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Segunda-feira, 13 de Julho 2026
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Erro, estratégia e soberba: a Globo ainda vai pagar caro pelo caso Copa 26/CazéTV

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Erro, estratégia e soberba: a Globo ainda vai pagar caro pelo caso Copa 26/CazéTV
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A CazéTV transformou aquele que, para muitos analistas do mercado, foi um dos maiores erros estratégicos da história recente da televisão brasileira em um negócio bilionário.

Ao mesmo tempo, a decisão da Globo acabou se tornando um dos movimentos estratégicos com maiores consequências para o mercado de mídia esportiva brasileiro, acelerando uma mudança que talvez levasse muitos anos para acontecer.

Enquanto muita gente ainda trata a empresa como "o canal do Casimiro", ela já se tornou um novo modelo de mídia esportiva.

E a Copa do Mundo de 2026 pode ter marcado definitivamente essa transformação — mesmo que os números oficiais do mercado publicitário ainda não mostrem isso com clareza.

A origem: um corte de custos que virou concorrente

Tudo começou em 2020.

Durante a pandemia, pressionada financeiramente, a Globo renegociou seu contrato com a FIFA e deixou de adquirir o pacote completo de direitos da Copa do Mundo. Na época, a decisão parecia racional: a emissora reduzia custos em um momento de enorme incerteza econômica. Até então, a Globo desembolsava cerca de US$ 90 milhões por ano pelo contrato de direitos da Copa do Mundo.

Foi justamente essa brecha que permitiu à LiveMode comprar um pacote de direitos digitais da Copa de 2022 por cerca de US$ 3 milhões. O que muitos enxergavam como um pacote secundário acabou se tornando a porta de entrada para um novo modelo de transmissão. O sucesso foi tão grande que, para a Copa de 2026, a LiveMode investiu aproximadamente US$ 40 milhões para adquirir um pacote muito maior de direitos — e hoje detém a exclusividade digital dos 104 jogos do torneio.

Em apenas dois ciclos de Copa, a empresa investiu cerca de US$ 43 milhões em direitos de transmissão. Nascia ali a CazéTV.

Poucos acreditavam que aquele experimento pudesse competir com uma emissora que transmitia Copas do Mundo praticamente sem concorrência havia mais de cinco décadas.

2022: o começo discreto

Na Copa do Catar, em 2022, a operação ainda era vista como uma novidade. O maior pico de audiência aconteceu em Brasil x Croácia, com cerca de 6,9 milhões de dispositivos conectados simultaneamente.

Parecia um sucesso pontual. Não era. Era apenas o começo.

2026: os recordes que quebraram recordes

Quatro anos depois, a história mudou completamente. A Copa de 2026 transformou a CazéTV na maior operação de transmissões esportivas do YouTube. Os recordes vieram um atrás do outro:

  • Brasil x Marrocos: 12,7 milhões de aparelhos conectados simultaneamente.
  • Brasil x Haiti: 16,1 milhões.
  • Brasil x Escócia: 18,3 milhões.
  • Brasil x Japão: 21,1 milhões — na época, o maior pico de audiência da história do YouTube em uma transmissão ao vivo.
  • Noruega x Inglaterra (quartas de final): 21,2 milhões — novo recorde mundial, superando inclusive jogos com a Seleção Brasileira em campo.

Poucas horas depois de um desses recordes, durante Argentina x Suíça, outro marco histórico: o canal ultrapassou 40 milhões de inscritos.

O crescimento impressiona ainda mais em perspectiva. Em aproximadamente um mês de Copa, a CazéTV ganhou mais de 11 milhões de novos inscritos e acumulou cerca de 3 bilhões de visualizações. Só na fase de grupos, o alcance total do canal chegou a 64 milhões de espectadores — o triplo dos 22 milhões registrados em 2022. Na primeira semana do torneio, o alcance global já passava de 74 milhões de pessoas. Hoje, a CazéTV detém 29 das 30 maiores transmissões ao vivo da história do YouTube — só perde para o pouso da sonda indiana Chandrayaan-3, em 2023.

