Por Anderson Boulder
Desde a década de 60 do século passado, nas análises e debates sobre a sempre crescente violência e criminalidade no Brasil, a Esquerda brasileira desenvolveu uma tese que se tornou amplamente aceita, afirmando que a marginalização de pessoas e a exclusão social, ou seja, a desigualdade na sociedade e a concentração de riqueza nas mãos de poucos, diante da pobreza de muitos, seria a causa principal da violência e da criminalidade. A prova disso seria a própria população carcerária do Brasil, composta majoritariamente por pobres.
Há vários argumentos satélites para validar esta tese: como algumas poucas pessoas possuem muita riqueza e uma quantidade enorme de pessoas está na pobreza, e como a mídia, o marketing e a comunicação em massa do capitalismo mostra um modelo ideal de vida como sendo o de “possuir coisas boas”, incutindo no inconsciente coletivo que só é feliz e aceito socialmente quem possui calçado, bolsa, carro, casa, relógios, joias e outros objetos de desejo que tenham grife e que só o dinheiro pode comprar, este estado de coisas levaria a população pobre à uma enorme frustração e a um sentimento de exclusão social, e o resultado desta decepção do pobre com a vida seria a decisão de “roubar para conseguir ter". Ilustrando com um exemplo recente: “o pobre rouba um celular para vender e poder tomar uma cervejinha com os amigos, porque não tem dinheiro para tomar uma cerveja”. E o que não falta é propaganda boa de cerveja...
É esta a tese: a má-distribuição de renda, a desigualdade social, a exclusão social, a injustiça social (quantas vezes você já ouviu estas expressões?), a marginalização do pobre, o capitalismo gerando um desejo desenfreado de adquirir bens materiais e de frequentar lugares atraentes, de ter acesso a saúde e educação de qualidade, resultando na frustração de não ter dinheiro para ser inserido socialmente, leva o pobre a cometer crimes. O pobre rouba por frustração. O pobre rouba de revolta por ser excluído socialmente. O pobre rouba por necessidade. O pobre mata o rico por desesperança com sua própria condição de pobre e por não ter nada a perder nessa vida.
A conclusão desta teoria é bastante conhecida: o criminoso é, na verdade, uma vítima da sociedade. Vítima da exclusão, vítima da má distribuição de renda, vítima da injustiça social. Ele rouba por só ter lhe restado este caminho. Pobreza gera crime. Pobre é criminoso. Culpa da sociedade, que concentra riqueza na mão de poucos e não faz nada para acabar com a pobreza.
A solução proposta pela Esquerda também é conhecida: se acabarmos com a concentração de renda, se acabarmos com a desigualdade social, se retirarmos dos ricos para dar aos pobres, acabaremos com as diferenças entre ricos e pobres e, por consequência, acabaremos com a criminalidade.
Essa proposta é muito atraente para os dois lados diretamente interessados no tema: o pobre, que ganharia renda de graça, sem fazer esforço, fruto da “distribuição forçada de renda pelo Estado para acabar com a desigualdade”, e o rico, que deixaria de ser atormentado pelo terror da criminalidade que o mantém em constante estado de medo e insegurança. Além disso, é uma proposta bela, bondosa, amorosa, acolhedora, fofa e que transpira justiça e carinho com os desvalidos.
A Esquerda ama esta tese, porque ela atrai votos de todos: pobres que querem ganhar dinheiro e ricos que querem ganhar segurança. Aliás, o que seria da Esquerda se não existissem o pobre e a pobreza para serem explorados pela promessa de melhora de vida sem esforço, garantida por um Estado bondoso e paternalista? Sem o pobre (chamado de “povo”), para que serviria a Esquerda?
Esta tese de pobreza gerando criminalidade, e da falta do Estado em prover uma solução, justifica que sem-terras invadam propriedades, para fazer uma “distribuição de bens” forçada, que pobres assaltem bancos, para fazer uma “distribuição de renda” forçada, que pobres roubem celulares para “conseguir tomar uma cervejinha com os amigos” e para alcançar outras alegrias que só o dinheiro pode comprar.
Mas notem como é a vida... O resultado desta tese tão amplamente difundida e quase unanimemente aceita incutiu na sociedade brasileira uma certeza maligna: se pobreza gera criminalidade, então pobre é sinônimo de criminoso. Pobre é ladrão. Pobre é bandido. Por isso, ao ver um típico pobre, de bermuda, havaianas e camiseta furada escrita “Dilma 2010”, zanzando pelo shopping center, os seguranças já começam a observá-lo com suspeição. Por que? Porque pobre é ladrão. Pobre é bandido. Pobre é criminoso. A polícia aborda pobres com arrogância e violência, porque pobre está fora da lei por definição. As empresas não empregam pobres, porque eles são perigosos por natureza, eles vivem em companhia de outros pobres, todos criminosos em potencial. As pessoas evitam os pobres na rua, porque eles estão procurando uma oportunidade de cometer crimes.
Mas quem criou esta imagem de o pobre ser bandido? A própria Esquerda, com sua tese de a criminalidade ser fruto da pobreza. Aqueles que se arrogam em defensores dos pobres e que protestam de forma veemente quando a polícia pisa no pescoço do pobre, quando o segurança do Carrefour enforca o pobre ou quando o pobre é discriminado em qualquer situação, são eles mesmos, da Esquerda, os culpados por existir esta imagem negativa dos pobres. Eles inventaram isso.
Ocorre que a Esquerda depende desta situação para ter votos e continuar existindo: ser eternamente a defensora dos pobres, e torcer para que a pobreza nunca acabe de verdade. Por isso a Esquerda não aprovou a reforma da previdência. Por isso a Esquerda não aprovou a melhoria do saneamento básico. Por isso a Esquerda discorda dos benefícios sociais dados pelo atual governo. Por isso a Esquerda é contra privatizações e a diminuição do Estado. Por isso a Esquerda sabota o governo para que o país não prospere. Por isso a Esquerda vai ao STF para barrar iniciativas do governo que beneficiam a sociedade. Porque um país próspero reduz a pobreza e aumenta a inutilidade da Esquerda.
Só para não deixar um vazio de informação, criminalidade é questão de múltiplos fatores como a estrutura familiar, a formação moral, a educação e o caráter do indivíduo, não necessariamente todos os fatores ao mesmo tempo ou nesta mesma ordem. Se criminalidade fosse resultado de pobreza, as centenas de executivos presos na operação Lava-Jato não seriam criminosos. As centenas de deputados ou senadores condenados pela justiça não seriam criminosos. A classe alta brasileira não teria inúmeros filhos criminosos. Suzane Von Richthofen não seria criminosa. Marcelo Odebrecht não seria criminoso. Lula não seria criminoso...
Se torna criminoso quem decide se tornar criminoso, e não se torna criminoso quem decide não se tornar criminoso. E isso nada tem que ver com pobreza ou riqueza. Ademais, Lula e Dilma dizem ter tirado milhões de pessoas da pobreza no mesmíssimo período da história do Brasil em que houve uma explosão dos índices de criminalidade, violência e homicídios em todo o país (de 2003 a 2017), chegando à marca histórica de 63.880 homicídios cometidos em um ano (sem contar furtos, roubos, estupros e outros crimes). Menos pobres e mais crimes? Alguém está mentindo nesta história...
Fonte/Créditos: Texto de Anderson Boulder
Créditos (Imagem de capa): https://pedromaganem.jusbrasil.com.br/artigos/220209900/ja-sei-como-diminuir-a-criminalidade