Durante os últimos meses, entre notícias dispersas, memes acusatórios e delírios de rede social, circula a suspeita de que o Brasil teria vendido urânio ao Irã. Alguns chegam a afirmar que o próprio Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, teria feito essa denúncia abertamente. Mas até o momento, não há qualquer declaração oficial, entrevista ou fala pública em que Netanyahu aponte o Brasil como fornecedor de material nuclear ao regime dos aiatolás. Como se não bastasse, também é falsa — até prova em contrário — a história do “urânio desaparecido” que teria misteriosamente tomado rumo ao Oriente Médio. Nenhuma cápsula sumiu. Nenhuma carga foi extraviada. Nada, oficialmente, se perdeu.
Mas o problema começa justamente aí. Porque, em geopolítica, o que se oculta costuma ser mais grave do que aquilo que se anuncia. O fato de não haver prova material não elimina o direito — e o dever — da população brasileira de desconfiar. Ainda mais quando lembramos que dois navios de guerra iranianos, o Iris Makran e o Iris Dena, ambos de considerável porte e capacidade militar, ancoraram tranquilamente no porto do Rio de Janeiro, com autorização direta da Marinha brasileira, mesmo após pressões dos Estados Unidos e alertas diplomáticos de Israel sobre os riscos dessa aproximação.
O Makran, que servia como navio-base da frota iraniana no Atlântico Sul, é um porta-helicópteros convertido com capacidade para lançar drones, abastecer embarcações de guerra e realizar operações de longa distância. Já o Dena é uma fragata leve, equipada com mísseis antinavio e sistema de guerra eletrônica. Essas embarcações haviam sido barradas anteriormente em outros portos, como no Panamá e na África do Sul, justamente por sua associação com o programa de defesa do regime iraniano, alvo de sanções internacionais. Mas no Brasil — no Brasil do “país amigo de todos”, do “não nos metemos em guerras”, do “somos neutros” — foram recebidos com cordialidade, fotografados discretamente e liberados sem maiores explicações.
Diante disso, o cidadão comum tem todo o direito de perguntar: o que exatamente esses navios vieram buscar aqui? Qual foi a natureza dessa visita em meio ao silêncio do Itamaraty? Que tipo de material entrou ou saiu do porto do Rio sob vigilância das Forças Armadas, da Receita Federal, da Polícia Federal e da Marinha do Brasil? Por que um país sob sanções internacionais, investigado por prosseguir com seu programa nuclear de duplo uso, tem acesso tão facilitado aos portos de uma nação signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear?
O Brasil, como se sabe, detém uma das maiores reservas de urânio do mundo. E embora oficialmente o país não exporte urânio enriquecido nem tenha programa de armamento nuclear, a infraestrutura existe: temos usinas em operação, tecnologia de centrifugação desenvolvida pela Marinha, e monopólio federal da produção, hoje operado pela INB — Indústrias Nucleares do Brasil. A custódia e o transporte desse material são atividades sensíveis, normalmente monitoradas pelas Forças Armadas e pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), sob o guarda-chuva de tratados internacionais como o TNP, a ABACC (com a Argentina) e o acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Se, por hipótese — e aqui reside o escopo da análise crítica — houvesse qualquer operação clandestina de transferência de urânio ao Irã, estaríamos diante de uma das mais graves violações do direito internacional ocorridas no século XXI. Seria o rompimento frontal de acordos diplomáticos com os Estados Unidos, Israel, Europa e com os próprios organismos de controle atômico. Seria crime contra a ordem internacional, passível de sanções econômicas severas, corte de acordos estratégicos, isolamento diplomático e, internamente, enquadramento criminal de agentes públicos e militares por crime contra a segurança nacional, responsabilidade presidencial e traição ao Estado.
A cadeia de comando não deixaria dúvidas: no topo, o presidente da República, como autoridade máxima do Executivo e chefe das Forças Armadas. Abaixo dele, o ministro de Minas e Energia, responsável pela política nuclear; o ministro da Defesa, responsável pela custódia operacional do material; os comandos da Marinha e do Exército, encarregados do transporte e da segurança. Além disso, a Receita Federal, o Itamaraty e até autoridades civis portuárias poderiam ser implicadas — por ação, omissão ou cumplicidade.
Mas o que torna esse assunto ainda mais inquietante é a dubiedade com que o atual governo conduz sua política externa. A aproximação explícita com regimes autoritários, como Venezuela, Cuba, Nicarágua, Irã e China, não é mais um acidente diplomático — é um padrão. Um alinhamento ideológico com forças que, além de violarem direitos humanos em seus próprios territórios, operam ativamente para minar a ordem liberal ocidental que, com todos os seus defeitos, ainda oferece alguma previsibilidade ao mundo. Nessa lógica, o Brasil caminha a passos largos para se tornar uma espécie de ponte entre os párias — um “país de neutralidade estratégica” que serve de canal, de entreposto, de campo de manobra para interesses alheios à sua soberania.
A pergunta que se impõe, portanto, não é apenas se o Brasil vendeu ou não vendeu urânio ao Irã. A pergunta mais urgente é: *que país estamos nos tornando ao permitir que essa hipótese, por mais improvável que pareça, seja plausível aos olhos da comunidade internacional?* Em que momento passamos a aceitar como normal que navios de guerra de regimes fundamentalistas ancorem nos nossos portos, que diplomatas acusados de terrorismo circulem por Brasília, que a política externa seja conduzida como se não houvesse consequências?
O Brasil não precisa vender urânio para se comprometer. Basta vender sua alma.