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Quarta-feira, 08 de Julho 2026
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A GUERRA ENTRE A IGNORÂNCIA E A REALIDADE

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A GUERRA ENTRE A IGNORÂNCIA E A REALIDADE
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Na noite do jogo entre Brasil e Noruega, algo me chamou mais atenção do que o resultado da partida.

Antes mesmo de a bola rolar, amigos já comemoravam uma vitória brasileira. As previsões eram otimistas: 2 a 1, 3 a 1. A esperança falava mais alto do que qualquer análise objetiva. Bastava observar o momento das duas seleções para perceber que o favoritismo não estava do lado brasileiro. Ainda assim, muitos preferiram acreditar naquilo que desejavam, e não naquilo que a realidade indicava.

Quando o árbitro encerrou a partida, a realidade apenas confirmou aquilo que já estava diante dos nossos olhos.

Foi naquele instante que percebi que o futebol era apenas um exemplo de um fenômeno muito maior.

Vivemos uma época em que a realidade deixou de ser o ponto de partida para nossas conclusões. Primeiro escolhemos em que queremos acreditar; depois procuramos argumentos para justificar essa crença.

É por isso que muitos afirmam que vivemos uma guerra espiritual. Outros dizem que a batalha é política ou ideológica.

Discordo parcialmente.

A maior guerra do nosso tempo é travada entre a ignorância e a realidade.

Mas é preciso esclarecer o que entendo por ignorância.

Não me refiro à falta de estudo ou de inteligência. Refiro-me à incapacidade — muitas vezes voluntária — de confrontar nossas próprias convicções com os fatos. É a recusa em enxergar a realidade quando ela ameaça destruir a narrativa na qual escolhemos acreditar.

É como olhar para uma grama verde e insistir que ela é vermelha apenas porque alguém em quem confiamos afirmou isso.

Essa é a verdadeira prisão.

Durante décadas, a televisão exerceu enorme influência sobre a formação da opinião pública. Novelas, programas de entretenimento e parte da imprensa ajudavam a construir narrativas capazes de moldar a percepção coletiva.

Hoje, os meios mudaram.

Os antigos formadores de opinião deram lugar aos influenciadores digitais.

E, embora existam profissionais sérios e comprometidos com a informação, também há um modelo de comunicação que prospera justamente pela polarização. Em vez de apresentar diferentes perspectivas para que o público reflita, muitos preferem oferecer uma narrativa pronta, acompanhada de comentários, ataques pessoais e julgamentos morais. O objetivo deixa de ser compreender os fatos e passa a ser conquistar engajamento.

A lógica é simples: a indignação gera audiência; a audiência gera poder.

Assim, o debate é substituído pelo espetáculo.

A análise cede lugar à torcida.

O contraditório desaparece.

E o senso crítico passa a ser visto como deslealdade.

Nesse ambiente, quem faz perguntas é tratado como traidor. Quem aponta incoerências torna-se inimigo. Quem ousa pensar por conta própria passa a ser acusado de fortalecer o adversário.

A fidelidade deixa de ser aos princípios.

Passa a ser às pessoas.

E esse talvez seja o maior erro de qualquer movimento político.

Princípios existem justamente para limitar o poder. Quando eles passam a ser relativizados em nome da conveniência política, deixam de ser princípios e transformam-se em ferramentas de ocasião.

É exatamente aí que nasce a idolatria.

O indivíduo deixa de defender valores e passa a defender pessoas.

Deixa de analisar decisões e passa a justificar qualquer decisão.

Deixa de buscar a verdade e passa apenas a proteger uma narrativa.

Esse fenômeno não pertence exclusivamente à direita nem à esquerda.

A história demonstra que ambos os campos já caíram nessa armadilha em diferentes momentos.

Movimentos políticos começam a enfraquecer quando deixam de formar novas lideranças, quando afastam qualquer voz divergente e quando concentram toda a sua existência em um único nome, uma única família ou um pequeno grupo de poder.

A política deixa de servir ao coletivo e passa a servir à própria manutenção do poder.

Esse é um caminho conhecido pela história.

Nenhum projeto construído apenas para preservar poder permanece vivo indefinidamente.

Mais cedo ou mais tarde, a realidade cobra seu preço.

No caso da direita brasileira, essa reflexão me parece especialmente necessária.

Uma direita verdadeiramente conservadora deveria colocar os princípios acima das conveniências, a coerência acima das paixões e a verdade acima das narrativas.

Conservadorismo não deveria significar obediência cega.

Muito menos idolatria.

Significa responsabilidade, coerência e coragem para reconhecer erros, mesmo quando eles são cometidos por aqueles de quem gostamos ou com quem concordamos em diversos pontos.

A incapacidade de fazer autocrítica talvez seja o primeiro passo para a autodestruição de qualquer movimento.

Nenhum adversário é tão eficiente em destruir uma causa quanto seus próprios erros quando deixam de ser reconhecidos.

Talvez seja por isso que tantos projetos políticos fracassem.

Não porque lhes faltem adversários.

Mas porque lhes falta coragem para encarar a realidade.

A realidade nunca depende daquilo em que acreditamos.

Ela simplesmente existe.

Podemos ignorá-la por um tempo.

Podemos criar justificativas.

Podemos atacar quem a aponta.

Podemos transformar qualquer crítica em traição.

Nada disso altera os fatos.

No final, a realidade sempre vence.

E talvez essa seja a maior lição do nosso tempo.

Os movimentos políticos não começam a morrer quando perdem eleições.

Começam a morrer quando deixam de enxergar a realidade, abandonam seus princípios e trocam o senso crítico pela idolatria.

O abismo não surge de repente.

Ele é construído todos os dias, sempre que a narrativa vale mais do que a verdade.

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