Manhã em Dourados, Mato Grosso do Sul. O sol esquentava o asfalto da rodovia MS-156, por onde Linda Morales, então com 38 anos, trafegava em uma moto rumo à aldeia Jaguapiru. Professora, ela retornava da cidade com um presente para a filha, que completava 11 anos naquele dia. A expectativa de surpreender a menina foi interrompida quando um caminhão a pegou em cheio.
“A preferência era minha, mas o caminhão não reduziu a velocidade, invadiu a pista onde eu estava e me atingiu”, lembra Linda. O acidente, em 2017, deixou danos irreversíveis. Para deixar o hospital e poder voltar para casa, ela precisou amputar a perna direita.
Dali a seis anos, outro episódio traumático teve como cenário a mesma rodovia. Era noite, e o filho de Linda, que também dirigia uma moto, colidiu contra um poste de iluminação após desviar de um motociclista que vinha na direção contrária com os faróis apagados. A iluminação da MS-126 é péssima. Elioenai dos Santos tinha 21 anos e não sobreviveu.
“A estrada não tem lâmpadas suficientes. A sinalização precisa melhorar: à noite, a visibilidade é muito fraca”, reclama.
Dourados fica a aproximadamente 230 quilômetros de Campo Grande (MS). A viagem da capital sul-mato-grossense até lá segue pelas rodovias BR-060, MS-162 e MS-157 – pistas de mão única, cercadas por grandes plantações de milho e soja que se estendem até onde os olhos alcançam.
Ao lado da cidade, está a Terra Indígena Dourados, onde convivem as etnias Guarani Ñandeva, Guarani Kaiowá e Terena. O território indígena está localizado dentro dos limites do município e é separado da área urbana apenas por um anel viário.
Na prática, as vias funcionam como uma linha divisória entre a população indígena, que vive nas aldeias Jaguapiru e Bororó, e o restante dos moradores. Ali, as aldeias não são diferentes de bairros muito pobres.
Em Jaguapiru, onde Linda mora, a rotina começa à beira da estrada. Logo pela manhã, enquanto as crianças esperam o transporte escolar às margens da rodovia, os adultos partem em bicicletas ou motocicletas – sem capacetes – em direção ao trabalho.
O trânsito se assemelha ao de uma cidade, mas, em vez de cruzar uma rua, os moradores precisam atravessar uma estrada na qual não há sinal de trânsito, calçadas ou faixas de pedestres. Todos estão extremamente frágeis diante do fluxo intenso de carretas.
De 2000 a 2023, 1.993 indígenas morreram em acidentes de trânsito. As informações são do Ministério da Saúde e incluem atropelamentos, acidentes com bicicletas, motocicletas e automóveis. No período, os óbitos relacionados às causas de trânsito superaram o número de mortes de indígenas relacionadas, por exemplo, às doenças virais (910, entre raiva, dengue e sarampo) e às doenças transmitidas por protozoários (419, entre malária, leishmaniose, doença de chagas e outras).
Também chama a atenção o crescimento de óbitos causados por acidentes deste tipo ao longo do tempo. De 2001 a 2010, foram 569 mortes, de 2011 a 2020, 951 – aumento de 67%. Entre 2021 e 2023, 386 indígenas já morreram em acidentes de trânsito – 40% do total registrado na década passada.
Fonte/Créditos: Metrópoles
Créditos (Imagem de capa): Reprodução
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