O contra-argumento que qualquer defensor da Globo vai levantar

Antes de ir direto para o motivo pelo qual a CazéTV venceu essa Copa, vale reconhecer o que os dados oficiais de televisão mostram, porque ignorar isso enfraquece qualquer argumento.

Pelo Ibope/Kantar, que mede audiência de TV por amostragem em domicílios (o sistema Peoplemeter, presente em cerca de 6 mil residências representativas de 15 regiões metropolitanas), a Globo segue folgadamente na frente.

  • Globo + SBT concentraram 90% dos telespectadores da Copa 2026 medidos pelo Ibope; sozinha, a Globo ficou com 85% (116,2 milhões de pessoas).
  • Na estreia Brasil x Marrocos, a Globo atingiu 42 milhões de pessoas e 51% de share, contra a marca oficial de 12,7 milhões de dispositivos da CazéTV.
  • Na vitória do Brasil sobre a Escócia (39 pontos de média no PNT), a Globo registrou o equivalente a aproximadamente 27,3 milhões de pessoas assistindo.
  • No primeiro dia de Copa, somando TV Globo, SporTV e ge.globo, o conglomerado alcançou 46,4 milhões de pessoas conectadas simultaneamente.

Comparados lado a lado dessa forma, os números parecem dar a vitória à Globo com folga. É exatamente aqui que a comparação simplista falha.

Por que essa comparação não é justa — e por que a vitória real é da CazéTV

O ponto central é metodológico, e ele muda tudo: o Ibope mede pessoas. O YouTube mede máquinas.

O sistema do Ibope projeta, a partir de uma amostra de domicílios, quantas pessoas fisicamente assistem a um canal e já embute nesse cálculo o número médio de moradores por casa. Já o número de dispositivos conectados simultâneos divulgado pela CazéTV conta smart TVs, celulares e computadores ativos, tratando cada aparelho como uma unidade única, mesmo que esteja ligado na TV de um bar lotado, de uma casa cheia de gente ou de uma quadra de churrasco com a Seleção em campo.

Essa não é uma hipótese abstrata. É exatamente o padrão de consumo que qualquer pessoa observou nessa Copa: dificilmente alguém assistiu sozinho pela CazéTV. As transmissões foram, na prática, um evento coletivo, em casa, em bares, em restaurantes, entre família e amigos, muito mais do que um consumo individual em uma tela de celular.

Os próprios dados de mercado confirmam esse padrão:

  • Em Brasil x Marrocos, o YouTube já aplicou uma metodologia de co-view (estimativa de espectadores por dispositivo) e projetou 14 milhões de pessoas para um pico de 12,7 milhões de dispositivos.
  • Em outra estimativa de mercado, um pico de 21 milhões de dispositivos foi projetado como podendo representar mais de 50 milhões de pessoas reais, puxado justamente pela exibição coletiva em bares, restaurantes e reuniões familiares.
  • Pesquisas de comportamento do torcedor (MiQ, Data-Makers, PicPay) mostram que entre 66% e 77% dos brasileiros assistiram aos jogos da Copa com o celular na mão e, majoritariamente, acompanhados, o oposto do consumo isolado que a métrica de "1 dispositivo = 1 pessoa" do Ibope simula matematicamente para a TV, mas que o YouTube sequer tenta simular.

Se aplicarmos esse raciocínio ao recorde de Noruega x Inglaterra, com 21,2 milhões de dispositivos, um jogo sem a Seleção Brasileira em campo, a audiência real pode facilmente ter superado os 40 ou 50 milhões de pessoas. Ou seja, mesmo nos jogos em que a métrica oficial parecia menor que a da Globo, a audiência real da CazéTV pode ter sido equivalente ou superior aos melhores números da própria emissora carioca.

Há ainda um fator estrutural que a comparação pelo Ibope simplesmente não capta: o alcance da CazéTV é global. O Ibope mede apenas as 15 regiões metropolitanas do Painel Nacional de Televisão. O YouTube conta brasileiros no Brasil, brasileiros no exterior e torcedores do mundo inteiro assistindo à mesma transmissão gratuita. A CazéTV não está competindo apenas pelo público de São Paulo e Rio de Janeiro, está competindo pelo público do planeta.

