Encontrar um emprego continua sendo um desafio para muitos brasileiros. Ao mesmo tempo, milhares de empresas afirmam enfrentar dificuldades para contratar profissionais. Esse cenário, considerado um paradoxo do mercado de trabalho, foi destacado em uma pesquisa global da consultoria de recursos humanos ManpowerGroup, divulgada pelo jornal O Globo.
Segundo o levantamento, 80% das empresas instaladas no Brasil relatam dificuldades para preencher vagas de emprego, o equivalente a oito em cada dez empregadores.
O estudo aponta que esse problema vem se repetindo e se intensificando nos últimos cinco anos, impulsionado principalmente pela redução da taxa de desemprego e pelo aumento das contratações, que diminuíram a disponibilidade de profissionais qualificados no mercado.
Falta de qualificação é o principal obstáculo
De acordo com a pesquisa, o principal desafio das empresas não é a ausência de candidatos interessados, mas sim a dificuldade em encontrar pessoas com as competências técnicas e comportamentais exigidas para as vagas.
Entre os fatores apontados pelos empregadores estão:
- falta de experiência para funções mais especializadas;
- deficiência em habilidades técnicas;
- carência de competências comportamentais exigidas pelas empresas;
- dificuldade para encontrar profissionais em áreas de alta complexidade.
Segundo especialistas, o cenário é mais evidente em cargos que exigem ensino superior ou elevada qualificação técnica.
Empresas mantêm intenção de contratar
Apesar da escassez de mão de obra, o Brasil segue entre os países com maior intenção de contratação nos próximos meses.
Mais da metade das empresas entrevistadas informou que pretende ampliar seus quadros de funcionários, refletindo um ambiente de expansão em diversos setores da economia.
No entanto, a dificuldade para preencher vagas já provoca impactos nas operações das companhias, como atraso em projetos, sobrecarga das equipes existentes e adiamento de investimentos.
Debate sobre redução da jornada preocupa empresas
Outro ponto citado pela pesquisa é a preocupação de parte do setor empresarial com as discussões sobre a proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê a redução da jornada semanal de trabalho e o fim da escala 6x1.
Segundo empresas ouvidas, caso a medida seja aprovada, poderá haver necessidade de contratar mais funcionários para manter as operações, o que ampliaria ainda mais a disputa por profissionais qualificados.
Setor de tecnologia sente falta de profissionais
Um dos exemplos citados é o da Solo Network, empresa paranaense especializada em cibersegurança e inteligência artificial.
Atualmente, a companhia possui 21 vagas abertas, em regime híbrido ou remoto, para cargos como arquiteto de soluções, engenheiro de dados, gerente de contas e analista financeiro. Os salários variam entre R$ 10 mil e R$ 20 mil.
Segundo a diretora administrativa da empresa, Zenilda Zanardini, algumas vagas levam meses para serem preenchidas.
"Os qualificados já estão empregados. Estamos em amplo crescimento, então isso afeta nossa operação. Se tivéssemos mais vendedores, por exemplo, teríamos ainda mais entrada no mercado. Os produtos são complexos, e a venda é consultiva, não é rápida", afirmou ao O Globo.
Profissionais qualificados têm menor desemprego
Dados da consultoria Robert Half reforçam esse cenário. No primeiro trimestre deste ano, a taxa de desemprego entre profissionais com ensino superior foi de 3,3%, praticamente metade da taxa geral registrada no período, de 6,1%.
Para especialistas, o desafio das empresas tende a continuar nos próximos anos, especialmente em áreas ligadas à tecnologia, engenharia, infraestrutura e serviços especializados, onde a demanda por profissionais qualificados segue superior à oferta disponível.
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