Virou quase um consenso em parte da imprensa esportiva brasileira tratar a participação do Irã na Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, como um escândalo político. Jornalistas e comentaristas têm criticado as restrições impostas pelo governo americano, as dificuldades de visto para integrantes da delegação iraniana e o ambiente de protestos que cerca a equipe. O jornalista Jânio de Freitas chegou a classificar a postura americana como uma “conduta imoral” e contrária ao espírito esportivo.
De fato, existem restrições. Parte da delegação iraniana teve dificuldades para ingressar nos EUA, o centro de treinamento foi transferido para o México, e a equipe precisou lidar com controles extras de segurança. Além disso, protestos de opositores do regime dos aiatolás ocorreram em cidades americanas durante a chegada da seleção.
Mas talvez a pergunta mais importante não seja a que está sendo feita.
A pergunta correta é outra:
Se fosse Israel?
Se a Copa fosse disputada em um país islâmico hostil a Israel, a seleção israelense seria aceita?
Conseguiria desembarcar normalmente?
Receberia garantias reais de segurança?
Torcedores israelenses poderiam circular livremente pelas ruas?
Haveria protestos pacíficos ou ameaças concretas?
A imprensa esportiva brasileira parece partir da premissa de que o problema é os Estados Unidos exigirem controles e restrições em relação a um país com o qual mantém um histórico de hostilidade e confrontos diretos. O curioso é que raramente se discute o cenário inverso.
O Irã não é apenas mais uma seleção nacional. É um Estado cujo regime, comandado pelos aiatolás, construiu parte de sua identidade política na oposição aos Estados Unidos e a Israel. Ainda assim, a seleção iraniana está disputando a Copa em solo americano. A FIFA manteve seus jogos nos EUA. Os atletas entraram em campo. As partidas aconteceram. O torneio seguiu normalmente.
Isso significa que não há tensões? Evidentemente não.
Mas demonstra algo que muitos parecem ignorar: existe uma diferença entre impor medidas de segurança e impedir a realização do evento esportivo.
O exercício intelectual mais honesto seria imaginar a situação inversa.
Uma seleção israelense disputando uma Copa sediada exclusivamente por um país que considera Israel um inimigo existencial.
A pergunta não é se haveria críticas.
A pergunta é se haveria sequer a possibilidade de realização.
Porque a história recente sugere que, em boa parte do Oriente Médio, atletas israelenses enfrentam boicotes, recusas de competição e pressões políticas muito mais severas do que aquelas hoje enfrentadas pela delegação iraniana nos Estados Unidos.
Por isso, a indignação seletiva da mídia merece ser questionada.
Os Estados Unidos podem ser criticados por suas decisões diplomáticas, migratórias ou de segurança. Mas o fato concreto permanece: mesmo em meio a tensões geopolíticas, guerras e hostilidade mútua, a seleção iraniana está jogando a Copa do Mundo em território americano.
E isso nos leva a uma conclusão desconfortável para muitos comentaristas.
Apesar de todos os defeitos do Ocidente, apesar das críticas legítimas que possam ser feitas à política externa americana, é justamente o Ocidente vigilante — não o Ocidente fraco, relativista e refém de slogans woke — que ainda demonstra capacidade institucional para separar o mundo político do esportivo quando a responsabilidade exige.
Enquanto parte da mídia reclama da presença do Irã nos Estados Unidos, o simples fato de a competição estar acontecendo já responde uma pergunta que poucos querem fazer:
Se fosse Israel do outro lado, haveria Copa?
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