O modelo de negócio: a vitória que os números de audiência nem precisam provar

Mas talvez o dado mais importante não seja a audiência. É o modelo de negócios.

A LiveMode deixou de ser apenas uma produtora de conteúdo. Transformou-se em uma empresa global de mídia esportiva. Recebeu investimentos de aproximadamente R$ 650 milhões de fundos como General Atlantic e XP, alcançando avaliações de mercado na casa de R$ 1,2 bilhão, um salto monumental para uma empresa que, quatro anos antes, havia pago US$ 3 milhões por um pacote de direitos que ninguém mais queria.

A empresa também expandiu sua operação para Portugal e passou a contar com Cristiano Ronaldo como sócio da operação internacional, sinalizando que o modelo brasileiro pode ser replicado em outros mercados, algo que nenhuma emissora de TV aberta tradicional consegue fazer com a mesma agilidade.

A forma de vender publicidade também mudou. Enquanto a Globo estruturou sua Copa em cotas tradicionais de televisão e, segundo estimativas do mercado publicitário, deve ter arrecadado cerca de R$ 1,9 bilhão com a comercialização dessas cotas, a CazéTV apostou em um modelo totalmente integrado entre YouTube, redes sociais, influenciadores e ativações digitais. Segundo estimativas amplamente divulgadas pelo mercado, a LiveMode comercializou 11 cotas de patrocínio, cada uma na faixa de R$ 185 milhões, uma arrecadação estimada de aproximadamente R$ 2 bilhões apenas com publicidade durante a Copa.

Um ativo que sobrevive à Copa

Existe uma diferença final, e ela talvez seja a mais decisiva de todas: a audiência de televisão zera assim que o jogo termina. O inscrito da CazéTV, não.

Os mais de 40 milhões de inscritos conquistados pelo canal não desaparecem quando a Copa termina. Eles continuam lá, disponíveis para o próximo Mundial de Clubes, para o próximo campeonato nacional, para o próximo conteúdo que a LiveMode decidir produzir. É um ativo de mídia permanente, construído a um custo total (US$ 43 milhões em quatro anos) que mal cobriria um único ano do antigo contrato da Globo com a FIFA.

O que vem depois da Copa: por que a conta vai ficar ainda mais cara

Se a Copa fosse um evento isolado, a Globo ainda poderia argumentar que perdeu uma batalha, mas não a guerra. O problema é que a CazéTV não construiu apenas audiência de Copa — construiu um formato, e agora está usando esse formato para tomar o controle do calendário de futebol que mais importa para a próxima geração de torcedores.

O formato informal é o produto, não um detalhe. A transmissão da CazéTV não tenta imitar a linguagem sóbria e institucional da TV aberta. Ela é construída em cima de bate-boca entre os narradores, reações espontâneas, interação direta com o chat ao vivo e o tom de "assistir com os amigos" que Casimiro e sua equipe cultivam há anos. É exatamente esse tom que transforma cada transmissão em um evento social, não em um telejornal esportivo — e é isso que faz sentido do padrão de consumo coletivo que sustenta o argumento anterior: as pessoas não assistem à CazéTV, elas participam da CazéTV.

A qualidade de imagem deixou de ser desculpa. Durante anos, o argumento de quem defendia a superioridade da Globo era técnico: produção mais profissional, mais câmeras, gráficos melhores. Esse argumento já não sustenta mais. A operação da LiveMode profissionalizou sua estrutura de transmissão a ponto de competir tecnicamente com qualquer emissora tradicional, mas manteve a informalidade como diferencial estratégico — o pior dos dois mundos para a Globo, que perdeu a vantagem técnica sem conseguir replicar a vantagem de comunidade.

