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Segunda-feira, 27 de Abril 2026
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DA GALLIA DE CESAR À FRANÇA DE MACRON

Uma pequena revisão histórica

DA GALLIA DE CESAR À FRANÇA DE MACRON
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O país que hoje conhecemos como França era, antes da sua formação como nação independente, uma região chamada pelos romanos como Gallia, que era habitada pelos celtas, um antigo povo europeu que lá vivia desde a Idade do Ferro (uns 1000 anos a.C.). 

Os gauleses sempre foram guerreiros. Durante os primórdios da República Romana, no século IV a.C., chefiados por um líder chamado Breno, eles invadiram a península itálica e saquearam a cidade de Roma, em um episódio traumático para a população romana, que entrou para a história em relatos autênticos, como o de Tito Lívio. Foi nessa ocasião que o líder Breno teria dito a famosa frase “vae victis”, ao se referir aos romanos – “ai dos vencidos”. Os gauleses se retiraram de Roma, mas os prejuízos foram incalculáveis para a Cidade-Estado, que àquela época longe estava de ser o império expansionista que viraria no futuro.

Alguns séculos depois da humilhação que Roma passou nas mãos dos gauleses, o general romano Caio Julio Cesar resolveu empreender um dos maiores planos militares de todos os tempos, talvez nunca antes repetido na história mundial, que foi conquistar e anexar toda a região da Gallia à Roma. No evento conhecido como Guerras Gálicas, a serie de campanhas que duraram 5 anos, de 58 a.C. a 52 a.C., até a rendição de Vercingetórix, o líder dos gauleses, Cesar logrou êxito em apossar-se (para Roma) da vasta região da Gallia. Tudo está narrado no livro que o próprio Cesar escreveu, chamado De Bello Gallico, obviamente com nítido viés propagandístico sobre sua própria pessoa, mas de relevantíssimo valor histórico, pois trata dos eventos militares em tempo real.

Depois da anexação romana, a Gallia foi dividida em várias províncias, várias regiões, cada qual com seus governadores e aparatos burocráticos romanos, na conhecida estratégia “divide et impera” que Roma impunha (o chamado “divide e governa”). A Gallia sobreviveu por longos cinco séculos sob a jurisdição de Roma, tendo todas as cidades se “romanizado”, florescendo culturalmente e vivendo na mais absoluta harmonia com os romanos, e em paz – com exceção, como sabido, daquela aldeia do Asterix e Obelix, que se recusava a aceitar a “pax romana” (e isso é uma piada, tenho que ressalvar).

Mas no Tardo Império, quando a partir do final do século IV Roma começou a perder as suas províncias, pois já não conseguia mais controlar as fronteiras, no início dos anos 400 a Gallia foi, aos poucos, se esfarelando, se diluindo, se quebrando em várias porções de terra, com autonomia própria, já fora da jurisdição romana. Muito disso devido à invasão dos povos germânicos na Gália, e não por vontade dos próprios gauleses, que na verdade “se sentiam romanos”, e eram de fato cidadãos do império, com todos os direitos que a cidadania acarretava. 

Um desses povos germânicos a invadir a Gália foram os francos, que se apossaram da região central depois de atravessarem a fronteira com a Germania, separada pelo Rio Reno. Abra-se um parêntese para dizer que essa foi a primeira vez que os alemães invadiram a França. Uns quinze séculos após, eles repetiriam o evento. 

Algumas décadas após a saída dos romanos da antiga província da Gallia, os francos coroaram o seu primeiro rei, Clóvis I, no final do século V, mais ou menos em 490. Deu-se início formal ao Reino da Frância, a terra dos francos. Três séculos mais tarde, a soberania dos francos sobre a região e as fronteiras territoriais se solidificaram na época de Carlos Magno, no final do século VIII e início do século IX, aclamado como Rei dos Francos, dos Lombardos e do Império Romano – que ele pretendia reconstituir. 

Na verdade, a importância de Calos Magno é tamanha, que pode-se dizer que ele estabeleceu o traçado da Europa atual. Ele viveu em Aachen, na Alemanha, a antiga cidade romana de Aquisgranum (ou, em italiano, Aquisgrana).
Assim, com fronteiras bem definidas e com um povo bem educado, pois de forte herança latina, e reis e soberanos fortes, a França tornou-se a maior potência da Idade Média, superando, por muitas vezes, os ingleses, que, verdade seja dita, estavam mais preocupados com questões internas, da sua ilha, do que com a Europa e o resto do mundo (até o advento da Idade Moderna, no século XV, quando a Inglaterra passou a ser a principal protagonista de tudo).

Já no século XVIII, os franceses, produtos que eram da mistura dos antigos gauleses celtas com os francos germânicos, e que por isso sempre foram brigões e criadores de caso, resolveram fazer uma revolução e pôr as estruturas do Estado abaixo, derrubando a monarquia que existia desde a formação do país, quando era o Reino dos Francos. Em um banho de sangue interminável, propagandeado com o bonito slogan “liberdade, igualdade, fraternidade”, iniciaram uma revolução que matou milhares de pessoas e provocou uma desordem institucional e caos social típicos daqueles das próprias invasões bárbaras ou mesmo das guerras gálicas, que estavam na origem da França, no DNA do povo francês. 

