Milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso regular a serviços básicos como água tratada, saneamento, energia e moradia adequada. Mais presente em áreas afastadas dos grandes centros, essa realidade expõe desigualdades históricas e desafios estruturais que afetam diretamente a qualidade de vida da população, a saúde pública e a capacidade de desenvolvimento das regiões.
A ausência de infraestrutura e de serviços essenciais interfere no cotidiano, limita oportunidades e aprofunda assimetrias regionais que seguem marcando o chamado Brasil profundo.
É nesse contexto que o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) lança a websérie documental “O Brasil que o Brasil não conhece”. A produção se apoia em dados oficiais e indicadores sociais para mostrar como a precariedade da infraestrutura se traduz em impactos concretos na vida de comunidades que permanecem fora do eixo dos grandes investimentos.
Série expõe realidades pouco visíveis
A websérie percorre municípios com alguns dos piores resultados no Índice de Progresso Social (IPS) e busca aproximar o público de realidades pouco presentes no debate nacional. Ao longo de cinco episódios, o projeto transforma números em histórias reais, conectando indicadores a experiências cotidianas da população.
Cada episódio acompanha um município diferente e expõe desafios estruturais enfrentados por quem vive longe dos grandes centros urbanos. As cidades retratadas incluem Ipixuna, no Amazonas, Japorã, no Mato Grosso do Sul, Cruz do Espírito Santo, na Paraíba, e Santa Rosa do Purus, no Acre.
Em Ipixuna, apenas 37 a cada 100 domicílios possuem banheiro, o menor índice do país. Já em Japorã, município localizado na fronteira com o Paraguai, cerca de 70% da população vive em situação de extrema pobreza, 11% é analfabeta e a renda per capita mensal é de R$ 242,32, valor 3,3 vezes inferior à média brasileira. Os números ajudam a dimensionar o impacto social da ausência de infraestrutura básica nessas localidades.
Desigualdade medida em dados
Situações como as observadas nessas cidades se repetem em diferentes regiões do país e ajudam a explicar os resultados do Índice de Progresso Social Brasil 2025, que avalia fatores como acesso à água tratada, saneamento, educação, moradia e segurança. O levantamento indica que municípios das regiões Norte e parte do Nordeste concentram os piores desempenhos, evidenciando um padrão persistente de desigualdade territorial.
Ao acompanhar o cotidiano dessas comunidades, a websérie vai além do retrato das carências. A narrativa contextualiza os desafios estruturais e mostra como a falta de infraestrutura limita o desenvolvimento local, impacta a renda, a saúde e as oportunidades, contribuindo para a manutenção de ciclos de desigualdade.
Dados para orientar decisões
Esse conjunto de realidades expostas pela série evidencia um desafio central: a ausência de critérios objetivos e comparáveis para orientar decisões em infraestrutura. Sem diagnósticos consistentes, investimentos públicos nem sempre chegam aonde são mais necessários ou produzem o retorno esperado.
É nesse ponto que se insere o Infra-BR — Índice Confea de Infraestrutura do Brasil, apresentado durante a Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea). Desenvolvida a partir da análise comparativa de dados técnicos e regionais, a ferramenta foi criada para mapear gargalos, comparar realidades locais e oferecer subsídios que auxiliem a definição de prioridades em políticas públicas, conectando diagnóstico e planejamento.
Poderemos disponibilizar aos gestores públicos dados precisos que sirvam de subsídio para políticas públicas e ações práticas de desenvolvimento. A infraestrutura é um desafio, mas o maior desafio é identificar onde aplicar os recursos — em qual estado, em qual segmento”, afirmou o presidente do Confea, engenheiro Vinicius Marchese, durante a apresentação do índice.
A estrutura básica é historicamente um dos principais motores do crescimento econômico, mas, sem critérios claros de priorização, investimentos tendem a perder eficiência. Com o nível atual de ativos e serviços, o país enfrenta limitações para sustentar taxas mais elevadas de desenvolvimento, o que reforça a necessidade de decisões baseadas em evidências.
Nesse contexto, o Infra-BR surge como um instrumento para apoiar a tomada de decisão. A partir do índice, gestores públicos passam a ter acesso a indicadores capazes de apontar onde alocar recursos e quais segmentos tendem a gerar maior retorno social e econômico. A proposta é contribuir para que os cerca de R$ 650 bilhões considerados necessários para investimentos em serviços essenciais sejam aplicados de forma estratégica, com impacto direto na qualidade de vida da população e no desenvolvimento do país.
Investimento abaixo do necessário
Estimativas apresentadas durante o lançamento do índice indicam que o volume ideal de investimento em infraestrutura no Brasil seria equivalente a 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Atualmente, esse percentual está distante da realidade nacional, o que ajuda a explicar gargalos persistentes em áreas essenciais.
A expectativa é que o uso de indicadores técnicos permita não apenas ampliar o volume de investimentos, mas também aumentar sua eficiência, direcionando recursos para regiões e setores com maior potencial de retorno social e econômico.
O papel da engenharia no desenvolvimento regional
Com abordagem documental e linguagem acessível, “O Brasil que o Brasil não conhece” amplia o debate sobre infraestrutura a partir de histórias reais. Ao revelar realidades pouco visíveis do Brasil profundo, a série reforça como a engenharia, a agronomia e as geociências podem gerar impacto social concreto e promover conexão entre regiões historicamente desconectadas.
Mais do que evidenciar desigualdades, o projeto destaca o potencial de transformação associado ao planejamento e à atuação técnica, mostrando como a engenharia pode contribuir para conectar regiões isoladas ao desenvolvimento e ampliar perspectivas de futuro.
Fonte/Créditos: CNN
Créditos (Imagem de capa): Divulgação
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se