao mesmo tempo, é curioso observar a seletividade dessa indignação.
Durante anos, comentaristas transformaram a CBF em alvo permanente. O então presidente Ricardo Teixeira era tratado diariamente como símbolo máximo da degradação do futebol brasileiro. O jornalista Juca Kfouri vivia a ironizar, em transmissões de seu programa na CBN, que o público deveria ir ao intervalo "tomando chá de cadeira, esperando a queda de Ricardo Teixeira". Não custa lembrar, Teixeira era genro de **Jean-Marie Faustin Godefroid de Havelange, **o João Havelange, presidente da FIFA. Alguém que fez sua carreira no Brasil presidente da CBD em 1970.
Hoje, o tom mudou.
As estruturas sempre foram e hoje continuam cercadas por interesses políticos, disputas de poder e personagens influentes, mas o ímpeto moral parece ter perdido intensidade. Críticos ferozes tornaram-se discretos. Escândalos já não despertam o mesmo entusiasmo indignado. Quando vozes destoam, muitas vezes são rapidamente isoladas, enquanto o restante prefere o silêncio conveniente e não defendem os seus companheiros de profissão.
E há outro detalhe revelador: o tratamento dispensado aos ídolos.
Quando Pelé se recusava a cumprir o papel político esperado pela agenda eaquerdista, era acusado de omissão ou até mesmo desprezado. Quando Neymar manifesta opiniões que desagradam parte da mídia esportiva, vira alvo preferencial de campanhas de desmoralização. O problema nunca parece ser o atleta se posicionar. O problema é posicionar-se do lado "errado".
O futebol só é celebrado quando serve à narrativa que lhes interessa. Quando escapa dela, transforma-se em ferramenta de manipulação das massas.
Não deixa de ser irônico.
Os mesmos que durante anos afirmaram que o futebol embrutece o povo compreendem perfeitamente sua força simbólica. Sabem que a camisa da Seleção comunica pertencimento. Sabem que a bandeira desperta afeto. Sabem que determinados rituais populares fortalecem laços comunitários e sentimentos nacionais.
Por isso, não abandonam esse espaço; tentam ocupá-lo enquanto criticam. E a verdade é que já ocupam. Quem dá as cartas hoje na CBF é o filho do Ministro do Supremo Gilmar Mendes. Sem nenhum histórico ou relação com o esporte bretão. Dá até saudades do Ricardo Teixeira.
Aos poucos, o brasileiro foi convencido de que demonstrar amor ao país, pelo futebol, era motivo de constrangimento. As ruas deixaram de ser pintadas. As bandeiras desapareceram das janelas. A celebração espontânea passou a ser vista com desconfiança. Nada é como era antes. Muitos interpretam isso como simples mudança de costumes, como se o povo tivesse apenas "cansado". Talvez haja mais coisa por trás.
Nenhuma identidade nacional sobrevive quando seus símbolos passam a ser tratados como vergonha ou símbolo de coisa ruim. E na guerra cultural feito pela esquerda, tudo se relativiza. Até a camisa mais famosa do mundo seria oficialmente vermelha, com as mesma tática usada para justificar as cores da bandeira da República. Nossas matas, nosso ouro e surgiria o vermelho do Pau-Brasil. A brasa, um"vai brasa" desconectado do torcedor. Detalhe, substituíndo o azul, que surgiu como homenagem ao manto da padroeira, ou seja, um símbolo de nossa cristandade. Muita cara-de-pau e muita guerra cultural, isso sim.
Mas eles sabem que precisam do futebol. Não a toa um dos maiores expoentes e cabeça pensantes da esquerda marxista revolucionária no Brasil, Zé Dirceu, guerrilheiro na década de 60, mensaleiro do primeiro governo de Lula, apareceu hoje, dia da abertura da Copa, dando entrevista com o boné da CBF.
É claro que torcer pela Seleção não resolve o déficit público, não reduz impostos nem melhora o Congresso Nacional. Nunca resolveu. Mas também nunca foi responsável pelos nossos fracassos institucionais.
O brasileiro não precisa escolher entre acompanhar a votação do Senado e vibrar com um gol do Brasil. É perfeitamente capaz de fazer as duas coisas. Mas grande parte da direita comprou esse discurso e nunca notou. O cidadão que veste a camisa da Seleção não deixa de ser eleitor, contribuinte ou pai de família. E se a esquerda não consegue vestir o verde e o amarelo, foi por que eles nunca respeitaram e desejaram nada além do vermelho em todos os tons.
O problema do país nunca foi o futebol. Aliás, o futebol brasileiro abre portas para seu povo, para momentaneamente guerras colocando inimigos juntos, ainda que por 90 minutos e deu ao nosso país, no exterior respeito e admiração.
O futebol, apesar de todas as diferenças da sociedade, sempre lembrou ao cidadão comum que é algo que nos une. Mas eles não querem união, eles querem cisão, sociedade dividida. Eles precisam dividir para governar, nunca nos esqueçamos disso.
E quando um povo perde o direito de celebrar aquilo que ama sem pedir desculpas, ou perde o interesse por aquilo que trazia alegria, festa, confraternização e união, dificilmente perde apenas o jogo. O Brasil perdeu a si mesmo.
O que o assumidamente e um dos maiores amantes e cronistas do futebol, Nélson Rodrigues, falaria desse momento e dessa narrativa contra o futebol, introjetada em muita gente da direita, nos dias de hoje?
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