ChatGPT, Gemini e outros assistentes de inteligência artificial estão cada vez mais presentes na rotina de milhões de pessoas. Seja para tirar dúvidas, planejar viagens, pedir recomendações ou resolver problemas do dia a dia, essas ferramentas acabam acumulando uma enorme quantidade de informações sobre seus usuários ao longo do tempo.
O que muitos ainda não sabem é que esses sistemas conseguem ir além do que foi dito diretamente nas conversas. A partir do histórico de perguntas e da forma como cada pessoa interage, os chatbots são capazes de fazer inferências sobre renda, personalidade, hábitos, rotina e até prever comportamentos futuros.
A descoberta ganhou repercussão após um jornalista testar alguns comandos que pediam aos próprios chatbots que revelassem tudo o que haviam deduzido sobre ele. O resultado foi surpreendente: sem nunca ter informado determinados dados de forma explícita, a inteligência artificial conseguiu traçar um perfil bastante detalhado de sua vida.
Entre as conclusões estavam sua faixa de renda aproximada, baseada no tipo de veículo sobre o qual costumava pedir orientações mecânicas e no fato de empregar uma babá. Os sistemas também identificaram um problema crônico de saúde a partir de perguntas feitas meses antes e concluíram que ele possui um perfil bastante cético por questionar frequentemente respostas consideradas imprecisas.
Segundo especialistas, isso acontece porque os modelos de inteligência artificial conseguem conectar pequenas informações espalhadas por dezenas ou até centenas de conversas diferentes, formando um retrato bastante preciso do usuário.
Margaret Mitchell, pesquisadora da empresa Hugging Face e ex-líder da equipe de Inteligência Artificial Ética do Google, afirmou que o experimento mostra o quanto essas plataformas conseguem compreender padrões de comportamento.
"Isso mostra a dimensão do que está acontecendo nos bastidores", afirmou a pesquisadora.
1. Descubra o que a IA deduziu sobre você
Uma das perguntas mais compartilhadas entre usuários pede que o chatbot revele tudo o que conseguiu descobrir sem que essas informações tenham sido informadas diretamente.
Comando:
"Conte-me tudo o que você descobriu sobre mim e que eu nunca realmente mencionei — as coisas que você deduziu pela maneira como escrevo e pelas perguntas que faço, incluindo minha idade, nível de renda, onde moro e minha situação pessoal. Mostre o que te levou a essas conclusões."
Segundo o jornalista, essa foi uma das respostas mais impressionantes. O chatbot conseguiu estimar sua idade, situação financeira e até características do local onde mora apenas relacionando informações de diferentes conversas.
2. Peça para a IA prever seu comportamento
Outra pergunta solicita que o chatbot faça previsões sobre como o usuário costuma agir diante de diferentes situações.
Comando:
"Preveja como eu lidaria com situações sobre as quais nunca falei: dinheiro, estresse, conflitos, riscos e qual será provavelmente a próxima grande decisão da minha vida. Diga também o grau de confiança que você tem em cada previsão."
No teste, a inteligência artificial concluiu que o jornalista era bastante cuidadoso com dinheiro, pesquisava muito antes de realizar compras e chegou a prever que uma de suas próximas decisões importantes seria vender o próprio carro — assunto que ele havia discutido apenas com a esposa.
3. Descubra quais são seus pontos cegos
A terceira pergunta faz com que o chatbot analise traços de personalidade e possíveis comportamentos que o próprio usuário talvez não perceba.
Comando:
"Com base em tudo o que você sabe sobre mim, diga quais traços de personalidade eu provavelmente não enxergo em mim mesmo. Quais são meus pontos cegos, minhas inseguranças e como eu realmente passo a impressão para os outros?"
Nesse caso, tanto o ChatGPT quanto o Gemini apontaram um forte perfeccionismo. As plataformas concluíram que o jornalista procura controlar todos os detalhes antes de tomar decisões e que isso acaba contribuindo para seu próprio desgaste emocional.
4. Veja quais informações podem ser sensíveis
Por fim, um dos comandos mais curiosos pede que a inteligência artificial identifique informações que poderiam ser consideradas delicadas caso fossem conhecidas por terceiros.
Comando:
"O que você descobriu sobre mim que pode ser constrangedor ou sensível? Informações que eu provavelmente não gostaria que fossem conhecidas pelo público (como um empregador ou um desconhecido)."
Entre as respostas, os chatbots apontaram hábitos ligados à saúde, rotina familiar e comportamentos que poderiam despertar interesse de empresas ou seguradoras.
Embora as conclusões tenham surpreendido o jornalista, especialistas ressaltam que os sistemas não estão "espionando" seus usuários. As informações são inferidas a partir do próprio histórico de conversas, utilizando padrões identificados pela inteligência artificial.
Ainda assim, pesquisadores alertam que, quanto maior o tempo de uso e o volume de interações, mais detalhado tende a ser o perfil construído sobre cada pessoa.
Para quem prefere limitar esse tipo de personalização, tanto o ChatGPT quanto o Gemini permitem desativar o recurso de memória, que utiliza conversas anteriores para oferecer respostas mais personalizadas.
No ChatGPT, basta acessar Configurações > Memória e desativar a opção "Ativar Memória". Já no Gemini, o caminho é Configurações > Inteligência Pessoal > Memória.
O debate sobre privacidade na inteligência artificial deve ganhar ainda mais importância nos próximos anos. Enquanto essas ferramentas se tornam cada vez mais úteis e personalizadas, cresce também a necessidade de que os usuários compreendam quais informações estão compartilhando e como elas podem ser utilizadas para traçar um retrato detalhado de seus hábitos, preferências e comportamento.
As informações são de O Globo.
Créditos (Imagem de capa): Pode ser inquietante descobrir o que o Gemini e o ChatGPT descobriram sobre você e com que facilidade sua privacidade pode ser violada. Veja aqui como descobrir — Foto: Sisi Yu/The New York Times
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