Existe um dito popular no qual afirma que o tempo cura todas as coisas.
Embora eu seja uma apreciadora do conhecimento empírico, após refletir sobre alguns eventos atuais, me atrevo a discordar, ainda que respeitosamente, desta convicção.
E para tal, gostaria de convidá-lo, querido leitor, a relembrar alguns episódios lamentáveis ocorridos na humanidade. Decerto, se analisarmos de forma prática e imparcial, concluiremos que estes, advieram de ações humanas.
Não obstante esta certeza, perceberemos também que o ser humano tende ciclicamente a retornar para padrões obscuros: de crueldade, ambição e conformismo. Assim, a história ou o tempo, como queira chamar, contribuiu sabiamente para desnudar tais aspectos.
Refutando a afirmação inicial, eu me atrevo a dizer que o silêncio cura todas as coisas. E se não, de forma direta, talvez indiretamente o seu papel seja crucial.
Após muito refletir e viver o silêncio em suas mais variadas formas, gosto muito da visão do músico e arquiteto polonês, naturalizado americano, Daniel Libeskind. Para ele, a concepção de suas construções deve considerar, e se possível projetar, o som produzido dentro dos ambientes.
Quando questionado acerca do assunto, ele argumenta que o senso de orientação e equilíbrio do ser humano, se dá em seu ouvido interno. Assim, este pequeno órgão, curiosamente chamado de labirinto, tem um papel fundamental em triar e responder de forma sensata ou não, a tudo aquilo que ouvimos ou também deixamos de ouvir.
Como músico e portanto, conhecedor das frequências atingidas pelos mais variados sons, seu intuito, segundo ele, é incorporá-los a cada uma de suas obras, a fim de produzir as sensações as quais elas se destinam.
Um exemplo notório é o Museu Judaico. Segundo Daniel, durante a sua construção, ele percutia criteriosamente as paredes e os elementos dispostos em cada seguimento do prédio. O resultado pode ser observado já em seu átrio, onde os visitantes ao adentrarem e movimentarem o ar contido no ambiente, produzem a sensação audível de ausência.
Em outro ambiente, onde encontra-se milhares de arquétipos faciais de metais dispostos no chão, representando as milhares vítimas do holocausto, ao pisarmos nestas faces, a frequência atingida por este “pisar” produz a sensação de perda.
Embora estas pequenas sensações de forma momentânea produzam um certo desconforto; em nosso íntimo, elas são as responsáveis por nos fazerem refletir sobre as nossas atitudes ou a falta delas.
Assim, o ser humano não é modificado pelo tempo, mas por aprender, através do tempo, a pensar de forma clara ou ainda, a se dispor a pensar acerca de suas ações.
E para isso, o silêncio parece ter um papel fundamental.
Talvez por isso, o mundo faça tanto barulho. Seria uma tentativa de fuga da sua própria consciência? Quem poderá de fato nos responder?
E não quero com isso execrar os sons. Por favor, não me entenda mal.
Existem sons que, quando manifestados, produzem vida, alegria e nos movem.
Palavras quando ditas de forma amorosa nos constroem, produzem dignidade, nos elevam e muitas vezes, nos demovem de labirintos.
E, existem silêncios que matam...Que nos afastam, nos consomem. Existe o silêncio da espera, da covardia, da guerra fria, da negligência...
E o silêncio das palavras nunca ouvidas... Dos amores que nunca chegaram a acontecer...
Reza a lenda que, por ser surdo, Beethoven jamais ouviu a declaração de amor da sua amada. Ele, um gênio, responsável por produzir sons que encantam, morreu sem jamais ouvir o som mais maravilhoso a ser contemplado por nós humanos: o som de se sentir amado.
E existe o silêncio dos injustiçados... Dos clamores que ecoarão por toda a eternidade...
Chegando ao final, concluo este reflexivo tema convencida de que, nós humanos, não temos todas as respostas... E estamos muito longe disso.
Certa de que até mesmo as mentes mais prodigiosas de todos os tempos, estiveram a mercê de sensações que transitaram entre as mais sublimes às mais confusas, destaco que isso é viver.
E viver é ser livre para não ter medo de falar, nem de calar.
Viver é a arte de confrontar seus labirintos interiores e na sutileza das sensações em nós produzidas, encontrar razões para permanecermos; seguros de que, em algum momento, faremos o certo. Porque a vida é cíclica, e ela precisa continuar.
E para finalizar, convicta de um desfecho honrado, despeço-me com a sublime antítese de Lulu Santos, a qual exprime de forma primorosa o debate ao qual me propus conduzir:
“Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
de silêncios e de luz...
Nós somos medo e desejo
Somos feitos de silêncio e sons...
Tem certas coisas que eu não sei dizer...”
(Certas Coisas – Lulu Santos, 1984).
Dedico este texto às vítimas do massacre de 07 de outubro em Israel. 🇮🇱