Uma movimentação financeira envolvendo um fundo de investimento associado a familiares do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli chamou a atenção de investigadores e especialistas do mercado. O fundo transferiu R$ 33,9 milhões em cotas para uma offshore registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, tradicional paraíso fiscal, cujo controle permanece desconhecido. As informações foram divulgadas pelo SBT News.
O fundo em questão, Arleen Fundo de Investimentos, pertence a irmãos do ministro e ficou conhecido por adquirir R$ 20 milhões em ações do resort Tayayá, localizado no interior do Paraná. Após a transferência integral dos ativos para a offshore estrangeira, o fundo foi oficialmente encerrado.
Valorização abrupta chama atenção
O encerramento ocorreu em duas etapas. Na primeira, em assembleia realizada em 5 de novembro de 2025, o Arleen aprovou a entrega de seus ativos à empresa estrangeira Egide I Holding, com cotas avaliadas em R$ 1,51, totalizando R$ 11,5 milhões.
Menos de um mês depois, em 4 de dezembro, o valor unitário das cotas saltou para R$ 679,13, uma valorização de quase 45.000%, elevando o montante transferido para R$ 33,9 milhões. O patrimônio envolvido correspondia justamente às ações do resort ligadas à família de Toffoli.
Paralelos com esquemas investigados
Especialistas apontam que a operação apresenta semelhanças com mecanismos investigados pela Polícia Federal no caso do Banco Master, nos quais ativos de baixo valor eram rapidamente supervalorizados para dificultar a identificação dos beneficiários finais.
As Ilhas Virgens Britânicas, onde está registrada a Egide I Holding, são conhecidas por alto grau de sigilo societário, o que torna ainda mais difícil identificar quem controla a empresa. Segundo registros do portal i-BVI, a offshore foi criada em março de 2025.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não informou quando a Egide I Holding passou a integrar formalmente a carteira do Arleen. O primeiro registro identificável indica a compra de ações da offshore por R$ 11,5 milhões, embora o valor de mercado estimado fosse de apenas R$ 1,9 milhão.
Com isso, a Egide tornou-se a única cotista do fundo, recebendo valores muito acima do mercado e ficando, ao final, com todo o patrimônio.
Administração do fundo e investigações
O Arleen Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia era administrado pela Reag Investimentos, empresa que passou a ser investigada pela Polícia Federal por suspeita de integrar um esquema financeiro ilícito em parceria com o Banco Master. Em 15 de janeiro, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação da Reag.
De acordo com as apurações, o Banco Master teria estruturado uma rede de fundos para adquirir ativos problemáticos e simular valorizações artificiais em curto prazo.
O fundo Arleen foi criado em junho de 2021 e iniciou suas operações comprando 65,85 mil ações da Tayayá Administração e Participações Ltda. Seis meses antes, os irmãos de Dias Toffoli haviam adquirido 33% do resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro.
Conexões familiares e empresariais
Reportagem do O Estado de S. Paulo revelou que Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, é dono de fundos que também adquiriram participação no Tayayá. Zettel declarou que “deixou o fundo em 2022”.
Além dos irmãos do ministro, o primo Mario Umberto Degani também chegou a participar do empreendimento. Atualmente, a administração do resort está sob responsabilidade do advogado Paulo Humberto Barbosa, que não se manifestou até o momento.
Toffoli no centro do caso Master
Como relator do caso Banco Master no STF, Dias Toffoli tem sido alvo de críticas públicas por decisões que, segundo opositores, teriam dificultado o avanço das investigações. Em uma medida recente, o ministro reduziu de seis para dois dias o prazo para depoimentos de investigados pela Polícia Federal.
A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que Toffoli “não tem qualquer conhecimento ou envolvimento com as operações dos fundos mencionados” e que as associações feitas são infundadas.
Apesar disso, a operação financeira envolvendo o fundo ligado à família do ministro, a valorização abrupta, o uso de offshore em paraíso fiscal e as conexões com estruturas investigadas ampliam o debate sobre transparência, conflitos de interesse e fiscalização no sistema financeiro brasileiro.
Fonte/Créditos: Contra Fatos
Créditos (Imagem de capa): Reprodução
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se