Existe um tipo de generosidade que impressiona. É aquela praticada com o dinheiro dos outros. E ninguém a exerce com tanta desenvoltura quanto o governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo levantamento do economista Marcos Mendes, pesquisador do Insper, o chamado “pacote de bondades” do governo federal já soma R$ 215 bilhões em 2026 — o equivalente a 1,6% do PIB brasileiro. Para dar dimensão ao número: as receitas adicionais estimadas pelo próprio governo são de R$ 109 bilhões. Ou seja, o governo gasta quase o dobro do que arrecada a mais.
Alguém aí ouviu falar em responsabilidade fiscal?
Mas há um detalhe que transforma o problema em escândalo contábil.
O arcabouço que não arcabouça
Dos R$ 215 bilhões despejados na economia, apenas R$ 9 bilhões estão dentro dos limites do arcabouço fiscal — a regra que o próprio governo criou em 2023, com pompa e discurso, para supostamente controlar o crescimento dos gastos públicos.
Nove bilhões. De duzentos e quinze.
Isso não é flexibilidade fiscal. É ficção orçamentária.
A engenharia é sofisticada. Parte relevante dos estímulos foi desenhada para escapar da contabilidade tradicional. Linhas de crédito subsidiado pelo BNDES para caminhoneiros, taxistas e motoristas de aplicativo. Financiamentos habitacionais. Tudo formalmente fora do gasto primário — mas com impacto real sobre as contas públicas.
A mágica dos números que ninguém vê
O levantamento de Mendes revela a anatomia da manobra. Dos R$ 215 bilhões:
R$ 97 bilhões são despesas classificadas como financeiras;
R$ 35 bilhões foram enquadrados como gastos extraorçamentários, realizados por meio de fundos públicos que operam fora do Orçamento;
R$ 83 bilhões afetam diretamente o resultado primário — e mesmo assim, parte deles escapa do arcabouço graças a exceções aprovadas pelo Congresso ou determinadas pelo Judiciário.
Percebe o padrão? Cria-se a regra. Depois, cria-se a exceção. E a exceção engole a regra.
É como construir uma represa e, em seguida, abrir buracos nela porque a água precisa passar. A enchente é só questão de tempo.
Eleição à vista, cofres abertos
A coincidência temporal é, digamos, curiosa. O maior pacote de estímulos fiscais do governo é lançado justamente no ano que antecede as eleições presidenciais de 2026. Caminhoneiros beneficiados. Motoristas de aplicativo contemplados. Habitação popular turbinada.
Não é política econômica. É campanha antecipada com dinheiro público.
O economista Marcos Mendes é direto ao apontar o que todo analista sério já sabe: independentemente da classificação contábil, todas essas medidas pressionam a dívida pública. E dívida maior significa juros mais altos, inflação mais difícil de controlar e um legado envenenado para quem quer que governe o país depois.
A conta chega — sempre
Mendes criticou abertamente o uso de recursos extraorçamentários e afirmou que a estratégia corrói a credibilidade do arcabouço fiscal. Na prática, o governo criou uma regra para dizer ao mercado que seria responsável — e passou os últimos anos encontrando formas criativas de burlá-la.
O principal desafio, segundo o pesquisador, será promover um ajuste efetivo das contas públicas. Traduzindo: alguém vai ter que pagar a conta dessa generosidade toda. E não será Lula.
A pergunta que ninguém em Brasília quer responder é simples: se o arcabouço fiscal pode ser contornado sempre que houver vontade política, para que ele existe?
A resposta, infelizmente, também é simples. Existe para dar a impressão de que alguém está no controle. Enquanto R$ 215 bilhões provam, com eloquência brutal, que ninguém está.
Fonte/Créditos: Contra Fatos
Créditos (Imagem de capa): Foto: Ricardo Stuckert/PR
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