Um único tubo de sangue pode ser suficiente para flagrar dezenas de tumores malignos antes mesmo de qualquer sintoma. Essa é a promessa do Galleri, um exame de sangue que sacudiu o congresso mais importante da oncologia mundial e deve desembarcar em território brasileiro entre agosto e setembro deste ano.
O que é o Galleri e como funciona
O Galleri é um teste de rastreio multicâncer desenvolvido por uma empresa californiana chamada Grail. A partir de uma coleta de sangue aparentemente corriqueira, o exame é capaz de identificar mais de 50 tipos de câncer — entre os cerca de 100 conhecidos — e ainda indicar em que órgão a doença está se desenvolvendo.
Nos Estados Unidos, o teste já pode ser solicitado por qualquer médico em laboratórios credenciados. A expectativa é que, no segundo semestre de 2026 ele também esteja disponível no Brasil.
A ciência por trás da detecção no sangue
A história começa em 2013, quando pesquisadores de uma grande empresa americana de testes genéticos analisavam o sangue de gestantes em busca de fragmentos de DNA fetal. O objetivo era rastrear síndromes raras nos bebês. Em 20 amostras, porém, foram encontrados pedaços de DNA que não correspondiam nem à mãe nem ao feto. Tinham a “cara” de câncer. E de fato eram: tumores tão iniciais que as próprias mulheres não tinham ideia de que estavam doentes.
Dois anos mais tarde, esse grupo fundou a Grail — referência ao Santo Graal — com a missão de criar o almejado teste de rastreio multicâncer. Dezenas de milhares de amostras de sangue de pessoas com e sem a doença foram coletadas e comparadas.
O papel da metilação do DNA
Todas as células do corpo humano carregam o mesmo código genético. O que diferencia, por exemplo, uma célula do olho de outra do pé são os genes que estão “ligados” ou “desligados”. Quem aciona esses interruptores são pequenas moléculas que, ao se agruparem, formam o que os cientistas chamam de metilação.
O oncologista Fernando Moura, do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, explica a lógica: “Só que, no DNA de uma célula cancerosa, em vez de a gente ver uma ou outra metilação, como seria o normal, existem várias, porque o tumor é completamente anárquico”. Quando uma célula maligna morre e se fragmenta, pedaços hipermetilados do seu DNA circulam pela corrente sanguínea. “Neles, os agrupamentos metila parecem um enxame de abelhas em torno da colmeia”, descreve o oncologista.
E há um detalhe decisivo: o padrão dessa confusão molecular varia de acordo com o tipo de tumor. É exatamente por isso que o exame consegue não apenas detectar um fragmento suspeito, mas também apontar a localização do câncer no corpo.
A especificidade do teste ultrapassa 99%. Em termos práticos, de cada cem pessoas sem câncer, apenas uma receberia um resultado falso-positivo.
O estudo NHS-Galleri que agitou o congresso da Asco
No início de junho, durante o encontro anual da Asco (American Society of Clinical Oncology), em Chicago, a apresentação do estudo NHS-Galleri foi o evento mais aguardado. Charles Swanton, um dos pesquisadores mais renomados da University College London, na Inglaterra, e um dos líderes da pesquisa, exibiu os resultados para uma plateia lotada.
O oncologista Mark Robson, do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, subiu ao palco logo em seguida e resumiu o impacto: “Não estamos falando de um teste e, sim, de uma mudança profunda de paradigma, dessas que durante muito tempo pareceu coisa de ficção científica”. Robson, contudo, também fez ressalvas agudas sobre o uso do exame para rastrear populações inteiras.
Números e metodologia do estudo
O NHS-Galleri reuniu 142.942 voluntários do Reino Unido, com idades entre 50 e 77 anos, todos sem qualquer sintoma de câncer. Trata-se do primeiro estudo randomizado de um teste de rastreio multicâncer nessa escala. Metade dos participantes realizou exames convencionais — como ultrassom e tomografia — para rastrear 12 tipos de câncer entre os mais letais. A outra metade fez três coletas de sangue ao longo de três anos, uma por ano, como triagem. Resultados positivos levavam a exames complementares de confirmação.
“Seria difícil investigar os 50 que exame é capaz de apontar”, justifica Charles Swanton sobre a escolha dos 12 cânceres para comparação.
Resultados que dividem opiniões
O chamado desfecho primário do estudo — aquilo que os cientistas mais queriam comprovar — era que o rastreio multicâncer reduziria o número de diagnósticos de câncer já em estágios 3 ou 4, os mais avançados. Nesse ponto, a diferença entre o grupo que usou o Galleri e o grupo submetido a exames tradicionais foi mínima, mesmo com o teste tendo identificado um volume quatro vezes maior de possíveis cânceres.
Mais diagnósticos nas fases iniciais
Por outro lado, o número de diagnósticos nas fases 1 e 2 — quando o tumor ainda está em seus primeiros passos — foi 16% maior entre quem realizou a biópsia líquida. O aumento foi ainda mais expressivo nos tumores para os quais não existem programas convencionais de rastreamento.
“Outro ponto importante: houve uma redução de 25% nos diagnósticos emergenciais”, conta o doutor Fernando Moura. “É quando o paciente vai parar no pronto-socorro por falta de ar e, após avaliação médica, recebe a notícia de um câncer de pulmão”, exemplifica.
A lacuna que o exame pretende preencher
O doutor Fernando Moura, que lidera o Programa de Medicina de Precisão no Einstein, trouxe um dado que costuma passar despercebido: “No mundo inteiro, só existe rastreamento precoce para cinco tipos de câncer”. São eles: pulmão, colo uterino, intestino, mama e próstata.
E todos os demais? “Todos os outros cânceres são descobertos de maneira incidental ou porque a pessoa passou a apresentar sintomas, com a doença já em uma fase mais avançada”, responde o médico, que há pelo menos três anos acompanha cada publicação e debate sobre o tema da biópsia líquida.
Charles Swanton apresentou dados alinhados a essa preocupação: “No Reino Unido, apenas 6% dos tumores são detectados nos exames de rastreamento recomendados à população e, nos Estados Unidos, só 14%. Porém, olhando para o total de casos de câncer nesses países, mais de 70% são daqueles tipos para os quais não existem programas de rastreamento precoce. Será que o exame de sangue não veio justamente para resolver isso?”
Preocupação com custos e exames desnecessários
Nos corredores do congresso da Asco, a principal inquietação entre os médicos era sobre os custos. Se o teste fosse aplicado em larga escala e gerasse muitos resultados positivos, a demanda por broncoscopias, tomografias e outros exames caros para confirmar diagnósticos poderia explodir.
Fernando Moura pondera: “Mas precisamos nos lembrar que, dos resultados do exame, só 1% veio positivo”. E acrescenta que a detecção precoce tende a reduzir tratamentos complexos e cirurgias de grande porte, compensando custos no longo prazo.
Uma nova era na oncologia
Embora o estudo NHS-Galleri não tenha alcançado seu desfecho primário — a redução significativa de diagnósticos em estágios avançados —, os dados trouxeram evidências animadoras sobre a capacidade do exame de sangue de flagrar tumores em fases iniciais e ampliar o alcance do rastreamento para muito além dos cinco cânceres tradicionais.
O que antes parecia ficção científica agora tem data para chegar ao Brasil. Resta saber como o sistema de saúde e a comunidade médica brasileira vão incorporar essa tecnologia ao dia a dia clínico.
Fonte/Créditos: Contra Fatos
Créditos (Imagem de capa): Imagem: iStock
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