A perda auditiva vai muito além da dificuldade de escutar sons. Segundo especialistas ouvidos pelo programa CNN Sinais Vitais, ela pode desempenhar um papel importante no desenvolvimento e na aceleração de quadros de demência, principalmente por favorecer o isolamento social e aumentar o esforço cognitivo do cérebro.
O tema foi discutido pelo otorrinolaringologista Rubens Brito, professor associado da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e coordenador no Hospital Sírio-Libanês, e pela fonoaudióloga Paula Junqueira, coordenadora do Centro de Otorrinolaringologia da mesma instituição.
Isolamento social aumenta os riscos
De acordo com Rubens Brito, a perda da audição faz com que muitas pessoas reduzam gradualmente sua participação em atividades sociais, o que pode afetar diretamente a saúde mental.
"Ela vai se fechando cada vez mais dentro dela, não participando, o mundo vai ficando muito pequeno", afirmou o especialista.
Além das conversas com familiares e amigos, a pessoa também deixa de perceber sons cotidianos, como a chuva, o canto dos pássaros ou outros ruídos do ambiente, experiências que contribuem para a qualidade de vida e o bem-estar.
Reabilitação auditiva pode retardar a demência
Segundo o médico, estudos recentes apontam que tratar a perda auditiva pode ter impacto significativo na prevenção do declínio cognitivo.
"As pesquisas mostram que a melhora da audição é o único fator que realmente impacta no retardar de uma demência senil", destacou.
A afirmação reforça a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado, seja por meio de aparelhos auditivos ou de outras formas de reabilitação, conforme a necessidade de cada paciente.
Ouvir não significa compreender
A fonoaudióloga Paula Junqueira explicou que o processo da audição envolve muito mais do que os ouvidos.
Segundo ela, o som captado é transformado em sinais elétricos que percorrem diversas regiões do cérebro até serem interpretados como fala ou outros sons.
"Quando eu penso numa pessoa que não está ouvindo bem, o sofrimento é da via do cérebro que está tentando entender o que está sendo falado com pequenos buracos", explicou.
Isso faz com que muitas pessoas tenham a sensação de ouvir alguém falando, mas não consigam compreender completamente o que foi dito.
Esforço mental constante
Dependendo do grau da perda auditiva, partes dos sons deixam de chegar ao cérebro, obrigando a pessoa a preencher essas lacunas mentalmente.
Esse esforço acontece de forma contínua e, muitas vezes, passa despercebido pelo próprio indivíduo.
"Uma reunião social, que é para ser prazerosa, ele tem que ficar muito atento, tem que ficar olhando para o rosto da pessoa para conseguir entender bem", afirmou Paula Junqueira.
Com o tempo, esse desgaste pode fazer com que a pessoa passe a evitar encontros, conversas e ambientes com muitas pessoas.
Diagnóstico precoce faz diferença
Os especialistas ressaltam que identificar a perda auditiva nos primeiros sinais pode trazer benefícios que vão além da melhora da audição.
Ao preservar a comunicação, manter a interação social e reduzir o esforço cognitivo, o tratamento pode contribuir para uma melhor qualidade de vida e ajudar a diminuir fatores associados ao desenvolvimento da demência.
Por isso, pessoas que percebem dificuldade para entender conversas, precisam aumentar frequentemente o volume da televisão ou solicitam repetição constante do que foi dito devem procurar avaliação médica para investigar possíveis alterações auditivas.
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