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Segunda-feira, 09 de Março 2026
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Eduardo Paes: O prefeito fantástico de Macondo Carioca.

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Eduardo Paes: O prefeito fantástico de Macondo Carioca.
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Se Gabriel García Márquez tivesse conhecido o Rio de Janeiro, não teria escrito Cem Anos de Solidão. Teria escrito Cem Eleições de Sobrevivência, com Eduardo Paes no papel central — não como herói ou mártir, mas como o típico personagem de Macondo: camaleônico, moralmente ambíguo, imortal por conveniência e absolutamente imune à vergonha.

A política carioca, como o realismo mágico de Márquez, é povoada por milagres tortos, mortos que votam, obras que desaparecem e políticos que ressuscitam das cinzas com a cara limpa e o sorriso ensaiado. Entre todos esses fantasmas tropicais, Eduardo Paes reina como o prefeito encantado de uma cidade iludida.

Seu currículo político é um romance de ficção dividido em capítulos de traições, alianças questionáveis e um ego tão inflado quanto os orçamentos das obras olímpicas que patrocinou. Foi criado politicamente por César Maia, nomeado subprefeito de Jacarepaguá nos anos 90 pelo PFL (atual União Brasil), tornou-se vereador e, com o cinismo precoce dos pragmáticos, traiu o padrinho sem pestanejar. Migrou para o PSDB, elegeu-se deputado federal, e logo encontrou uma nova figura tutelar: Sérgio Cabral.

Ah, Cabral! Figura onipresente no imaginário da corrupção fluminense, e o verdadeiro avalista da ascensão de Paes ao cargo de prefeito em 2008. Juntos, representaram o apogeu do PMDB como maquinaria de poder e negócio. Foi Cabral quem levou Paes para o partido. Foi Cabral quem articulou os bastidores. Foi Cabral quem bancou sua candidatura. E hoje? Paes finge não lembrar. Em seu realismo político particular, o passado é maleável. O que pesa, desaparece; o que envergonha, é apagado. Macondo em sua plenitude.

Esse vínculo umbilical com Cabral, que deveria envergonhá-lo, hoje é negado como se fosse uma ficção criada por adversários. Eduardo Paes tenta se reinventar como gestor neutro, moderno, cosmopolita — mas o cheiro do mofo peemedebista continua grudado ao seu paletó. E assim, o personagem volta à cena como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse participado da mesma engrenagem podre que transformou o Rio em símbolo da decadência política nacional.

Eduardo Paes é também um especialista em não cumprir acordos. Seu histórico com aliados e partidos é um desfile de promessas quebradas, alianças descartáveis e compromissos que evaporam assim que as urnas se fecham. No bastidor, é conhecido como um político difícil, de pavio curto, impulsivo — o famoso “nervosinho”. Já bateu boca com jornalistas, vereadores, servidores públicos e até com eleitores nas ruas. Sua arrogância temperada com populismo o faz parecer, por vezes, um coronel de terno slim fit: autoritário, mas com pegada de marqueteiro.

Durante seus mandatos como prefeito (2009–2016 e 2021–hoje), Paes vendeu um Rio “globalizado”, pronto para eventos internacionais. Recebeu bilhões em investimentos públicos para as Olimpíadas de 2016, e entregou em troca um cenário de maquiagem urbana, obras de fachada, corrupção estruturada e desrespeito à cidade real. A famosa ciclovia Tim Maia, símbolo da “cidade olímpica sustentável”, desabou e matou — e foi apenas o primeiro colapso de uma série de promessas vazias.

Eduardo Paes também é o prefeito do legado-fantasma: VLTs caríssimos e inúteis, terminais abandonados, equipamentos olímpicos em ruínas, e a perpetuação da desigualdade urbana. Fez discursos sobre inclusão, mas governou para os grandes empresários. Pregou transparência, mas acumulou denúncias. Posou como gestor, mas agiu como velho político.

Não bastasse a inoperância disfarçada de eficiência, Paes é um mestre da incoerência ideológica. Em 2014, vestiu a camisa de Aécio Neves com fervor; em 2020, apareceu de braços dados com Lula. Já foi da direita (PFL), da centro-direita (PSDB), da direita fisiológica (PMDB), e hoje se diz progressista — como se bastasse uma hashtag no Twitter para se redimir de duas décadas de fisiologismo. Paes é tudo. E, portanto, é nada.

Ele governa com planilhas, mas sem coração. Apresenta PowerPoints sobre “cidade inteligente”, enquanto as comunidades continuam sem saneamento. É uma autoridade digital num território analógico. Um prefeito 5G numa cidade que não tem nem 2G de dignidade urbana.

Como nos romances de Márquez, a cidade parece não se lembrar. Macondo esquecia que vivia um eterno retorno de tragédias. O Rio também. E Paes, personagem central dessa narrativa de decadência, sempre retorna — reluzente, sorridente, com nova logomarca e as mesmas práticas mofadas. Ele não precisa se reinventar, apenas reembalar.

Eduardo Paes não é gestor. É ficção. Uma farsa que se repete a cada ciclo eleitoral, alimentada por uma cidade exausta, mas ainda crédula. É o prefeito de uma cidade que sonha em ser moderna, mas vive presa em um enredo de coronelismo urbano, alianças pantanosas e narrativas falsas. É o mágico de Oz da política carioca: muito barulho, fumaça e luzes… mas, atrás da cortina, o velho Paes — oportunista, impulsivo e profundamente ligado às entranhas do que há de mais podre na política do Rio.

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