A tirania dos que se erguem não é mais assustadora
do que a sujeição dos que se ajoelham."
- G.K. Chesterton
Israel, dez de outubro de dois mil e vinte e três.
Parei em frente à porta. Fiquei por minutos olhando pelo vidro tentando captar a atmosfera do ambiente. Tolice a minha. Como poderia esperar algo de suave diante de um cenário tão desolador?
Por minutos observei aquele senhor. De costas sentado naquela cadeira dura e fria, ele parecia expressar para si e para o mundo, a sua morte. Se não a física, a de sua alma.
Seus ombros permaneciam fechados e encolhidos que obrigavam seus braços a permanecerem entre as pernas, produzindo, por conseguinte, a notável sensação de involução moral.
Respirei fundo. O que de fato eu deveria perguntar? Haveria algo não dito nesta situação?
Entrei na sala... Caminhei vagarosamente até ele, me dispondo à sua frente.
Boa noite, Sr. Uriah.
Aquele homem estava apático. Olhava fixamente para a televisão, denotando que em algum momento ela estivera ligada.
Parecia nem notar a minha presença. Seu estado torporoso produzia em mim um enorme constrangimento.
Não, eu não poderia ser tão insensível. Lentamente movimentei-me para me retirar.
Nos primeiros passos me dirigindo à saída, ouvi aquela voz trêmula e consumida:
- Eu me lembro de quando ela nasceu.
Voltei-me prontamente para oferecer-lhe a minha atenção. Entretanto, permaneci apenas ouvindo.
- Seus olhos eram tão vivos, que pareciam já me reconhecer. Quando a peguei em meus braços, conheci o sentido da felicidade.
-No seu primeiro ano de escola, ela me trouxe as primeiras palavras que aprendeu a escrever: Amo Papai.
Abaixou a cabeça e parecia não ter forças para chorar. Tentei esboçar o início de algumas palavras. Eu não poderia...
-Eu queria acordar deste pesadelo e tê-la em meus braços novamente.
Eu não sabia o que dizer. Como poderia consolar aquele senhor? Qual justificativa ou consolo poderia aplacar tamanha crueldade? O penoso silêncio dava o tom conclusivo do monólogo.
De repente o médico legista entra na sala.
- Sr. Uriah?
- Sim.
Ele respondeu enquanto se levantava.
- Eu sinto muito em dizer, mas realmente o corpo encontrado era da sua filha.
A descrição do ritual realizado contra a moça era devastador. Após a espancarem e a estuprarem coletivamente, seu corpo nu fora arrastado pelas ruas, tendo esfolado toda a sua pele.
Ao receber a notícia, seu semblante permaneceu frio e ábdito por alguns segundos. Ao retomar a consciência, buscou forças em seu âmago para suplicar:
- Por favor, doutor, diga-me apenas que ela não sentiu dor.
- Sim, Sr. Uriah, ela não sentiu dor.
Respondeu ligeiramente a fim de atenuar, pelo menos um pouquinho, a dor daquele pai.
Observei o semblante daquele homem. Ao receber a notícia, involuntariamente ele esboçou uma singela expressão de alívio. Enfim alguma notícia o consolara naquele fatídico dia.
Levantei-me e concluí que já havia visto e sentido o bastante.
Caminhei por algumas ruas até chegar ao hotel. Desde os acontecimentos do dia sete, meus dias estavam sendo intensos e reflexivos.
Abro o Instagram. Preciso me distrair um pouco.
Vejo as notícias de uma manifestação pró-aborto em um país qualquer.
Minha mente automaticamente se adapta àquela ideia sem ao menos contestar que, há cerca de meia hora, eu estava de frente para um pai, que faria o impossível para ter a sua filha, brutalmente assassinada, de volta em seus braços.
Sinto um sutil incômodo. De onde estaria vindo?
O que de fato, há de errado em reivindicar, a possibilidade de interromper a vida de uma pessoa ainda dentro do ventre?
Brasil, treze de novembro de dois mil e vinte e três.
Abro o site de notícias. Deparo-me com a informação de que a justiça britânica contraria o pedido dos pais e autoriza o desligamento dos aparelhos de Indi Gregory, a bebê de oito meses, portadora de uma doença mitocondrial que a impedia de produzir energia.
Do alto do meu apartamento, olho pela janela e não vejo ninguém reivindicando pela vida do bebê.
