Existe um número que deveria tirar o sono de qualquer contribuinte brasileiro. Ele tem treze dígitos e acaba de ser atualizado: R$ 7,617 trilhões. É o novo recorde da Dívida Pública Federal, divulgado nesta quarta-feira (28) pelo Tesouro Nacional.
Pela primeira vez na história, a DPF ultrapassou a barreira dos R$ 7,6 trilhões. Em março, estava em R$ 7,508 trilhões. Em abril, saltou 1,44%. Em junho do ano passado, tinha acabado de romper a marca dos R$ 7 trilhões. A velocidade com que o endividamento avança deveria alarmar. Não parece alarmar ninguém em Brasília.
E qual é o grande combustível dessa escalada? Os juros.
Só em abril, a apropriação de juros — o reconhecimento mensal da correção que incide sobre os títulos públicos — injetou R$ 70,3 bilhões no estoque da dívida. É dinheiro que não construiu escola, não pavimentou estrada, não reduziu fila de hospital. É o custo de financiar um Estado que gasta mais do que arrecada e precisa, mês após mês, pedir mais dinheiro emprestado ao mercado.
Com a Selic em 14,75% ao ano, cada ponto percentual pesa como chumbo sobre as contas públicas. E o governo sabe disso. Mas há um detalhe que raramente aparece no debate: juros altos não caem do céu. São consequência direta da desconfiança do mercado na capacidade — ou na disposição — do governo de controlar seus gastos.
A composição que revela o medo
Os números da composição da dívida contam uma história que o discurso oficial prefere ignorar.
A fatia dos títulos atrelados à Selic subiu de 46,38% para 47,3% do total. São papéis que o investidor aceita comprar porque oferecem proteção imediata contra a alta dos juros. Tradução: o mercado está apostando que os juros continuarão altos. Não confia em queda.
Enquanto isso, os títulos prefixados — que indicam previsibilidade e confiança — recuaram de 21,51% para 20,23%. O investidor não quer travar uma taxa hoje se acredita que amanhã o cenário fiscal pode piorar. E quando o investidor pede juros altos demais para aceitar um prefixado, o próprio governo recua, porque sabe que o custo seria insustentável.
É um círculo vicioso que se retroalimenta: o governo gasta demais, o mercado desconfia, os juros sobem, a dívida cresce, e o governo precisa gastar mais para pagar os juros da dívida que cresceu porque o mercado desconfiava que ele gastava demais.
Alguém precisa cortar esse ciclo. Até agora, ninguém se candidatou.
O colchão que não é travesseiro
O Tesouro comemorou — com a discrição habitual — que o chamado colchão da dívida pública subiu de R$ 869 bilhões para R$ 904 bilhões, o maior nível desde agosto. Essa reserva serve para cobrir vencimentos em momentos de turbulência.
O número parece robusto. Cobre 8,57 meses de vencimentos. Mas convém lembrar: nos próximos 12 meses, vencem R$ 1,365 trilhão em títulos federais. Ou seja, o governo precisará convencer investidores a refinanciar — ou rolar, no jargão do mercado — mais de um trilhão de reais em um ambiente de juros estratosféricos e confiança em queda.
Se o cenário externo azedar, se a política fiscal continuar frouxa, se o Congresso aprovar mais despesas sem contrapartida, esse colchão evapora como gelo no asfalto.
O estrangeiro que vai embora devagar
A participação de investidores estrangeiros na dívida interna ficou praticamente estável: 9,7% em abril, contra 9,6% em março. Parece estabilidade. Não é.
Em novembro do ano passado, os não residentes detinham 11,2% da dívida — o maior percentual desde março de 2018. De lá para cá, a saída tem sido gradual, mas consistente. O capital estrangeiro é sensível a risco fiscal. E o Brasil, com sua trajetória de dívida ascendente e um governo que resiste ao ajuste, não é exatamente o porto seguro que já foi.
O número que importa
O Plano Anual de Financiamento prevê que a dívida pública encerre 2025 entre R$ 8,1 trilhões e R$ 8,5 trilhões. Leia de novo: até R$ 8,5 trilhões.
Isso não é projeção de catastrofista. É a estimativa oficial do próprio governo. É o Tesouro Nacional dizendo, com todas as letras, que a dívida vai crescer quase R$ 1 trilhão em um único ano.
E é aí que a pergunta fundamental se impõe: quem paga essa conta?
A resposta é sempre a mesma. O contribuinte. O empreendedor que não consegue crédito barato. O trabalhador cujo salário é corroído pela inflação que os juros altos tentam conter. O jovem que vai herdar um Estado inchado, endividado e incapaz de entregar o básico.
R$ 7,6 trilhões não é um número. É uma sentença. E enquanto Brasília discutir qualquer coisa que não seja o tamanho do Estado e o controle real dos gastos, essa sentença só vai ficar mais pesada — parágrafo por parágrafo, trilhão por trilhão.
Fonte/Créditos: Contra Fatos
Créditos (Imagem de capa): Reprodução
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