Nesse ambiente de terra devastada surgiu um militar, apaixonado pelas estratégias romanas de Julio Cesar, aquele general que conquistou a Gallia antes mesmo de ela ser a França, chamado Napoleão Bonaparte, e que tomou posse do país, proclamando-se imperador – com direito a coroa de louros e tudo, nos moldes dos antigos romanos. E, indo além, tal qual um Julio Cesar repaginado, resolveu aplicar a máxima romana “divide et impera” pela Europa no início do século XIX, invadindo países soberanos, destronando reis e impondo seus próprios governantes e novas legislações, embasadas no que se chamava “Código Napoleônico”, uma lei geral que o general impôs no seu próprio país, a França, tendo como modelo o “Corpus Juris Civilis” de Justiniano, em Constantinopla.

Napoleão Bonaparte, depois de tocar o terror na Europa por muitos e muitos anos, acabou derrotado. Mas seu gênio militar é reconhecido por todos que são fieis à história e a estudam de forma honesta.

E assim os franceses, com esse DNA guerreiro, como dito acima, seguiram conquistando territórios. No imperialismo do final da segunda metade do século XIX até início do século XX, possuíam mais colônias mundo afora do que poderia imaginar algum gaulês ou mesmo um franco lá da antiguidade, que, em um exercício de futurologia naqueles primórdios, mesmo com toda a megalomania típica dos romanos, jamais cogitaria que seu país futuramente seria o “dono do mundo”, impondo suas “pax francesa” na África, Caribe, Américas, e Ásia. Desde a Argélia e o Senegal até o Vietnã, passando ainda por Quebec e a antiga Louisianna, tudo era da França! 

Na primeira metade do século XX, a França passou pelas duas Grandes Guerras, sofrendo coisas que ninguém consegue imaginar. Cidades inteiras arrasadas, população morta, perdas econômicas gigantescas, mas o país seguiu avante de uma maneira invejável. E não só seguiu avante como se desenvolveu entre as nações mais importantes do mundo moderno. Integra o grupo dos sete países mais ricos do planeta, e é um dos cinco (países) que possuem armas nucleares, aquelas capazes de destruir a própria humanidade em fração de minutos.

Mas, surpreendentemente, inobstante toda essa minha demonstração histórica (algumas vezes com uma narrativa irônica e hilária, reconheço) da grandeza dos franceses, e do que é composto o seu DNA, do tipo de sangue que corre nas veias do seu povo, hoje vemos um país totalmente apático, controlado por pessoas amorfas, sem estofo moral e intelectual, representados na figura de Emmanuel Macron, incapaz de conter a onda de ataques perpetrados por cidadãos franceses de 2ª ou 3ª geração, filhos e netos de imigrantes muçulmanos (e/ou árabes). Chamo aqui de onda de ataques em uma subvalorização retórica do que vem acontecendo atualmente na França, pois não quero ser adjetivado pelos que costumam não conseguir interpretar textos ou figuras de linguagem.
O que ocorre na França mais parece uma guerra civil, ou um cenário de um daqueles filmes apocalípticos, como Mad Max – as imagens falam por si sós. 

A figura do Presidente da França, institucionalmente, é muito poderosa! Tem nas mãos o destino de muita coisa, que muitos sequer conseguem imaginar. Mas a mesma França que um dia pariu Vercingetórix, o grande líder dos gauleses, que se rendeu a Cesar apenas após cinco anos de guerra, e Napoleão Bonaparte, o general que trazia em si um gênio militar como nunca havia sido visto antes, e que quis ser imperador, à moda dos césares romanos, pariu também Macron, o homúnculo incapaz de governar, e que talvez seja o soberano mais odiado e desprezado pela própria população – excluindo-se obviamente países totalitários, como Venezuela e Coreia do Norte.

Como Macron foi parar no cargo não é motivo desse texto. Aqui, analiso apenas a questão da França com o DNA do povo francês, para traçar um paralelo do que está acontecendo hoje naquele país, que tem um governante fraco, inapto, totalmente incapacitado para ocupar a posição de Chefe de Estado, comparando com momentos históricos.

Eu não acho que “a França acabou”, que “o país será destruído”, que “se transformará em um califado”, ou algo do gênero, como alguns estão afirmando. Para destruir um país, ou para impor uma outra cultura sobre a existente, é necessário muito, mas muito mais. Mais uma vez cito Roma, meu paradigma histórico: mesmo quando os bárbaros derrubaram o último imperador, em 476, as coisas continuaram do mesmo jeito que estavam, com estradas ligando as cidades e aquedutos abastecendo a população com água, por mais uns 60 anos, até tudo ruir de vez com a invasão de Justiniano, na tentativa de reconquistar a porção do império perdida para os bárbaros. Foi ali que tudo ruiu. 

Então, mais uma vez: a França não cairá. Ela não desaparecerá como país. Ela não será dominada por povo islâmico algum. Mas a França inegavelmente passa por um processo de decadência cultural, fruto da permissividade com o aculturamento da sociedade, e da barbarização do país, processo que vem ocorrendo de forma veloz principalmente porque uma pessoa como Macron é o Presidente da República. 

IMAGEM: Vercingetórix joga suas armas aos pés de Júlio César (1899, óleo sobre tela, Lionel Royer)

Fonte/Créditos: Guillermo Federico Piacesi Ramos

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