Já sei, vou procurar na TV. Talvez se percorrer os canais, eu encontre alguma manifestação em prol da menina. Afinal, é uma vida, não é? Não acredito que ninguém se importaria com isso.
De repente: Ah! Um aglomerado de pessoas com cartazes nas mãos. Com certeza eles devem estar protestando por tamanha insensibilidade da justiça britânica.
Não... É apenas uma manifestação de alguns grupos, pelo direito de ser tratado como todes, elu, delu.
Paro por um instante e analiso, falando comigo mesmo.
-É legítima esta manifestação! Afinal, isto interfere, e muito, na vida das pessoas!
Vida...Vida...
Lembro-me de que a bebê Ingrid não teve direito a vida...
Sou acometido por certo incômodo...
Entretanto, sou otimista... A vida não é tão injusta.
Voltemos, por exemplo, para o ano de 2017, quando o secretário da defesa do Reino Unido, impediu que os cães farejadores Kevin e Dazz fossem sacrificados injustamente por morderem um morador. A campanha contra o sacrifício demonstrou uma enorme sensibilidade e causou enorme comoção nas redes sociais pela vida dos cães.
Concluo que a humanidade ainda tem solução. Viu só... Quando as pessoas querem, elas lutam por suas causas!
Por um instante paro e não me recordo de nenhuma comoção pela pequena Ingrid. Nem tampouco pelas filhas de Israel. E as crianças abortadas...
O que haveria de errado com essas causas?
A quem de fato, elas incomodariam?
Lembro-me da ciência da hipocrisia.
Segundo ela, os julgamentos humanos acontecem sob influência de emoções inconscientes sendo estas, representadas por um grande elefante que estaria sendo pilotado por um humano, que no caso representaria a racionalidade.
Sempre que requisitado acerca de um assunto ou a necessidade de uma decisão, a nossa mente recorre ao grande elefante, que encontra égide nos paradigmas ou crenças arraigadas em nosso inconsciente. Quanto mais consistentes estas crenças, mais difícil se torna qualquer mudança.
Assim, quando ocorrem conflitos de informações, ou os confrontos entre a realidade e os absurdos produzidos por nossas crenças, como as acima mencionadas, ocorre a “Dissonância Cognitiva”. Nestes momentos, tendemos a acionar a racionalidade, representada pelo piloto do elefante, a fim de justificar as nossas ações; ainda que estas sejam incongruentes com o lógico. Eis a hipocrisia.
O fato é: O mundo está emocionalmente doente.
Sim. A inaptidão para julgar com coerência o certo ou errado, o justo ou injusto, encontra leito na forma como nossas emoções estão sendo sedimentadas em nosso inconsciente.
A idiotização produzida por aplicativos e pelas redes sociais, a ausência de relacionamentos profundos e verdadeiros entre pais e filhos, alunos e professores; as ausências de vínculos emocionais e afetivos têm produzido um verdadeiro exército de pessoas sem propósitos e que encontram em ideologias nefastas, o amparo necessário para justificarem e propagarem suas hipocrisias, as quais estão diariamente estampadas nas grandes mídias e sem nenhum tipo de contestação.
Reverter este cenário não é tarefa fácil, nem tampouco rápida.
Tempo de qualidade com nossos filhos, alunos, discípulos, atletas. Orientação, cuidado, disseminação de valores. Valorização e ensino correto da nossa língua, respeito pela nossa cultura ancestral e nossa história; são alguns dos pilares a serem reerguidos pela nossa sociedade.
Estamos dispostos a promover estas mudanças?
Para nós conservadores: como está, de fato, o nosso elefante? Temos coragem para apontar as incongruências, para pagarmos o preço de muitas vezes sermos rechaçados pelos que discordam da nossa opinião? As pautas dos inocentes nos causam indignação? Ou optaremos pelo conforto da manutenção da nossa imagem, pela nossa isentabilidade diante de tantas injustiças, amparados pelo: quem somos nós para julgar?
Pra pensar:
Se as últimas respostas forem sim, só poderemos lamentar e em alto e bom tom proclamar: Enfim, a hipocrisia.
Créditos (Imagem de capa): https://i.pinimg.com/originals/ae/3a/b8/ae3ab89cedbd0dce5bbd6092440dbc6e.jpg