As eleições presidenciais de 2026 podem ter um desfecho já no primeiro turno, segundo avaliação do cientista político e economista Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisas Idea. Em entrevista à BBC News Brasil, o especialista afirmou que o atual cenário eleitoral apresenta características incomuns, com os dois principais pré-candidatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), aparecendo acima dos 30% das intenções de voto.
Para Moura, o nível de consolidação dos votos observado a mais de cinco meses da eleição é um dos principais fatores que podem levar a uma definição já em 4 de outubro. Segundo ele, tanto Lula quanto Flávio possuem bases eleitorais fortemente mobilizadas e um elevado índice de voto espontâneo, indicando que boa parte dos eleitores já fez sua escolha.
Apesar de pesquisas recentes apontarem uma recuperação de Lula após a repercussão do caso envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro, setores da direita consideram precipitada qualquer conclusão sobre o impacto definitivo do episódio. Aliados de Flávio Bolsonaro argumentam que o eleitor tende a priorizar temas ligados ao cotidiano, como inflação, emprego, poder de compra e segurança pública, especialmente na reta final da campanha.
Na avaliação de lideranças conservadoras, o principal desafio para o governo continua sendo convencer o eleitor de que merece mais um mandato. A leitura é que a disputa tem características de um referendo sobre a gestão Lula, e não apenas uma comparação entre candidatos.
Outro ponto destacado por Moura é o chamado "antipetismo de chegada". Segundo ele, parte do eleitorado que poderia optar por outros nomes de centro ou direita no primeiro turno tende a migrar para o candidato mais competitivo contra o PT à medida que a eleição se aproxima.
“Quanto mais forte estiver o Lula no primeiro turno, mais o antipetismo vai se mobilizar”, afirmou o especialista.
Essa avaliação é compartilhada por integrantes do campo conservador, que acreditam que uma eventual concentração de votos em torno de Flávio Bolsonaro pode crescer conforme o eleitorado enxergue a necessidade de unificar forças para enfrentar o presidente.
A análise também destaca que Lula não enfrenta, neste momento, concorrentes relevantes dentro do próprio campo da esquerda, situação diferente de eleições anteriores, quando nomes como Marina Silva, Ciro Gomes, Heloísa Helena e Guilherme Boulos disputavam parte do mesmo eleitorado.
Por outro lado, a direita observa que o governo ainda enfrenta dificuldades para recuperar índices de aprovação em um ritmo semelhante ao registrado por outros presidentes que buscaram a reeleição. Moura cita que a melhora observada nos números de Lula ao longo de 2026 tem sido mais lenta do que a registrada por Fernando Henrique Cardoso em 1998, Lula em 2006 e Dilma Rousseff em 2014.
Outro fator considerado importante é a abstenção. Historicamente, os índices mais elevados de ausência nas urnas costumam ocorrer entre eleitores de menor renda e escolaridade, grupo onde Lula tradicionalmente apresenta melhor desempenho. Dessa forma, uma participação menor desse segmento pode alterar a distribuição dos votos válidos.
Segundo Moura, uma variação relativamente pequena na abstenção pode ser suficiente para mudar o resultado da eleição e até favorecer uma definição em primeiro turno.
O especialista também avalia que a disputa poderá ser decidida por uma parcela reduzida do eleitorado, estimada em cerca de 3% dos votantes. Trata-se dos chamados eleitores independentes, que não estão fortemente identificados nem com o PT nem com o bolsonarismo.
Para esse grupo, questões econômicas tendem a pesar mais do que escândalos políticos. Na visão de setores da direita, esse cenário pode beneficiar a oposição caso o debate eleitoral se concentre em temas como inflação, crescimento econômico, impostos e qualidade dos serviços públicos.
Enquanto isso, o governo busca ampliar programas sociais e medidas de estímulo econômico, numa estratégia que aliados consideram fundamental para fortalecer a candidatura à reeleição. Já a oposição trabalha para manter o foco nas críticas à gestão federal e consolidar a união do eleitorado conservador.
Com as convenções partidárias ainda pela frente, o quadro eleitoral permanece aberto. No entanto, a avaliação de analistas é que a disputa já entrou em uma fase decisiva, com sinais de que a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro poderá dominar o debate político até o dia da votação.
Créditos (Imagem de capa): Foto: Getty Images / BBC News Brasil
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