“O clamor dos inocentes ecoa na eternidade.
O grito dos aflitos, dos feridos, dos oprimidos.
A dor dos segregados, dos humilhados, dos açoitados.
A miséria dos renegados, dos favelados, dos famintos.
O desespero das minorias, dos holocaustos, dos refugiados.
A subtração dos órfãos, das viúvas, dos desaparecidos, dos desfavorecidos.
Para esses não há partidos, não há justiça ou sentença.
Para eles não há verdade, não há defesa, não há motivos nem leis.
Somente uma leve brisa, um lapso do talvez, uma partícula do “quem sabe um dia”, que aplaca tamanha indiferença.
Quem somos nós?
A aspiração da mudança, o propósito da regeneração, a manhã e seu sol nascente, a luz que rompe o silêncio...
O olhar atento, o detalhe que significa, a acolhida que transforma...a ousadia mais incerta...
A verdade que não julga. A paz que insiste em ficar.
Quem somos nós...”
(Tokio, C.; 2017)
Há alguns dias abro um dos meus aplicativos. Salta-me aos olhos a cena bizarra de uma jovem proeminente no meio artístico, que para muitos, seria sinônimo de vivacidade e conquista. Fico apreciando o contexto por segundos: estaria ela num estado catatônico? A desconfortante sensação em mim gerada durante aqueles momentos, me faz pensar nos inúmeros motivos que a levariam àquela degradante condição. No final, apenas uma certeza: dentre as muitas causas, nenhuma poderia ser considerada salutar.
Após burburinhos e burburinhos através dos mais diversos comentários, das legendas e conclusões nas mais variadas páginas, tudo permaneceria como de costume: aquele fora mais um episódio esquisito dentre os quais temos observado diariamente pelo mundo.
À noite, sentada em minha poltrona, reflito mais um pouquinho sobre o episódio: o que de fato levaria aquela personalidade a ser uma referência para muitos jovens? Nesta hora me vêm à mente o meu filho. Provavelmente ele me diria que a ótica pela qual os jovens enxergam as nuances do mundo, é bastante diferente da minha. E ele não estaria errado.
Volto para o ano de mil novecentos e noventa e dois. Estou sentada no chão da quadra, molhada de suor. Ouço meu técnico ensinar sobre valores, conquistas; sobre a honra das vitórias em meio as lutas. Um sentimento de nostalgia me sobrevém: O sorvete sabor tuti-fruti após os treinos, com certeza tinha um gosto diferente.
Domingo. Após acordar e tomar café, momento o qual costumamos repassar as pautas da semana em conversas acaloradas, quase sempre propondo as mais variadas soluções para o mundo (e abro parênteses para dizer que a minha cama ainda permanece desarrumada), sento-me mais uma vez em minha poltrona.
Recebo no celular a notificação da mensagem de uma amiga querida: ela me enviara um vídeo com muitas cenas reais, as quais ratificavam o desastre do comunismo na Venezuela. Nestas, pessoas disputavam acirradamente os alimentos em sacos de lixos dispostos em caçambas. Aqueles que logravam do prazer da conquista dos sacos, os reviravam freneticamente na ânsia de obter a maior quantidade possível de comida.
Não consigo assistir até o final. Paro. Me reviro na poltrona. Estou visivelmente abalada. Respiração superficial e ofegante. Meu rosto transpira. Talvez o início de uma crise de ansiedade...Talvez.
Automaticamente meu cérebro busca por dissipar aquele mal estar. Preciso deste escape. Afinal, é domingo. Minha família precisa de mim. Preciso pensar no almoço. Diferentemente daquelas pessoas, temos o que comer.
Agradeço a Deus por isso.
Me levanto. Com o efúgio para o preparo da comida, caminho até a cozinha e já pelo trajeto, dissipo a profusão de sentimentos desconfortantes. A ninguém caberia a culpa. Seria minha e apenas minha, a decisão de sofrer ou não pelo que eu havia visto. Afinal, cenas como aquelas acontecem desde sempre. E assim, mais uma vez eu receberia o mérito por manter a harmonia do almoço de domingo.
Domingo. Hora do almoço. Abelardo e sua esposa se dirigem ao shopping.
Haviam trabalhado a semana toda e, como de costume, domingo podiam se poupar do trabalho doméstico decorrente da preparação do almoço.