E é aqui que o problema para a Globo se torna estrutural, não conjuntural. Nas últimas semanas, a CazéTV anunciou uma sequência de aquisições que muda completamente o tamanho da ameaça:

  • Direitos digitais das cinco principais ligas nacionais da Europa — Premier League (com um jogo por rodada, via sublicenciamento da Disney/ESPN), La Liga (exclusividade digital, superando concorrentes como ESPN e Paramount), Bundesliga, Serie A e Ligue 1.
  • Exclusividade digital de todos os 51 jogos da Eurocopa 2028, com exibição totalmente gratuita, tirando a Globo até da transmissão digital do torneio, que ficará restrita à TV aberta e ao SporTV.
  • A Copa do Mundo Feminina de 2027, também com exibição digital gratuita.

Isso significa que a CazéTV deixou de ser "o canal que transmite a Copa a cada quatro anos" para se tornar o destino gratuito e permanente do torcedor brasileiro que acompanha futebol europeu — o produto que, historicamente, mais gerou audiência cativa, assinatura de pacotes premium e poder de negociação publicitária para operadoras de TV paga e para a própria Globo via SporTV.

O impacto real disso não é só de audiência: é de narrativa. Durante décadas, foi a Globo (e seus canais de esporte) quem decidiu como o torcedor brasileiro conheceria os grandes nomes do futebol europeu — quem seria destacado, qual storyline seria contada, qual jogador viraria ídolo nacional mesmo jogando do outro lado do Atlântico. Ao controlar o acesso gratuito e semanal à Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A, Ligue 1 e Eurocopa, é a CazéTV — com sua linguagem informal, seu chat ao vivo e sua comunidade de mais de 40 milhões de inscritos — quem passa a construir essas narrativas a partir de agora. Não é uma disputa por um evento. É uma disputa pelo lugar de contador oficial da história do futebol para toda uma geração de torcedores brasileiros.

É por isso que a Copa de 2026 provavelmente não vai ser lembrada como o pico da ameaça da CazéTV à Globo, mas como o momento em que ficou claro que era só o começo. A conta desse erro estratégico de 2020 ainda está sendo fechada — e, a cada nova aquisição de direitos, o valor final só aumenta.

Conclusão: o erro que criou o concorrente perfeito

O maior erro da Globo não foi perder alguns jogos. Foi subestimar uma mudança de comportamento.

Durante décadas, o caminho era simples: FIFA → Globo → público. Hoje existe outro: FIFA → LiveMode → YouTube → público.

A televisão continua enorme. A Globo continua líder de audiência pelos critérios tradicionais do mercado publicitário e permanece como uma das maiores empresas de comunicação do mundo. Mas, quando se olha além da métrica de pontos de Ibope — para o alcance global, para o consumo coletivo real por trás de cada dispositivo conectado, para o crescimento de uma base de inscritos que não zera nunca e para uma receita publicitária que se aproxima da própria Globo com uma fração do investimento — fica difícil não enxergar essa Copa como uma vitória esmagadora da CazéTV, mesmo que os números oficiais do mercado ainda não tenham sido reescritos para refletir isso.

A Globo deixou de ser a única porta de entrada para o maior evento esportivo do planeta. Ao abrir espaço para um concorrente digital, permitiu que ele construísse marca, tecnologia, relacionamento com patrocinadores e uma comunidade de mais de 40 milhões de inscritos. Esse ativo permanecerá muito depois do fim da Copa — e nenhum Peoplemeter vai conseguir medi-lo.

A CazéTV nasceu comprando um pacote de direitos que muitos consideravam secundário. Quatro anos depois, tornou-se uma das maiores vitrines esportivas do planeta, quebrou sucessivos recordes mundiais de audiência no YouTube, ultrapassou 40 milhões de inscritos e provou que, na economia digital, tradição e tamanho já não garantem liderança — mesmo quando os números oficiais do mercado publicitário ainda insistem em contar a história de outra forma.

Às vezes, uma decisão tomada para resolver um problema de curto prazo cria exatamente o concorrente capaz de transformar um mercado inteiro. Foi exatamente isso que aconteceu.


Nota: Os dados de audiência da CazéTV/YouTube e os dados do Ibope/Kantar utilizam metodologias distintas e não são oficialmente comparáveis. As estimativas de receita publicitária e valuation da LiveMode não foram confirmadas oficialmente pelas empresas envolvidas e devem ser lidas como estimativas de mercado.

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