Há uma frase que atravessa gerações e que, de tão repetida, acabou perdendo parte de sua força: "Os políticos são o reflexo da sociedade."
Muitos a rejeitam por parecer simplista. Outros a repetem sem refletir sobre seu verdadeiro significado.
No entanto, basta observar a história política brasileira para perceber que talvez ela seja uma das afirmações mais desconfortáveis — e mais verdadeiras — já feitas sobre nossa democracia.
Costumamos atribuir todas as mazelas nacionais aos governantes. Criticamos a corrupção, a incompetência administrativa, o fisiologismo e o populismo.
Quase nunca, porém, fazemos a pergunta mais incômoda: que tipo de comportamento nós, como eleitores, premiamos nas urnas?
Essa talvez seja a reflexão mais importante.
Há muito tempo a política deixou de ser tratada como uma atividade que exige preparo, equilíbrio e responsabilidade. Ela passou a disputar espaço com o entretenimento.
O candidato deixou de ser avaliado apenas por suas ideias, por sua capacidade de gestão ou por seu histórico. Em muitos casos, passou a ser julgado pelo carisma, pela capacidade de viralizar nas redes sociais, pela frase de efeito, pelo meme do momento ou pelo espetáculo que consegue produzir.
Não é um fenômeno recente.
Décadas atrás, o Brasil já demonstrava essa tendência ao transformar candidaturas folclóricas em símbolos de protesto ou diversão. O Macaco Tião, lançado simbolicamente para denunciar o descrédito da política, tornou-se um fenômeno eleitoral. Juruna, com seu gravador inseparável, transformou-se em personagem nacional. Tiririca, vindo do humor, alcançou uma das maiores votações da história do país.
Independentemente dos méritos individuais de cada um, todos esses episódios revelam uma característica comum: o eleitor brasileiro, em diferentes momentos, demonstrou disposição para transformar a política em um grande palco.
E todo palco exige espetáculo.
Com o passar dos anos, a televisão perdeu parte de sua influência, mas a lógica permaneceu intacta. Apenas mudou de plataforma.
O espaço antes ocupado pelos programas de auditório foi substituído pelas redes sociais.
Hoje, a disputa eleitoral não acontece apenas nas ruas ou nos debates. Ela ocorre em vídeos curtos, cortes cuidadosamente editados, frases de impacto e campanhas construídas para gerar engajamento.
O algoritmo passou a exercer um papel que antes pertencia aos grandes veículos de comunicação.
Nesse ambiente, a competência raramente viraliza. A prudência dificilmente conquista milhões de visualizações. A ponderação quase nunca emociona multidões.
O que mobiliza é o conflito.
O exagero.
A indignação permanente.
A caricatura.
Pouco a pouco, o eleitor deixa de agir como cidadão e passa a agir como torcedor.
E a diferença entre um e outro é profunda.
O cidadão analisa propostas, cobra resultados e substitui seus representantes quando eles fracassam.
O torcedor faz exatamente o contrário.
Relativiza erros, justifica incoerências e transforma qualquer crítica dirigida ao seu candidato em um ataque pessoal.
A política deixa de ser um espaço de prestação de contas e passa a funcionar como uma torcida organizada, na qual vencer o adversário se torna mais importante do que governar bem.
Talvez seja justamente por isso que candidatos discretos, preparados e tecnicamente competentes encontrem tanta dificuldade para conquistar espaço.
Em um ambiente dominado pelo espetáculo, a sobriedade parece desinteressante. O equilíbrio não gera engajamento. A responsabilidade não rende compartilhamentos.
Enquanto isso, os mais habilidosos em produzir emoções instantâneas ocupam o centro do palco.
Depois nos surpreendemos com a baixa qualidade da representação política.
Mas talvez a surpresa seja injustificada.
A democracia, afinal, não produz milagres.
Ela apenas devolve à sociedade aquilo que a própria sociedade escolheu valorizar.
Se premiamos a demagogia, colheremos governos demagógicos.
Se premiamos o espetáculo, colheremos governantes que tratam a política como um espetáculo.
Se premiamos a idolatria, acabaremos aceitando que princípios sejam substituídos por lealdades pessoais.
Talvez esteja na hora de inverter essa lógica.
Não basta exigir políticos melhores.
É preciso formar eleitores mais conscientes, capazes de desconfiar da emoção fácil, de resistir ao marketing político, de separar carisma de competência e popularidade de capacidade administrativa.
A democracia não fracassa apenas quando escolhe maus governantes.
Ela também fracassa quando seus cidadãos deixam de tratar o voto como um ato de responsabilidade e passam a tratá-lo como entretenimento.
Talvez essa seja a maior tragédia da política brasileira.
Não apenas termos transformado candidatos em celebridades, mas também termos transformado uma das decisões mais importantes de uma democracia em mais um espetáculo destinado a divertir uma plateia, quando deveria servir para construir uma nação.
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