Enquanto caminhavam, uma cena chama a atenção do rapaz.
Aquela moça que, costumeiramente permanecia na avenida principal fazendo programas em plena luz do dia, havia mudado seu local de granjeio. Agora, não mais na distinta via, na qual circulavam os mais variados clientes, os quais buscavam sestas pra lá de animadas; ela agora permanecia na tímida viela perpendicular.
Seu olhar era distante. Enquanto saboreava avidamente sua marmita, sentada no degrau ao lado da loja, Abelardo percebeu seu definhar. Seus cabelos loiros e sua pele queimada de sol, enunciava a exaustão do corpo balzaquiano. Anteriormente, a moça costumava permanecer em pé, e embora suas roupas fossem acertadamente discretas, em virtude do horário, ela frequentemente chamava a atenção. Agora, seus turnos eram cumpridos a maior parte do tempo, sentados.
Em um lapso de tempo ele sentiu um pesar por aquela jovem senhora desvalida, cuja profissão fizera de sua vida um constante desalento: O que se passaria em sua mente? Quais eram seus sonhos? Haveria ainda perspectivas ou metas a serem alcançadas?
Ao refletir, sentiu um enorme vazio em seu coração. Com certeza ele seria a única pessoa naquela tarde de domingo, quiçá no mês, a divagar sobre a tal mulher. Afinal, que importância ela teria? Que importância teria seus sonhos? Talvez seu único e realizável anseio fosse degustar aquela apetitosa marmita naquele início de tarde de domingo.
Talvez a vida fosse apenas isso...Cada qual com seu destino.
Se não evoluímos ou buscamos algo melhor para nossa vida, não seria porventura, nossa própria culpa?
Enquanto pensava em tais dilemas, observou que um cliente se aproximara da moça. Timidamente sorriu para sí mesmo, deduzindo que a marmita da janta estaria garantida. E concluindo tal raciocínio, seguiu em frente.
Noite de terça-feira. Sentada em meu escritório às 01:36h da manhã pergunto a mim mesma e a você, querido leitor: Quem somos? O que temos nos tornado?
Quais circunstâncias têm nos feito tão invisíveis? Por que estamos tão insensíveis?
Para os neurofisiologistas, a resposta estaria no consumo da Dopamina pelo excesso de prazer imediato. E não estão errados.
As faltas de relacionamentos de qualidade e dos dos estímulos das conquistas pessoais; o excesso de tecnologia, a falta de integridade nos pequenos momentos, têm nos cauterizado.
Lembro-me do Renato Russo criticando a cultura “enlatada” dos USA ao qual nos era ofertada na década de oitenta. Profeticamente ele nos advertiria sobre o que ainda estava por vir? Uma vida plastificada e superficial, comprada em caixinhas de celulares cujas “unboxings” são mais atrativas do que o contato com os quais amamos?
A dor do outro não nos causa incômodo, bem como a sua fome ou anseios.
“O mundo evoluiu, e estamos bem. Isso é o que importa.” Digo isso enquanto entrego ao farmacêutico, a receita de Rivotril adquirida em minha última consulta (contém sarcasmo).
“Estamos cada vez mais conscientes e mais civilizados. Sim.” Ops...
“- Senhora!!! Senhora! A senhora deixou cair esta latinha vazia do seu carro!”
“- Eu sou forte! Eu batalhei muito por todas as minhas conquistas. Hoje não dependo e não preciso de ninguém.” Ela me disse enquanto pegava a chave do carro antes de ir embora...
Nunca estivemos tão doentes e fragilizados. A busca por satisfazer o nosso ego, a qualquer custo, extrapola os limites da racionalidade e tem nos tornado reféns de uma superestimação pessoal que por fim, representa nada mais do que um grande clamor por atenção e cuidado.
Assim, qualquer intervenção, a fim de reverter este processo, deve partir do íntimo de cada um, sobretudo pelo princípio que Hipócrates (460 a.C.) nos ensinou: “Antes de curar alguém, pergunta-lhe se está disposto a desistir das coisas que o fizeram adoecer...”
Para finalizar, deixarei uma inquietante interrogação: Estamos dispostos a desistir de um mundo cauterizado, fantasioso e egocêntrico em prol da nossa saúde mental e do nosso futuro?
A resposta está dentro de nós.
Afinal, quem somos nós?