É curioso observar como algumas ideias morrem não porque foram derrotadas, mas porque simplesmente deixaram de ser convenientes.
Há alguns anos, uma das principais bandeiras de boa parte da sociedade era o combate à corrupção. Não importava quem fosse o corrupto. O princípio era simples: corrupção era corrupção. Não havia meio-termo, nem justificativas sofisticadas para aceitá-la.
Hoje, o discurso mudou.
Agora, querem nos convencer de que votar em um corrupto pode ser a única forma de derrotar outro corrupto. A exceção virou regra. O pragmatismo passou a ser vendido como virtude, e a renúncia aos próprios valores ganhou um nome mais elegante: "estratégia".
É impressionante como a lógica foi invertida. Antes, exigia-se coerência. Hoje, exige-se submissão. Quem ousa questionar esse raciocínio imediatamente recebe um rótulo: maluco, ignorante, radical ou traidor. Afinal, pensar por conta própria se tornou um defeito.
Talvez o maior triunfo da corrupção não tenha sido ocupar espaços no poder. O verdadeiro triunfo foi convencer parte da sociedade de que ela é inevitável — e, em determinadas circunstâncias, até desejável.
Quando um povo começa a relativizar seus próprios princípios em nome de vitórias momentâneas, deixa de escolher entre o certo e o errado. Passa apenas a escolher qual erro considera mais conveniente.
E é exatamente aí que mora o perigo.
Porque, quando aceitamos abrir mão dos nossos valores para alcançar um objetivo político, já não somos nós que utilizamos o sistema. É o sistema que passa a nos utilizar.
No fim, continuamos acreditando que estamos lutando contra a corrupção, quando, na verdade, apenas escolhemos qual corrupto merece a nossa torcida.
Talvez a maior ironia seja justamente essa: passamos anos combatendo aquilo que, hoje, muitos fazem questão de justificar.
E quando a corrupção deixa de causar indignação para se tornar uma ferramenta eleitoral, o problema já não está apenas nos políticos. Está na cultura que aprendemos a aceitar.
O texto acima expressa a visão de quem o escreveu, não necessariamente a de nosso portal.
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