A política brasileira tem uma característica curiosa: as divergências mais profundas, as mágoas mais públicas e os conflitos mais intensos costumam durar até o momento em que surge uma ameaça comum.
É quase uma lei não escrita de Brasília.
Nos últimos meses, a relação entre o senador Jaques Wagner e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, esteve longe de ser harmoniosa. O atrito em torno da indicação de ministros para o STF gerou desgastes públicos. Wagner chegou a afirmar que Alcolumbre não queria sequer conversar com ele, evidenciando um ambiente de tensão entre duas das figuras mais importantes do Senado.
Não era segredo para ninguém que os dois estavam em lados opostos de uma disputa de poder.
Mas bastou a Polícia Federal bater à porta.
Nesta quinta-feira, a Operação Compliance Zero colocou Jaques Wagner no centro de uma investigação que apura supostas vantagens indevidas ligadas ao Banco Master. Entre as suspeitas apontadas pela PF estão atuação em pautas de interesse da instituição financeira e o recebimento de benefícios que vão desde imóveis até o uso de aeronaves particulares. Wagner nega irregularidades e terá a oportunidade de apresentar sua defesa.
E foi justamente nesse momento que surgiu uma das cenas mais reveladoras da política nacional.
Davi Alcolumbre saiu imediatamente em defesa do senador petista.
“Ninguém nesse país pode ser condenado antes do trânsito em julgado” e “todos têm que ter a presunção da inocência”, declarou o presidente do Senado ao comentar a operação.
Nada de extraordinário na frase em si. Trata-se de um princípio constitucional.
O que chama atenção é o contexto.
Poucas semanas atrás, os dois protagonizavam um dos principais conflitos internos do Senado. Agora, diante da possibilidade de uma investigação atingir um dos seus, a rivalidade desapareceu. O adversário virou colega. O desafeto virou alguém digno de solidariedade pública.
E talvez isso revele algo maior do que a situação específica de Jaques Wagner.
Em Brasília, muitas vezes os embates não são ideológicos nem pessoais. São disputas circunstanciais por espaço, influência e poder. Quando surge um risco que ameaça a instituição, o grupo político ou até mesmo o próprio sistema de relações que sustenta o poder, as diferenças ficam em segundo plano.
É o velho instinto de sobrevivência.
A história mostra que isso não acontece apenas na política. Empresas fazem isso. Corporações fazem isso. Famílias fazem isso. Até animais fazem isso.
Quando a ameaça é externa, os conflitos internos perdem importância.
Por isso a cena de hoje talvez seja menos sobre Jaques Wagner e mais sobre a natureza humana.
Porque, no fim das contas, até aqueles que não se suportam descobrem rapidamente o valor da amizade quando percebem que podem ser os próximos da fila.
E em Brasília, onde todos conhecem os segredos de todos, essa fila costuma ser observada com muita atenção.
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