Um oftalmologista foi condenado a 40 anos de prisão em regime fechado após provocar a perda de visão, parcial ou permanente, em 21 pacientes durante um mutirão de cirurgias de catarata realizado em São Bernardo do Campo (SP), em 2016. A sentença, proferida no final de junho pela 3ª Vara Criminal do município, aponta que o profissional realizou os procedimentos sem a esterilização correta dos materiais cirúrgicos, resultando em graves infecções oculares.
De acordo com o processo judicial, a falta de higienização adequada dos instrumentos provocou um surto de infecções generalizadas. Uma perícia técnica realizada durante as investigações confirmou que todas as vítimas foram contaminadas pela mesma bactéria, identificada como Pseudomonas aeruginosa, introduzida diretamente nos olhos dos pacientes durante os atos cirúrgicos.
Defesa contesta e aponta equívoco na decisão
Durante o andamento do processo, o médico negou as acusações de negligência. Em sua defesa, ele alegou que deixou os materiais para esterilização no hospital um dia antes dos procedimentos e que ajudou na montagem do centro cirúrgico na data marcada. O profissional afirmou ainda que os equipamentos estavam devidamente fechados, sendo abertos apenas no momento das cirurgias, e que realizava assepsia com iodo após cada operação.
Apesar dos argumentos da defesa, que classificou a sentença como um "grande equívoco" e anunciou que irá recorrer da decisão, o juiz responsável pelo caso destacou que as provas apresentadas nos autos são robustas e harmônicas. O magistrado enfatizou que a quebra dolosa do protocolo de esterilização foi determinante para as lesões severas sofridas pelas vítimas.
Relatos dramáticos das vítimas do mutirão
O impacto das infecções gerou consequências devastadoras na vida dos pacientes atendidos no mutirão de 2016. Os depoimentos coletados durante o processo revelam um cenário de dor profunda, tratamentos prolongados e sequelas irreversíveis. Entre os principais relatos destacam-se:
- M. F.: Ficou 15 dias internada, precisou passar pela extração de um olho e relata sofrimento constante com o uso de uma prótese ocular que inflama e coça. Ela também afirmou que o avental utilizado na cirurgia já estava usado e os instrumentos ficavam submersos em um líquido dentro de potes.
- E. B.: Perdeu a visão após a cirurgia de catarata e relatou que, ao retornar no dia seguinte, encontrou outras quatro pessoas com reclamações semelhantes, recebendo como resposta do médico que ele não sabia o que havia acontecido.
- M. S.: Passou por mais três cirurgias corretivas após complicações, sentiu muita dor durante o procedimento original e hoje relata enxergar apenas vultos com um dos olhos.
O caso segue sob atenção do sistema judicial enquanto a defesa aguarda os desdobramentos dos recursos cabíveis contra a pena imposta ao oftalmologista.
Créditos (Imagem de capa): Olho — Foto: FreePik
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se