O roteador parado na gaveta, o celular velho na caixinha e o computador que parou de funcionar têm algo em comum: todos contêm ouro de 22 quilates em camadas finíssimas por dentro. Pesquisadores da ETH Zurich, na Suíça, criaram um método para extrair esse ouro usando soro de leite, e os números são impressionantes: 20 placas-mãe usadas custam US$ 1 para processar e rendem US$ 50 em ouro.
Por que os fabricantes colocam ouro em aparelhos comuns?
O ouro é um dos melhores condutores elétricos que existem. E, ao contrário do cobre, ele não enferruja nem perde qualidade com o tempo.
Por isso, a indústria deposita camadas finíssimas de ouro sobre conectores, pinos de chips e trilhas internas dos aparelhos. A quantidade por dispositivo é mínima e invisível a olho nu. Mas, somada ao lixo eletrônico do mundo inteiro, segundo a Organização Mundial da Saúde, são mais de 61 milhões de toneladas geradas só em 2023.
Quais aparelhos têm mais ouro?
Quanto mais antigo o aparelho, mais ouro ele tende a ter. Os modelos fabricados antes dos anos 2010 usavam camadas mais espessas, porque o preço do metal ainda era mais baixo. Veja os principais:
- Roteadores e modems antigos Lideram a lista. Muitos conectores internos precisam de estabilidade de sinal constante, e o ouro garante isso por anos sem perder qualidade.
- Celulares com teclado físico Modelos antigos como Nokia e Motorola dos anos 2000 têm camadas mais generosas de ouro nos contatos internos do que os smartphones de hoje.
- Placas-mãe de computadores A fonte usada no estudo da ETH Zurich. Os slots de memória, conectores e pinos do processador têm ouro nos pontos de contato elétrico.
- Micro-ondas e televisores antigos As placas de controle eletrônico desses eletrodomésticos têm pequenas quantidades de ouro nos módulos de comando internos.
- Decodificadores, DVD players e aparelhos de som Qualquer aparelho com placa eletrônica e conectores de sinal tende a ter traços de ouro. Decodificadores de TV a cabo são os mais esquecidos.
O que os cientistas descobriram sobre como extrair esse ouro?
O estudo foi publicado em março de 2024 na revista Advanced Materials pelo professor Raffaele Mezzenga e sua equipe na ETH Zurich. A ideia foi usar uma esponja feita de proteína do soro do leite, subproduto da fabricação de queijo, para capturar o ouro dos eletrônicos dissolvidos em ácido.
O resultado do teste: 20 placas-mãe velhas geraram uma pepita de 450 miligramas com 91% de pureza, o equivalente exato a 22 quilates. O custo de todo o processo foi de cerca de US$ 1. O ouro recuperado vale cerca de US$ 50.
Dá para tentar fazer isso em casa?
Não. Os métodos tradicionais de extração usam mercúrio e cianeto, substâncias que causam danos graves à saúde e contaminam o ambiente. Queimar componentes eletrônicos libera gases cancerígenos.
O método da ETH Zurich elimina esses químicos, mas exige equipamentos industriais e temperaturas acima de 1.000°C. O que qualquer pessoa pode fazer é encaminhar os aparelhos para pontos de coleta. No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos obriga fabricantes a receberem de volta os aparelhos ao fim da vida útil, e grandes redes de varejo mantêm pontos de coleta gratuitos.
Quanto ouro tem no lixo eletrônico do mundo?
Uma tonelada de lixo eletrônico pode conter até 400 gramas de ouro, quantidade bem maior do que a encontrada em uma tonelada de minério de mina convencional, conforme dados citados pela Wikipédia sobre mineração urbana.
O ouro descartado nos eletrônicos não desaparece. Ele vai para aterros, onde não serve para nada e ainda contamina o solo. A diferença entre lixo e recurso, nesse caso, é só saber onde jogar fora.
Créditos (Imagem de capa): Este pequeno aparelho doméstico que jogamos fora e que contém ouro de 22 quilates // Créditos: depositphotos.com / AntonMatyukha
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