O calçadão e a praia de Copacabana e do Leme viraram o novo palco de uma ruptura histórica entre os dois maiores grupos criminosos do Rio de Janeiro: o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP). A quebra de um antigo acordo velado de convivência pacífica trouxe para a orla cenas atípicas de correria, espancamentos com porretes, monitoramento de pedestres e circulação de armamentos, tudo motivado pelo controle do mercado de entorpecentes e pela extorsão do comércio local.
Um reflexo claro dessa escalada de tensão foi capturado pelas lentes de monitoramento de um estabelecimento comercial em Copacabana, no último dia 25 de junho. Passava das 20h30 quando um rapaz usando casaco e boné buscou refúgio no local enquanto era perseguido. Os registros mostram a vítima tentando argumentar e entregando o próprio aparelho telefônico para verificação dos perseguidores. Em seguida, um terceiro indivíduo surge e inicia uma sessão de agressões físicas contra o homem. No meio do tumulto, uma quarta pessoa cruza o espaço portando uma pistola. O pânico fez com que as mesas esvaziassem imediatamente.
Um comerciante que atua na região sob anonimato revelou que episódios assim viraram rotina e que trabalhadores de entregas por aplicativo operam sob constante ameaça de agressão física por suspeitas de ligação com quadrilhas rivais. Ele desabafou sobre a nova realidade do bairro.
“Aqui na orla, o tráfico sempre atuou de forma velada, mas, de uns meses para cá, as coisas mudaram muito. Eles estão proibindo entregadores de passar do Posto 2, no Leme, para o outro lado, perguntam de onde eles são, olham o celular. É igual ao que acontece nas comunidades dominadas pelo crime. Eu nunca imaginei ver isso acontecer aqui”, relata.
Há quatro anos trabalhando na orla, o mesmo comerciante demonstrou forte preocupação com a possibilidade de a criminalidade expandir o controle econômico sobre a praia através da cobrança de taxas de segurança e funcionamento para os donos de quiosques fixos. Ele manifestou esse temor afirmando que a gente sabe que eles já cobram de alguns ambulantes, ressaltando que a praia atrai turistas e movimenta a economia, o que os deixa com medo de onde essa disputa vai parar.
Atualmente, a divisão territorial da areia possui uma barreira invisível na altura do Posto 2, próximo à Avenida Princesa Isabel. O lado do Leme é dominado pelo TCP, que usa como base as favelas vizinhas do Chapéu Mangueira e da Babilônia. Já a faixa restante e mais extensa da praia sofre influência direta do CV, ramificado a partir dos morros dos Tabajaras e Pavão-Pavãozinho.
Essa divisão funciona como um espelho geográfico das favelas locais. Os vendedores buscam as drogas nas respectivas comunidades e descem para comercializá-las nas praias. No entanto, o delegado Paulo Saback, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), pontua que os interesses das facções vão além do tráfico tradicional por conta do alto poder aquisitivo dos frequentadores. Segundo a autoridade policial, o tráfico em si já desperta interesse porque ali eles conseguem vender a droga por um preço muito acima do praticado nas comunidades, explicando ainda que a receita das quadrilhas é inflada pela exploração do aluguel de motos elétricas, além do comércio ilegal de vapes, cigarros contrabandeados e réplicas de marcas famosas.
Para evitar a repressão policial pesada, os criminosos costumavam agir com discrição, utilizando disfarces de vendedores ambulantes de doces para oferecer entorpecentes aos banhistas. Em algumas negociações com estrangeiros, a grama de cocaína chega a atingir o valor de 20 euros (R$ 120). Um morador local detalhou a mudança de comportamento das gangues sob a condição de não ser identificado.
“Isso acontece há muito tempo, e todo mundo sabe. O que mudou é que eles estão aparecendo mais porque começaram a disputar essas áreas. Às vezes, você está na praia e vê vários caras correndo em grupo para iniciar uma confusão com integrantes da facção rival. Eles andam em bando, com pedaços de madeira e pedras nas mãos, e, de repente, começa uma briga”, relata.
A raiz dessa instabilidade na Zona Sul do Rio, segundo setores de inteligência da Polícia Civil, está ligada a uma guerra sangrenta travada no município vizinho de Niterói, onde o TCP tenta tomar pontos de venda do CV em bairros como Fonseca, Icaraí e no Centro daquela cidade. Como as bases do Leme fornecem apoio financeiro e de armamentos para essa ofensiva do outro lado da Baía de Guanabara, traficantes do CV baseados na Ladeira dos Tabajaras passaram a atacar os redutos rivais da Zona Sul como forma de retaliação, estendendo o campo de batalha para as areias da praia.
Esse cenário de medo faz com que muitos crimes não cheguem aos canais oficiais da Polícia Civil, já que vítimas e testemunhas evitam fazer registros na 12ª DP (Copacabana) temendo represálias violentas. Apesar da subnotificação, levantamentos do Instituto Fogo Cruzado revelam que, nos últimos meses, a região do Leme registrou quatro tiroteios com duas mortes, enquanto Copacabana contabilizou sete episódios de disparos de arma de fogo, deixando uma vítima fatal. Em resposta, a Polícia Militar garantiu em nota oficial que realiza o patrulhamento preventivo de forma ininterrupta nas vias públicas e na faixa de areia através de equipes a pé, motopatrulhas e viaturas.
Fonte/Créditos: Diario do Rio
Créditos (Imagem de capa): Foto: Márcia Foletto
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