Na noite passada, um cidadão desesperado fez um telefonema inusitado à linha de atendimento consular de Portugal, confundindo, segundo fontes não confirmadas, a embaixada com uma pizzaria. A conversa, registrada por engano por um estagiário que achava estar em um call center da Domino's, revela o que pode ser o mais saboroso pedido de cidadania já feito:
— Alô, boa noite, é da... embaixaria portuguesa? Ótimo. Eu queria fazer um pedido pra viagem. Um passaporte português, por favor. Isso, um daqueles tradicionais mesmo, com brasão dourado, validade de dez anos e livre acesso à União Europeia. Ah, se tiver promoção com direito a saúde pública e universidade quase de graça, pode colocar também.
Segundo relatos do estagiário, que prefere não se identificar por medo de deportação reversa, o cliente ainda pediu alguns “acompanhamentos”:
— Queria acrescentar uma dupla nacionalidade, com cidadania plena, direito a votar nas eleições de Portugal (mas sem compromisso de saber todos os nomes dos ex-primeiros-ministros, por favor). E se puder vir com um sotaque lisboeta suave, daqueles que não espantam brasileiros em Coimbra, melhor ainda.
Questionado se desejava retirada no balcão ou entrega expressa, o cliente foi direto:
— Entrega via e-mail, por gentileza. PDF já serve, mas se puder ser o livretinho com chip e cheiro de Europa, melhor ainda. Ah, e é pra um amigo, viu? Eu mesmo já tô conformado com o meu CPF vencido e o SUS lotado.
Ao final da ligação, deixou uma gorjeta simbólica:
— E pode anotar aí: nome dele é Mauro, 33 anos, descendência bem suspeita de um trisavô de Braga. A gente pode fingir que ele gosta de bacalhau, se isso ajudar.
A Embaixada ainda não confirmou se aceitou o pedido, mas fontes internas afirmam que, se Mauro souber ao menos dizer “pois” com elegância e torcer discretamente pelo Benfica, as chances aumentam.
Enquanto isso, no Brasil, o número de “pedidos de passaporte à moda portuguesa” só cresce, principalmente às sextas-feiras, após boletos vencidos e novos pronunciamentos do Banco Central.
Créditos (Imagem de capa): Claiton Appel