Poucos episódios ilustram isso melhor do que a união entre Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Antes da guerra, as diferenças entre esses países pareciam intransponíveis. De um lado estavam democracias liberais e capitalistas; do outro, um regime comunista que era visto com profunda desconfiança por grande parte do Ocidente.
Winston Churchill era um dos maiores críticos do comunismo soviético. Ainda assim, quando Adolf Hitler invadiu a União Soviética em 1941, o líder britânico compreendeu que havia um objetivo maior em jogo. Foi nesse contexto que pronunciou uma de suas frases mais famosas:
“Se Hitler invadisse o inferno, eu faria ao menos uma referência favorável ao Diabo na Câmara dos Comuns.”
A frase não representava admiração por Stalin. Representava pragmatismo político.
Churchill entendia que derrotar o nazismo exigia uma coalizão ampla, mesmo entre atores que não confiavam uns nos outros.
É assim que eu enxergo um paralelo interessante com a situação atual da direita brasileira.
Vale lembrar, “temos uma direita” que surgiu sem organização.
Durante décadas, o Brasil teve uma esquerda organizada e estruturada, com partidos, sindicatos, movimentos sociais, intelectuais e lideranças nacionais.
Já a direita brasileira permaneceu, em grande medida, dispersa e esmagada pela opinião pública.
A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 representou um ponto de inflexão. Pela primeira vez em muitos anos, milhões de brasileiros passaram a se identificar publicamente como conservadores nos costumes , liberais econômicos, por fim, integrantes da direita.
Mas o crescimento foi mais rápido do que a organização. Olavo falava da cereja do bolo sem bolo. Presidente eleito sem base. Política, econômica e, principalmente cultural no mais amplo sentido. Cultura de direita, conservadora, de fato.
Surgiu uma base numerosa, porém heterogênea. Desorganizada.
Conservadores tradicionais, liberais econômicos, libertários, nacionalistas, evangélicos, militares, monarquistas, influenciadores digitais, empresários e lideranças regionais passaram a ocupar o mesmo espaço político.
O problema é que vencer uma eleição e construir um movimento político duradouro são coisas diferentes.
Surgiu então o desafio da liderança.
Desde então, a direita brasileira enfrenta debates constantes sobre liderança, sucessão, fidelidade, protagonismo e estratégia eleitoral.
A própria trajetória de Bolsonaro foi marcada por dificuldades de estrutura partidária, disputas internas e desafios para consolidar uma máquina política comparável às das legendas tradicionais.
Ao mesmo tempo, diferentes grupos passaram a disputar influência dentro do campo conservador.
Governadores, parlamentares, comunicadores, empresários e lideranças regionais buscam espaço para representar parcelas específicas desse eleitorado.
Em um movimento ainda jovem, perseguido de muitas formas por opositores, isso produz atritos inevitáveis. Ou intencionais.
Surgem então as divergências públicas.
Nos últimos anos, não é de agora, a bem da verdade, episódios envolvendo lideranças da direita frequentemente ganharam mais destaque do que a construção de consensos.
Discussões envolvendo membros da família Bolsonaro, divergências estratégicas entre aliados históricos, críticas públicas entre governadores e parlamentares e disputas por protagonismo eleitoral tornaram-se frequentes.
Casos recentes envolvendo declarações públicas de postulantes à lideranças conservadoras, divergências sobre alianças e críticas entre figuras relevantes do campo político reforçam a percepção de fragmentação.
Para parte dos observadores, essas disputas refletem um processo natural de amadurecimento político.
Para outros, revelam uma dificuldade crônica de coordenação e definição de prioridades.
A pergunta que fica é simples : maturidade ou fogo amigo?
Talvez esta seja a grande pergunta.
Uma interpretação benevolente sugere que a direita brasileira ainda está amadurecendo.
Movimentos políticos jovens costumam atravessar períodos de disputa interna antes de consolidar lideranças, instituições e objetivos comuns.
Mas existe uma interpretação menos otimista. Para muitos, puramente realista. E é duro assumir, estou nesse grupo que tem essa visão.
Segundo essa visão, parte dos conflitos não decorre de divergências ideológicas profundas, mas de disputas por espaço, influência, cargos, visibilidade e protagonismo.
Em outras palavras, não seria apenas um problema de organização. Seria também um caso clássico de fogo amigo.
Enquanto diferentes grupos disputam quem ocupará os espaços mais relevantes dentro do campo conservador, o eleitor observa um cenário de fragmentação que frequentemente gera frustração e desmobilização.
O Nordeste como fronteira decisiva não pode ser ignorado. Isso é um fato.
Esse é outro aspecto frequentemente citado por analistas. É a importância estratégica do Nordeste.
Historicamente, a região tem desempenhado papel central nas eleições presidenciais brasileiras.
Qualquer projeto nacional que pretenda chegar ao Palácio do Planalto precisa dialogar de forma mais eficiente com os eleitores nordestinos.
Isso exige ampliar pontes, construir narrativas regionais, desenvolver lideranças locais e, muitas vezes, conversar com setores que não fazem parte do núcleo tradicional da direita.
Nesse contexto, surgem debates sobre aproximações táticas, alianças amplas e diálogos com figuras que possuem influência em segmentos específicos do eleitorado.
Nem todos concordam com essas estratégias.
Mas seus defensores argumentam que vencer uma eleição nacional exige capacidade de ampliar a coalizão para além do núcleo já convencido.
E aí nós temos a lição de Churchill.
A grande lição da aliança contra Hitler talvez não esteja na amizade entre seus participantes.
Porque ela nunca existiu.
Churchill não confiava em Stalin.
Stalin não confiava em Churchill.
E ambos tinham divergências profundas com Roosevelt.
Mesmo assim, compreenderam que havia uma prioridade imediata que precisava ser enfrentada antes das disputas do pós-guerra.
Depois da vitória, as divergências reapareceram e deram origem à Guerra Fria. Veio a disputa. Mas primeiro veio a cooperação.
É justamente essa lógica que qualquer pessoa sensata e que entende a necessidade de derrotar o PT, enxerga como ausente em parte da direita brasileira atual.
A dificuldade não estaria em encontrar diferenças. Diferenças existem em qualquer movimento político relevante.
A dificuldade estaria em estabelecer quais objetivos exigem cooperação imediata e quais disputas podem ser deixadas para um momento posterior.
Conclusão dessa confusão toda.
Toda coalizão política ampla convive com tensões internas.
A questão não é eliminar divergências, mas administrar prioridades.
A história mostra que movimentos vencedores costumam ser aqueles capazes de distinguir disputas estratégicas de disputas secundárias.
A aliança que derrotou o nazismo não nasceu da confiança, da afinidade ou da amizade.
Nasceu da percepção de que determinados objetivos só podem ser alcançados por meio da cooperação entre grupos que, em circunstâncias normais, talvez jamais dividissem a mesma mesa.
Se a direita brasileira atravessa hoje um processo de amadurecimento ou uma fase de fogo amigo permanente é algo que somente os próximos anos poderão responder.
Mas a história sugere que, sem coordenação mínima, até movimentos com enorme apoio popular podem desperdiçar oportunidades decisivas.
Faltam menos de 100 dias para derrotar o PT. Isso não pode ser perdido.
Créditos (Imagem de capa): Foto: picture alliance/Everett Collection
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