A reunião da sociedade brasileira contra o pensamento de esquerda, o antipetismo, as agendas woke, a Agenda 2030 da ONU e em busca de um país que remeta aos conceitos e ensinamentos de pais e avós foi automaticamente chamada e adotada pelas pessoas como um movimento conservador, um movimento de direita.
Centralizado na figura de Bolsonaro, Olavo de Carvalho chegou a afirmar que não existia direita no Brasil, mas sim o bolsonarismo.
“Deus, Pátria, Família, Armas e Liberdade”. Certa feita, Jair Bolsonaro tentou resumir seus princípios nessas palavras, e isso mostra como a defesa dessas ideias já coloca o cidadão com um sentimento de pertencimento ao grupo.
Mas qual grupo? Bolsonarista? Direitista? Conservador? É aqui que a porca torce o rabo, como diz o ditado popular.
O caldo cultural brasileiro é uma mistura de conceitos herdados da influência portuguesa católica, de uma miscigenação em que negros, brancos e indígenas vão muito além de blocos sólidos e, dentro dessas “três raças”, apresentam diferenças culturais internas marcantes, somadas à evolução do tempo e à modernidade, “ditando modas e fixando os costumes”, como disse um poeta.
E isso é um fato.
A influência do pensamento de esquerda está introjetada em nossa sociedade, reflexo do laxismo, da Revolução Francesa e dos pensamentos revolucionários, repercutindo nas camadas mais altas da sociedade: na Igreja, no mundo político, nas universidades e, em efeito cascata, em toda a sociedade.
Esse recorte se faz necessário porque muitas vezes debatemos situações atuais sem compreender o que efetivamente nos trouxe até aqui.
O termo “guerra cultural” tornou-se apenas um lugar-comum, um jargão frio na boca, principalmente de picaretas dentro desse movimento.
Do mero influenciador que caça likes aos mais espertos que saíram da internet para conquistar um cargo público, quase todos exploram e vendem a imagem que criaram, misturando pseudo conhecimento intelectual com uma espécie de culto ao líder e messianismo redentor.
Por trás de vídeos bem produzidos para as redes sociais, vendendo esperança e surfando a onda do momento, boa parte dos representantes da direita brasileira repete, dentro do seu nicho, tão somente a fórmula de sucesso da esquerda: pautas sectárias que buscam efetivamente divisão e representatividade.
O Brasil sofre de um “movimento esquerdista de direita”. Quando entendemos como o pensamento da sociedade foi moldado culturalmente ao longo de séculos por todas essas influências e que os cidadãos do nosso tempo são bombardeados diariamente pela mídia — do jornalismo ao entretenimento — percebemos que não é fácil resistir a essa tendência.
Surgem, então, como base desse movimento conservador, as igrejas evangélicas. Um movimento que ganha muita força a partir da década de 1980, passando a exercer forte influência na sociedade e na política nacional. Cada vez mais a instituição; cada vez menos a mensagem.
A perspectiva cristã ensina que o verdadeiro crescimento pessoal é um processo contínuo de transformação, conhecido na Bíblia como santificação.
O objetivo não é apenas tornar-se uma pessoa melhor por esforço próprio, mas desenvolver um caráter cada vez mais semelhante ao de Cristo.
Essa mudança acontece de forma gradual, refletindo-se tanto na vida pessoal quanto no relacionamento com a família, a comunidade e o próximo.
Diferentemente da visão de autoaperfeiçoamento baseada apenas na disciplina, o cristianismo afirma que essa transformação é conduzida por Deus, por meio do Espírito Santo, cabendo ao cristão corresponder com fé, obediência e disposição.
Em síntese, ser melhor a cada dia significa viver com justiça, bondade, humildade e serviço ao próximo, respondendo ao amor de Deus e buscando refletir o caráter de Cristo.
Mas não é isso que vemos na maioria das autoridades cristãs envolvidas na política, direta ou indiretamente. Tampouco naqueles que se apresentam como cristãos na vida pública.
Esse comportamento antagônico ao que é ser verdadeiramente conservador não é exclusividade desse segmento. Mas talvez este seja um dos ambientes em que a busca por ser algo além de bolsonarista ou direitista deveria ser quase uma obrigação.
As brigas externas, que deveriam ser muito mais internas, refletem exatamente como a falta de conhecimento permeia a cabeça de líderes e liderados. Temos cegos guiando cegos, onde os mais espertos se destacam e comandam aqueles que trazem consigo a boa vontade. A fórmula se repete: mudam-se os meios, mas os fins são os mesmos. Controle é poder.
Quem se orgulha de um presidente e do que ele defende, por mais gratidão ou admiração que tenha, não pode deixar de lado o equilíbrio, a sensatez e a visão crítica. Ser bolsonarista não é demérito, mas, sem esses elementos, transforma-se em culto ao líder, igualzinho aos objetivos traçados pela filosofia revolucionária.
Ser alguém de direita, e até mesmo conservador, vai muito além da defesa das cinco palavras colocadas por Jair.
Fora da questão política, como cada um se comporta? Como cada um age e reage diante das questões do cotidiano?
Não existe fórmula pronta, tampouco curso que carimbe e ateste quem é o quê. Antes de tudo, essa percepção precisa ser individual.
Mas a defesa de valores cristãos e conservadores não pode ser feita na contramão daquilo que se diz defender.
Dar espaço às mulheres não pode transformar-se em um movimento feminista dentro da direita.
Pertencer a uma base religiosa não pode significar um sectarismo que não conversa nem aceita diálogo com outras vertentes religiosas. Isso é assemelhar-se ao partido central.
Usar a condição social, a cor da pele, a sexualidade ou a deficiência física para falar de pautas gerais não é representar um grupo; é se aproveitar dele.
Mas essa é a nossa realidade. A partir disso, o que mais assistimos são manipuladores que naturalmente se valem desse caldo cultural que influencia a todos, inclusive eles próprios. Pessoas que pouco entendem e nada acreditam sobre o que estamos vivendo nos dias atuais.
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