Um diálogo extraído do celular do líder da facção venezuelana Tren de Aragua mostra que, até no mundo do crime, impera a boa e velha pechincha. Na troca de mensagens sobre a venda de armamento, um integrante do Comando Vermelho reclama do valor de R$ 3 mil de frete cobrado para transportar cada arma da região Norte até o Rio de Janeiro. Do outro lado da tela, Antônio Cabrera Soterano, o Tio Antônio, chefe do grupo venezuelano no Brasil, não dá margem para negociação: “C., meu irmão, você é o que está saindo com o frete mais barato. Porque está pagando só uma porcentagem para os caras que dirigem. Imagina quando antes pagava o frete completo, mano”.
A conversa, de novembro de 2024, foi interceptada durante uma investigação, e ilustra como a maior facção criminosa da Venezuela vem operando em solo brasileiro. Um ano e meio depois de classificado pelos Estados Unidos como uma organização terrorista transnacional, o Tren de Aragua não apenas fincou raízes em Roraima, mas também se espalhou pelo Brasil. A estimativa das forças de segurança é que o grupo tem entre 150 e 250 integrantes nos estados do Sul do Brasil, além do Amazonas e Roraima. Também conta com associados em São Paulo e no Rio de Janeiro.— A região Sul tem forte demanda de trabalho em plantas de frigorífico, e os venezuelanos acabam sendo atraídos para esses locais. Os integrantes do Tren de Aragua se aproveitam da onda migratória para se integrarem a essas comunidades e passar despercebidos. Há um interesse particular do grupo pela tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina, um local propício para muitas transações irregulares — explica o delegado Wesley Costa de Oliveira, da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco) da Polícia Civil de Roraima, responsável pela investigação.
Criada por um sindicato de trabalhadores ferroviários, o Tren de Aragua se expandiu por detentos do presídio de Tocorón, a 140 quilômetros de Caracas. Depois da desarticulação da prisão, o grupo passou a operar de uma base em Las Claritas, a quarta maior jazida de ouro do mundo, localizada no Arco Mineiro do Orinoco, no estado de Bolívar. A região é palco de disputas constantes por grupos criminosos, e sofre com degradação ambiental, devastação de florestas e tensões envolvendo os direitos das comunidades indígenas locais.
No Brasil, a estratégia do grupo para se expandir inclui o recrutamento de imigrantes venezuelanos e brasileiros, o domínio de rotas de tráfico de drogas, pontos de prostituição, garimpos de ouro e uma aliança recente com o Comando Vermelho. Com fornecedores de armas na Colômbia e Venezuela, o Tren de Aragua se tornou um dos principais provedores bélicos para a facção fluminense. Em apenas um dos aparelhos celulares apreendidos na investigação, foram identificadas negociações de fuzis 7.62, metralhadoras calibre .50 e lança-granadas destinados a postos de atuação do Comando Vermelho no Rio de Janeiro e no Amazonas.— A investigação mostrou que o grupo mantém um fluxo de armamento passando por aqui, e isso acaba empoderando as facções brasileiras — avalia Oliveira. — Nós já temos duas facções muito fortes em Roraima. Com a terceira se avolumando e adentrando em território nacional, acabamos por potencializar a dificuldade do combate.
Os métodos de lavagem de dinheiro da facção venezuelana surpreenderam os investigadores. Associado a operadores brasileiros, o grupo usa técnicas como o “smurfing”, ou o fracionamento de depósitos em espécie em caixas eletrônicos, para burlar alertas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). E já se vale de criptomoedas para lavar cifras milionárias — por meio de empresas de fachada, como a G.A. Transitions, a organização movimentou volumes financeiros incompatíveis com o perfil de seus operadores.
Só nesta investigação, o grupo movimentou mais R$ 6 bilhões. Desse total, R$ 428 milhões foram em transações Ilícitas.
Morte do líder
Em junho, uma operação conjunta entre os Estados Unidos e a Venezuela resultou na morte de Héctor Rusthenford Guerrero Flores, o Niño Guerrero, apontado como o principal chefe do Tren de Aragua. Guerrero estava escondido em Las Claritas, de onde comandava a extração ilegal de ouro e o tráfico de armas. Segundo o presidente americano, Donald Trump, o Comando Sul dos EUA organizou um ataque “rápido e letal”.
O pano de fundo da operação é a retomada da mina pelos EUA, que agora passará a ser explorada por empresas privadas com investimentos estrangeiros. Autoridades ouvidas pelo GLOBO temem que as incertezas diante da morte de Guerrero provoquem uma debandada de garimpeiros e integrantes do Tren de Aragua para Boa Vista, capital de Roraima.
No ano passado, o Conselho Nacional de Imigração, vinculado ao vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, foi alertado sobre o aliciamento de imigrantes venezuelanos pela facção. A intenção era tornar mais rigoroso o processo de entrada dos refugiados, uma vez que o grupo se aproveita da crise humanitária do país vizinho para conseguir mão de obra fácil para a criminalidade no Brasil.
O processo de entrada de imigrantes venezuelanos no Brasil está bastante automatizado. Sem quase nenhuma cooperação entre países, a confirmação dos antecedentes criminais dos refugiados que pedem abrigo é complexa. Não é difícil passar pela fronteira sem autorização. O GLOBO encontrou páginas no Facebook que vendem documentação falsificada para entrar 'legalmente' no país. Além da facilidade de burlar a imigração, venezuelanos adentram o país pelas chamadas “trochas”, caminhos clandestinos usados para a travessia informal de pessoas e mercadorias ilícitas na fronteira.— Vamos ter de repensar nossos protocolos para entender uma facção que tem outros valores e que está num contexto de atuação num país que exporta refugiados para o mundo todo — conclui Wesley.
Fonte/Créditos: O Globo
Créditos (Imagem de capa): Antonio Cabrera, líder do Tren de Aragua no Brasil, durante prisão em 2024. Atualmente, ele se encontra foragido — Foto: Reprodução
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se