Em 2022, uma técnica de laboratório da Universidade Cornell coletou um simples frasco de abelhas durante seu caminho para o trabalho. O que parecia uma curiosidade do cotidiano desencadeou uma das descobertas entomológicas mais surpreendentes dos últimos anos: milhões de abelhas selvagens vivendo escondidas sob um cemitério de Nova York há quase um século.
Como um frasco de abelhas levou a uma descoberta histórica
As abelhas emergiam do solo enquanto a pesquisadora caminhava pelo Cemitério East Lawn, em Ithaca, Nova York. O estudo publicado na revista Apidologie confirmou que a espécie Andrena regularis, conhecida como abelha-mineira-comum, é coletada naquele local desde 1935, sugerindo que a população pode ter persistido ali por 90 anos ou mais.
Para contar as abelhas, os pesquisadores utilizaram armadilhas de emergência, pequenas tendas de malha colocadas sobre o solo com um funil que leva a um frasco coletor. Entre 30 de março e 16 de maio de 2023, a equipe capturou 3.251 insetos individuais de 16 espécies diferentes, com a A. regularis sendo a mais abundante em todas as capturas, por uma ampla margem.
Por que tantas abelhas escolheram exatamente esse lugar?
As abelhas-mineiras são solitárias. Cada fêmea cava seu próprio ninho subterrâneo, constrói de quatro a cinco células de cria entre 10 e 22 centímetros de profundidade e as abastece com pólen e néctar. Não existe rainha nem colmeia compartilhada. O que o cemitério abriga não é uma colônia tradicional, mas milhões de indivíduos que escolhem independentemente o mesmo pedaço de terra, geração após geração.
O entomologista Bryan Danforth, da Universidade Cornell e autor principal do artigo, explicou que a ausência de perturbação do solo, pressão de pesticidas e pavimentação é precisamente o que grandes populações que nidificam no solo precisam para persistir por décadas. O solo de East Lawn é franco-arenoso, com média de 66,5% de areia, a textura preferida pela espécie para escavar
Como os cientistas chegaram ao número de 5,5 milhões de abelhas
Dez armadilhas foram posicionadas na área antes da temporada de emergência de 2023, com visitas diárias durante o pico de atividade. Os resultados foram impressionantes e detalhados pelo estudo:
| Métrica / Indicador | Dados / Estimativa | Contexto / Escala |
|---|---|---|
| Densidade Média | 853 indivíduos / m² | Registrada nas armadilhas instaladas. |
| População Total Estimada | 5,56 milhões de abelhas | Extrapolação para a área total de 6.500 metros quadrados. |
| Intervalo de Confiança | 3,1 a 8,0 milhões de indivíduos | Intervalo estatístico de variação da população. |
| Densidade de Colmeias | 140 a 270 colmeias | Equivalente concentrado em menos de um hectare. |
| Comparativo Comercial | 2 a 3 colmeias por hectare | Padrão normal utilizado por produtores de maçã em Nova York, o que dimensiona a alta escala desse achado. |
O papel silencioso dessas abelhas na produção de alimentos
A menos de 600 metros do cemitério fica o Cornell Orchards, um pomar de maçãs da universidade. Em levantamentos realizados entre 2008 e 2015, a A. regularis foi classificada como a visitante floral mais abundante do local, superando até as colônias de abelhas melíferas manejadas comercialmente. As fêmeas carregam pólen de maçã quase puro e entram em contato com as partes reprodutivas das flores com alta frequência a cada visita, tornando-as polinizadoras altamente eficazes.
Apesar disso, a espécie permanece pouco estudada. A descrição biológica mais recente e abrangente da A. regularis antes deste artigo datava de 1978. Abelhas solitárias que nidificam no solo representam aproximadamente 75% de todas as espécies de abelhas do mundo, mas recebem muito menos atenção científica do que espécies sociais como as abelhas melíferas.
O que essa descoberta diz sobre o que ainda não sabemos
Se uma população de 5,5 milhões de abelhas pôde permanecer cientificamente desconhecida por décadas a poucos passos de uma das maiores universidades de pesquisa dos Estados Unidos, a pergunta inevitável é: quantas outras agregações como essa existem sob parques, cemitérios, beiras de estrada e gramados urbanos ao redor do mundo? Danforth e sua equipe já lançaram um projeto de ciência cidadã para coletar relatos do público em escala global.
A resposta pode estar no lugar mais banal possível. Às vezes, um dos maiores segredos da natureza está exatamente debaixo dos nossos pés, esperando que alguém pare, olhe para o chão e preste atenção.
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