Pesquisadores encontraram uma solução simples e curiosa para ajudar a proteger rebanhos contra ataques de grandes felinos na África: pintar olhos falsos na garupa das vacas.
A técnica foi testada na região do Delta do Okavango, em Botsuana, e explorou o comportamento natural de leões e leopardos, que costumam atacar suas presas por emboscada. Segundo os cientistas, quando o predador acredita que foi visto, as chances de desistir do ataque aumentam.
O estudo foi desenvolvido em parceria com criadores de gado da região e buscou reduzir os conflitos entre produtores rurais e a fauna selvagem sem causar danos aos animais.
Como funciona a técnica
Leões normalmente observam e perseguem suas presas de forma silenciosa antes de atacar.
Quando percebem que foram notados, perdem o fator surpresa e precisam avaliar se vale a pena continuar a caçada.
Com base nesse comportamento, os pesquisadores pintaram grandes olhos nas duas laterais da garupa das vacas para criar a impressão de que os animais permaneciam atentos, mesmo quando estavam de costas para o predador.
Além do grupo que recebeu os olhos artificiais, outro conjunto de animais recebeu apenas marcas em formato de cruz, enquanto um terceiro grupo permaneceu sem qualquer pintura para comparação.
As cores utilizadas foram escolhidas para criar forte contraste com a pelagem dos bovinos.
Mais de 2 mil vacas participaram do estudo
O experimento acompanhou 14 rebanhos que já haviam registrado ataques de leões.
Durante quatro anos, os pesquisadores realizaram 49 sessões de pintura e monitoraram 2.061 bovinos que pastavam em áreas próximas aos habitats de grandes carnívoros.
Do total de animais:
- 683 vacas receberam olhos pintados;
- 543 foram marcadas com cruzes;
- 835 permaneceram sem qualquer pintura.
Os três grupos permaneceram juntos durante o pastoreio, permitindo comparar o desempenho de cada técnica sob as mesmas condições.
Resultado surpreendeu os pesquisadores
Os resultados chamaram a atenção.
Durante todo o período do estudo, nenhuma das 683 vacas com olhos pintados foi morta por predadores de emboscada.
Entre os animais marcados apenas com cruzes, ocorreram quatro mortes.
Já no grupo sem qualquer pintura, foram registradas 15 mortes.
Dos 19 ataques fatais considerados pelos pesquisadores, 18 foram provocados por leões e um por um leopardo.
Segundo os cientistas, embora os olhos artificiais tenham apresentado o melhor resultado, as cruzes também pareceram oferecer algum grau de proteção, sugerindo que marcas grandes e incomuns podem provocar cautela nos predadores.
Benefício também pode ajudar na conservação dos leões
Além de proteger o rebanho, a técnica pode beneficiar os próprios leões.
Quando uma vaca é morta, muitas famílias que dependem da pecuária sofrem prejuízos financeiros e, em alguns casos, acabam perseguindo ou matando os predadores em retaliação.
Por ser uma solução simples, barata e não letal, a pintura pode ser utilizada juntamente com outras medidas de proteção, como cercados noturnos e monitoramento constante dos rebanhos.
Os pesquisadores destacam que estratégias semelhantes já foram testadas anteriormente, como a pintura de listras parecidas com as das zebras em vacas para reduzir a aproximação de moscas.
Técnica não elimina totalmente o risco
Apesar dos resultados positivos, os autores do estudo alertam que a pintura dos olhos não garante proteção absoluta.
Como os rebanhos monitorados reuniam animais pintados e não pintados, ainda não é possível afirmar se o efeito seria o mesmo caso todas as vacas recebessem a pintura.
Os cientistas também consideram a possibilidade de que, com o tempo, os leões possam se acostumar às marcas.
Por isso, a recomendação é que a técnica seja utilizada como uma medida complementar, associada ao manejo adequado dos rebanhos e a outras estratégias de prevenção de ataques.
Créditos (Imagem de capa): © Imagem gerada por IA
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