Como premissa de legalidade e normalidade para qualquer cidadão brasileiro crente no “estado democrático de direito”, eu sempre defendi que o Supremo Tribunal Federal deveria ser o guardião da Constituição, não um clube de amigos onde favores e proteções se entrelaçam com os fios da imoralidade e da impunidade.
Ontem, 27 de fevereiro de 2026, assistimos a mais um capítulo lamentável dessa novela de desmandos na Corte: o ministro Gilmar Mendes, com sua caneta afiada para defender os pares, anulou a quebra de sigilos da empresa Maridt Participações, ligada diretamente ao ministro Dias Toffoli e sua família. Uma decisão que cheira (mal) a corporativismo puro, em meio a investigações sobre o Banco Master e suas transações suspeitas, que envolvem lavagem de dinheiro, fraudes financeiras e conexões que ameaçam "resetar" a República, como alertam fontes da Polícia Federal.
Vamos aos fatos, sem rodeios: a CPI do Crime Organizado no Senado aprovou, anteontem, a quebra de sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático da Maridt, empresa da qual Toffoli é sócio ao lado de seus irmãos, José Carlos e José Eugênio. Essa firma vendeu participação no resort de luxo Tayayá para um fundo ligado a Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, investigado por crimes graves contra o sistema financeiro. Toffoli, que era relator do inquérito no STF, só se afastou do caso após pressões internas e externas, mas não sem antes admitir que declarou os valores à Receita – como se isso lavasse as suspeitas de conflito de interesses. Agora, Gilmar entra em cena, declarando a medida da CPI um "abuso de poder" e "desvio de finalidade", ordenando até a destruição de eventuais relatórios fiscais. Conveniente, não?
Essa intervenção de Gilmar não é apenas uma defesa de Toffoli; é um autoexposição perigosa. Ao se colocar publicamente como escudo nessa trama, Gilmar Mendes pode passar a ser suspeito de ser mais um beneficiário dos rolos do Banco Master, possivelmente de forma indireta – talvez via a própria empresa investigada ou outras conexões que o tempo (se deixarem) revelará. Afinal, por que tanta pressa em blindar uma firma familiar de um colega? Seria mera solidariedade institucional, ou há algo mais profundo, como interesses cruzados que o STF tanto gosta de esconder? Lembremos: o Banco Master patrocinou eventos com ministros, incluindo painéis sobre "estabilidade institucional", e Gilmar já julgou casos relacionados. Coincidência? Em um país sério, isso seria escrutinado, não abafado.
Como bem criticou a jornalista Malu Gaspar em sua coluna no O Globo ontem, essa decisão de Gilmar representa "o tamanho do absurdo praticado", um verdadeiro "contorcionismo jurídico" que escancara a desconfiança entre PF, PGR e Supremo. Malu Gaspar, com sua precisão habitual nessas denúncias todas, destacou como essa manobra "trava" a CPI e protege interesses que vão além do razoável, configurando uma blindagem que ignora provas concretas de ligações suspeitas. Suas palavras ecoam o que muitos de nós, conservadores, pensamos: o STF não pode ser um bunker contra a accountability. Pena que só agora.
Esse episódio reforça o jogo político persecutório que assola o Brasil, onde o Supremo age como árbitro e jogador ao mesmo tempo, solapando o Congresso e a PF quando convém. Enquanto bolsonaristas e opositores são caçados com um rigor sem paralelo e respaldo da boa norma, os "intocáveis" da Corte se protegem mutuamente. É hora de reformas profundas: discutir mandato fixo para ministros, currículo e histórico na área, impeachment facilitado e transparência total. Do contrário, a justiça brasileira continuará sendo um entrave ou até mesmo uma farsa, e o povo, o eterno perdedor. Gilmar, ao invés de julgar, parece legislar em causa própria – e isso, sim, é o verdadeiro abuso de poder.
Créditos (Imagem de capa): imagem: Dreamstime
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