O jornalista Paulo Figueiredo, em seu programa Paulo Figueiredo Show, fez um alerta sobre a forma como o governo Donald Trump, em seu segundo mandato, tem reposicionado a relação com o Brasil. Em análise apresentada em vídeo, Figueiredo traçou um cenário de riscos inéditos para a economia e a soberania brasileira — que vão desde tarifas comerciais punitivas até a possibilidade de ações militares sob o pretexto do combate ao narcotráfico.
Embora muitos pontos sejam análises prospectivas desacreditadas pela imprensa, eles encontram respaldo em documentos oficiais do governo dos EUA, relatórios congressionais e decisões recentes de Washington. O resultado é um quadro geopolítico que coloca o Brasil, mais uma vez, no centro de uma disputa estratégica entre potências.
A ameaça da “lista das drogas”
Segundo Figueiredo, Trump considera incluir o Brasil na chamada majors list — a lista norte-americana de países de “maior trânsito ou produção de drogas”. A consequência seria direta: abertura para sanções, cortes em assistência financeira e, em casos extremos, suspensão de cooperação bilateral.
Os relatórios do Congresso dos EUA já identificam o Brasil como o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, além de importante rota de trânsito para a droga produzida na Colômbia, Bolívia e Peru. Ainda não há confirmação formal da entrada do Brasil nessa lista em 2025, mas a sinalização é clara: Washington enxerga o narcotráfico como problema de segurança nacional.
Historicamente, países incluídos na majors list enfrentaram decertificação por “falta de cooperação”, o que levou a embargos financeiros e isolamento diplomático.
Sanções, tarifas e a sombra da Seção 301
Outro ponto central da análise de Figueiredo é a escalada comercial. Ele afirmou que Trump estuda tarifas de até 300% sobre produtos brasileiros. Embora esse teto ainda não tenha se concretizado, em 30 de julho de 2025, o presidente americano assinou uma ordem executiva impondo tarifas de 50% sobre uma ampla gama de exportações brasileiras — medida justificada pela “perseguição política e violações à liberdade de expressão” no Brasil.
Essa decisão se ancora na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, um mecanismo que autoriza o governo americano a retaliar países acusados de práticas comerciais injustas ou de ferirem interesses de empresas norte-americanas. Em julho, o USTR (United States Trade Representative) abriu formalmente uma investigação contra o Brasil, citando censura digital, barreiras a companhias de tecnologia e violações ao livre mercado.
As tarifas já em vigor atingem setores sensíveis como agronegócio e siderurgia. Ainda assim, Washington preservou áreas consideradas estratégicas, como o comércio de aeronaves civis e ferro-gusa, evitando choque imediato em cadeias globais.
Embargo comercial e exclusões seletivas
Na visão de Figueiredo, se a escalada não for contida, o Brasil pode enfrentar até mesmo um embargo comercial total. Hoje, isso soa distante, mas não impossível. Além das tarifas, os EUA já impuseram restrições de vistos a autoridades brasileiras, incluindo o atual ministro da Justiça.
Em resposta, o governo Lula denunciou as medidas como “inaceitáveis” e estuda retaliações próprias, entre elas a taxação de serviços digitais de gigantes da tecnologia americana. O risco é um efeito dominó que fragiliza ainda mais a economia brasileira, já combalida por crescimento estagnado e inflação acima da meta.
O fantasma da intervenção militar
Um dos pontos mais polêmicos da análise é a possibilidade de Trump usar o narcotráfico como justificativa para ações militares na região amazônica. Figueiredo lembra que o presidente republicano já assinou ordens executivas permitindo o emprego das Forças Armadas contra cartéis internacionais.
Ainda não há movimentação direta contra o Brasil. No entanto, a Marinha dos EUA reforçou sua presença no Caribe e no Atlântico Sul em 2025, sob o pretexto de combater o tráfico. Além disso, o Departamento do Tesouro americano mantém sanções contra organizações criminosas brasileiras, como o PCC, cujas ramificações no exterior são cada vez mais documentadas.
BRICS, geopolítica e direitos humanos
Por trás das sanções, está também o cálculo geopolítico. Trump vê o BRICS como ameaça ao sistema internacional liderado pelos EUA e tenta enfraquecer o bloco pressionando economicamente o Brasil — o elo considerado mais vulnerável da aliança.
A retórica de Washington vai além do comércio: acusa o governo brasileiro de violações graves de direitos humanos e de liberdade de expressão, especialmente após o julgamento e a condenação de Jair Bolsonaro. Essa narrativa fornece a base moral para justificar medidas econômicas duras, como já ocorreu com países como Venezuela, Nicarágua e Cuba.
Impactos econômicos e risco existencial
Se plenamente implementadas, as medidas americanas podem representar um golpe existencial na economia brasileira, alerta Figueiredo. Só em exportações, as perdas potenciais são estimadas em bilhões de dólares anuais, especialmente se as tarifas se expandirem para setores como soja, carne e minérios.
No curto prazo, as exclusões seletivas atenuam os impactos imediatos, mas analistas já falam em desvalorização cambial, encarecimento de importações e retração de investimentos. O Brasil, que buscava se posicionar como potência emergente no comércio global, corre o risco de se ver isolado e ainda mais dependente de parceiros como China e Rússia.
Um divisor de águas para o Brasil
A análise de Paulo Figueiredo, para a imprensa tradicional, é carregada de alertas dramáticos ou vista como mera retórica de oposição. Todavia, cada um de seus pontos encontra eco em decisões concretas já tomadas por Washington em 2025. O que está em jogo não é apenas a política externa de Lula, mas o futuro da inserção internacional do Brasil em um cenário de crescente polarização global.
No tabuleiro das grandes potências, o Brasil corre o risco de pagar um preço alto por suas escolhas políticas internas. Trump deixou claro que não aceitará um parceiro que, a seus olhos, viola princípios democráticos e se alinha a adversários estratégicos dos EUA.
Figueiredo encerrou seu alerta com uma frase contundente: “O Brasil está diante de uma ameaça existencial. Se não mudar de rumo, as sanções e tarifas podem destruir nossa economia e comprometer nossa soberania.”
O contexto mais amplo
O cenário se agrava quando colocado no pano de fundo da política internacional de 2025. Os EUA intensificam a pressão sobre a China, ampliam sanções contra a Rússia e exigem maior alinhamento dos aliados latino-americanos. Ao mesmo tempo, o Brasil busca no BRICS alternativas de financiamento e comércio, tentando escapar da dependência do dólar.
No meio desse choque de placas tectônicas, o país de 220 milhões de habitantes se encontra em posição delicada: ou se adapta às exigências americanas, trazendo ordem e respeito ao devido processo legal, ou dobra a aposta em uma integração ainda mais profunda com regimes que também enfrentam sanções do Ocidente.
Seja qual for a escolha, a verdade é que — como destacou Paulo Figueiredo — o Brasil não poderá mais se esconder atrás da "neutralidade". O tempo da omissão acabou, e o custo da próxima decisão será pago não apenas por governantes, mas por toda a população.