O Brasil já entrou em estado de atenção climática diante da formação de um novo fenôeno El Niño no Oceano Pacífico. Embora os cientistas ainda não consigam afirmar com segurança qual será a intensidade do evento, modelos meteorológicos internacionais apontam risco de um episódio extremamente forte — cenário que vem sendo chamado por especialistas e pela imprensa internacional de “El Niño Godzilla”.
Segundo nota técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o fenôeno deve ganhar força entre a primavera de 2026 e o verão de 2027, trazendo efeitos severos para diferentes regiões do país.
Os impactos previstos incluem seca extrema na Amazônia e no Nordeste, enchentes no Sul, aumento de incêndios florestais, ondas de calor intensas e pressão sobre reservatórios de água e geração de energia.
O El Niño acontece quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal. Quando esse aquecimento supera 2°C acima da média histórica, o fenôeno passa a ser considerado muito intenso. Em alguns modelos atuais, o aquecimento já aparece próximo de 3°C, o que levantou alertas globais.
Apesar disso, o próprio Cemaden reforça que ainda não é possível cravar se o evento será moderado, forte ou histórico.
Norte: seca severa e rios em níveis críticos
A região Norte aparece entre as mais preocupantes nos estudos climáticos atuais. Segundo o Cemaden, episódios fortes de El Niño costumam reduzir drasticamente o volume de chuvas na Amazônia.
Caso as projeções se confirmem, estados amazônicos podem enfrentar situação semelhante — ou até pior — do que a registrada em 2024, quando o país viveu a maior seca dos últimos 70 anos em extensão e intensidade.
A redução das chuvas pode provocar:
- queda drástica no nível dos rios;
- dificuldade de navegação;
- problemas de abastecimento;
- aumento das queimadas;
- piora da qualidade do ar;
- impactos sobre povos ribeirinhos e indígenas.
Especialistas alertam ainda para o risco de pressão sobre hidrelétricas importantes, como as instaladas nos rios Xingu, Madeira e Tocantins-Araguaia.
Mesmo após o enfraquecimento do El Niño, os efeitos podem continuar por meses, já que os rios tendem a demorar para recuperar seus níveis normais.
Nordeste: calor extremo e agravamento da seca
O Nordeste também deve sofrer com redução das chuvas e aumento das temperaturas.
O cenário preocupa principalmente áreas do semiárido, onde reservatórios podem enfrentar queda acentuada nos níveis de água.
Segundo o Cemaden, o calor intenso combinado com longos períodos secos pode aumentar:
- crises hídricas;
- perdas agrícolas;
- problemas no abastecimento;
- riscos à saúde da população.
As ondas de calor também tendem a ficar mais fortes durante anos de El Niño.
Nos últimos anos, estados do Norte e Nordeste registraram algumas das temperaturas mais extremas do país.
Centro-Oeste: Pantanal sob risco elevado de incêndios
No Centro-Oeste, os impactos devem atingir principalmente o Pantanal e parte do Mato Grosso do Sul.
A combinação entre calor extremo, vegetação seca e redução da umidade favorece incêndios florestais de grandes proporções.
O próprio Supremo Tribunal Federal (STF) já determinou que União e estados detalhem medidas preventivas diante do risco de agravamento das queimadas.
Além disso, o Mato Grosso do Sul pode registrar episódios de chuvas intensas em curtos períodos, elevando o risco de:
- enxurradas;
- alagamentos;
- inundações rápidas.
Sul: risco de enchentes e deslizamentos
Historicamente, o Sul do Brasil costuma ser a região mais impactada pelas chuvas durante episódios fortes de El Niño.
Segundo o Cemaden, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná devem enfrentar aumento significativo no volume e na frequência das precipitações.
Rio Grande do Sul
O estado aparece como principal área de preocupação.
As projeções indicam:
- risco elevado de enchentes;
- inundações graduais;
- deslizamentos;
- instabilidade de encostas;
- transbordamento de rios.
A região de Porto Alegre e entorno foi citada como área crítica devido à alta densidade populacional e à infraestrutura urbana.
Santa Catarina
Em Santa Catarina, o aumento das chuvas pode variar bastante conforme a região, mas áreas costeiras e serranas preocupam pelas chances de:
- deslizamentos de terra;
- enxurradas;
- enchentes urbanas.
Paraná
No Paraná, os impactos devem ser mais moderados, mas ainda há risco de:
- temporais;
- alagamentos;
- enxurradas;
- movimentos de terra em áreas vulneráveis.
Sudeste: calor intenso e eventos extremos localizados
Embora o Sudeste não esteja entre as regiões mais diretamente afetadas pelo padrão clássico do El Niño, especialistas alertam para aumento das ondas de calor e possibilidade de eventos extremos localizados.
São Paulo aparece entre os estados que mais registram ondas de calor no país.
Além disso, chuvas intensas isoladas podem ocorrer dependendo das condições atmosféricas.
Ondas de calor devem aumentar em todo o país
Segundo o Cemaden, o Brasil vem registrando crescimento no número de ondas de calor nos últimos anos:
- 8 ondas em 2023;
- 10 em 2024;
- 7 em 2025.
Durante eventos de El Niño, essas ondas costumam ficar ainda mais intensas.
O calor extremo pode provocar:
- aumento do consumo de energia;
- pressão sobre sistemas de saúde;
- piora na qualidade do ar;
- agravamento de doenças respiratórias;
- maior risco de incêndios.
Cientistas pedem cautela
Apesar dos alertas, especialistas reforçam que ainda é cedo para confirmar a intensidade final do fenôeno.
O Cemaden destaca que os modelos climáticos de longo prazo ainda apresentam limitações para prever exatamente como o Pacífico irá evoluir até o fim do ano.
Mesmo assim, órgãos de monitoramento já trabalham com cenário de atenção máxima diante do potencial destrutivo que um El Niño muito intenso pode causar no Brasil.
Fonte/Créditos: Valor Econômico
Créditos (Imagem de capa): Tempestade de raios — Foto: Tasos Mansour via Unsplash
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