O som grave que ecoa das áreas alagadas de Ratones, no norte de Florianópolis, não vem de nenhum boi perdido no mangue. É o mugido de uma rã. Uma rã gigante, exótica e invasora, que colocou a capital catarinense em alerta ambiental máximo e mobilizou uma força-tarefa de órgãos municipais, estaduais e federais para conter seu avanço.
A protagonista é a rã-touro (Aquarana catesbeiana), anfíbio de origem norte-americana que recebeu o apelido justamente pela vocalização grave e potente, semelhante ao mugido de um boi. É esse canto característico que agora serve de pista para o mapeamento da espécie, monitorada pela Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram) desde 2025 em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e órgãos como Ibama, Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA/SC) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O primeiro registro oficial da rã-touro em Florianópolis foi confirmado em outubro do ano passado, em uma propriedade em Ratones. Desde então, duas ações de campo coordenadas pelas equipes no bairro resultaram na captura de 11 espécimes, sendo 10 em novembro de 2025 e um em março deste ano. Cada animal recolhido passa por análises laboratoriais antes de qualquer conclusão.
Predadora voraz
O problema não é o tamanho nem o barulho. A rã-touro é uma predadora voraz que disputa alimento e espaço com animais nativos. Quando se instala em um ambiente natural, desequilibra a fauna local e ocupa áreas antes usadas por espécies brasileiras. Em Ratones, o risco é ainda maior: o bairro abriga um manguezal e áreas alagadas que funcionam como berçário natural para diversas espécies de peixe.
Há também a questão sanitária. Em outras regiões onde foi introduzida, a rã-touro já foi associada à transmissão de patógenos como o fungo da quitridiomicose e o ranavírus, doenças que afetam exclusivamente anfíbios e peixes. A Floram ressalta que esses agentes não representam risco à saúde humana nem a animais domésticos, mas reforça que a presença da espécie exige acompanhamento próximo para proteger a fauna nativa.
É esse conjunto de fatores que explica por que um foco localizado foi suficiente para acionar o nível mais alto de vigilância. A espécie está listada na Categoria 1 da Resolução Consema nº 272/2025, que reúne a lista oficial de fauna exótica invasora em Santa Catarina, classificação que orienta um manejo mais rígido no estado.
Como ajudar
Para conter o avanço do anfíbio, a Floram e a UFSC apostam no engajamento da comunidade. Campanhas de educação ambiental serão levadas a escolas e associações de moradores de Ratones e redondezas, ensinando a identificar a espécie pelo canto que lembra o mugido de um boi. A prefeitura pede que a população informe locais onde encontrar a rã-touro ou ouvir seu som característico.
A orientação dos órgãos ambientais é clara: ninguém deve tentar capturar ou manejar o animal por conta própria. Apenas equipes especializadas estão autorizadas a fazer o recolhimento. Em caso de avistamento ou identificação do som, os moradores podem comunicar a Floram pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (48) 3237-5660.
Fonte/Créditos: Jornal A Razão
Créditos (Imagem de capa): Reprodução
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