Se você, assim como eu, tem enxergado a vida um pouco insípida, talvez este texto possa fazer algum sentido para você.
Deixe-me explicar: quando éramos crianças, ou até mais velhos, ainda que com certa dificuldade financeira, éramos tomados por um sentimento exultante diante da vida. Basta lembrar por exemplo, das manhãs de domingo quando vibrávamos com o “tam tam tam”, em cada vitória do saudoso Ayrton Senna; ou mesmo das noites quentes de verão em que nos reuníamos na rua para falar das músicas do Legião Urbana e darmos risada das mais variadas besteiras.
Embora uma grande parcela das pessoas as quais converso tenha o mesmo sentimento, muito pouco sabemos do porquê nos direcionamos para uma sociedade que demonstra estar sendo forjada para se tornar cauterizada emocionalmente.
Ainda assim, se você considera esse processo como uma conquista e acredita que uma sociedade saudável se forme à partir do desfrutar de uma perpétua solidão onde haja predomínio unicamente de valores individuais e, entenda-se solidão diferente de solitude; eu te convido caro leitor, a irrompermos num passado não muito distante, a fim de apreciarmos a veracidade de alguns fatos.
No passado, a educação era baseada em valores familiares fortemente arraigados na sociedade. Esses valores, quando passados de pais para filhos, além de inserir o jovem em um contexto, o qual ratificava seus propósitos e funções, também o encorajava a transpor suas dificuldades interpessoais, bem como às inerentes aos contextos históricos ou momentâneos.
Esses valores, quando bem aperfeiçoados, reverberavam no fortalecimento cultural de um povo e, por consequência, no desenvolvimento tecnológico e social.
No final da década de sessenta, uma expressiva parcela de jovens se rebelou contra esse modelo, dando origem a alguns movimentos, dentre os quais o Woodstock, que ganhou notoriedade por reunir milhares de pessoas, cujas pautas eram liberdade sexual e comportamental, distanciando-se dos padrões pré estabelecidos, tornando-se uma espécie de ponto de inflexão para a mudança dos costumes.
Entretanto, esses jovens tiveram filhos e, embora tivessem lutado contra o sistema dantes vigente, estavam agora confusos em como estabelecer na prática, um modelo educacional que atendesse às suas expectativas e que, ao mesmo tempo, fosse efetivo nos resultados.
Desta forma, seus filhos passaram a fazer parte de um grande experimento social através de um modelo educacional desconhecido, que transitava entre o moderno (com limites extremamente complacentes) e o antigo (pautado na rigidez das normas).
Deste modo, a ausência de um paradigma e o enfraquecimento dos anteriores, contribuíram em parte, para um grande movimento de isolacionismo, consumismo e perda de vínculos familiares mais profundos.
Ademais, o desenvolvimento tecnológico e a globalização, levando ao consumismo, culminariam por conseguinte, com pais ausentes grande parte do tempo a fim de obterem recursos; e funcionariam como adjuvantes para a despadronização do comportamento da sociedade.
As consequências podem ser apreciadas na atualidade, com a sensação de desamparo, falta de perspectivas, revolta e melancolia por parte dos jovens, além da necessidade constante de ressarcimento.
Se você acredita que consultas semanais aos psicólogos poderiam atenuar este problema, eu diria que finalmente atingimos o cerne do problema.
Longe de mim desmerecer esta classe de profissionais que muito têm contribuído para dissolver fortalezas psíquicas provenientes deste processo. Entretanto, preocupa-me muito a falta de percepção do grande comprometimento social que nos abate oriundo desta mudança. Talvez, a mesma letargia que fez com que negligenciássemos até então, o curso destes acontecimentos.
Ainda que tardiamente, pontuar ou descortinar este fenômeno, pode nos ajudar a compreender e a buscar soluções para estes comportamentos, os quais se manifestam através dos ilogismos das atitudes, da polarização política da sociedade, além dos altos índices de suicídio entre os jovens.
Se aspiramos fortalecer nossos valores e voltarmos a desfrutar de uma sociedade ajustada em alguns aspectos, é imperativo direcionarmos nossos esforços para descontruir a narrativa criada acerca da família, combatermos a desvirtuação acintosa do verbo e a imposição da vil segregação como forma de domínio além de, ocuparmos os espaços perdidos desatentamente por este longo período.
Durante décadas, por excesso de moderação ou ceticismo, concedemos aos nossos adversários, o uso de um princípio que há muito, Newton havia nos advertido: “Toda mudança é proporcional à força impressa, e a resultante se dá na direção a qual a força é aplicada.”
Que desta vez, a Força esteja com você!