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Sábado, 25 de Abril 2026
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'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota'

Bob Kull era estudante de doutorado quando decidiu viver um ano sozinho na Patagônia chilena para analisar como suas emoções reagem ao isolamento no clima extremo.

'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota'
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O frio e a umidade eram extremos.

Perto da cabana de madeira compensada e lonas de plástico, só havia quilômetros e quilômetros de árvores, rochas, alguns animais e o mar. Nem uma única pessoa, muito menos um hospital ou clínica dentária.

Mas Bob Kull precisava extrair um dente, devido a um doloroso abscesso.

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Ele pensou em ligar para o exército com o telefone via satélite que havia levado consigo. Mas a ajuda não chegaria com rapidez e teria significado o fim da sua missão: viver um ano sozinho na Patagônia chilena.

Ele decidiu enviar um e-mail para seu contato de emergência, sua amiga Patty, que casualmente é enfermeira. A resposta foi taxativa:

"Ela me disse para amarrar uma corda no meu dente e, no outro lado, a uma porta, fechá-la com força e seguir com a vida", relembra Kull. "E acrescentou que 'as pessoas arrancaram seus próprios dentes sozinhas por séculos. Resolva.'"

Patty estava preocupada, mas sua mensagem tentava motivar Kull a prosseguir com sua viagem.

A cabana não tinha uma porta pesada que ele pudesse usar. Por isso, ele tentou fazer o mesmo, mas amarrando o fio a uma rocha. Mas o medo da dor não permitiu que ele a atirasse.

"O que fiz foi amarrar a ponta da corda à perna da mesa, pregada no chão, e simplesmente arranquei o dente com os músculos do pescoço", contou ele. "Me doeu muito mais pensar do que fazer."

O ano era 2001. E o norte-americano cursava doutorado na Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá.

Como parte da sua tese, Kull viajou até um remoto arquipélago no Chile para pesquisar como seria viver em isolamento em meio ao clima extremo.

Sua estadia solitária foi repleta de metáforas, como a do dente doente. É claro que ele não incentiva as pessoas a realizar procedimentos médicos por conta própria. Mas, para ele, a situação mostrou como, muitas vezes, ignoramos nosso potencial.

"Quando essas coisas acontecem, uma parte de você sempre pensa: 'Preciso estar perto de um dentista ou de outras pessoas'", destaca ele.

Kull afirma que muitas pessoas receiam a solidão "porque um dos desafios da solidão é que ela nos obriga a enfrentar o que ignoramos".

Mas, para ele, este foi um processo de aprendizado, que ele contou ao programa de rádio Outlook, do Serviço Mundial da BBC.

Um menino que procura seu espaço

Kull tem atualmente 79 anos de idade. Ele cresceu na pobreza, em uma zona rural do sul da Califórnia, nos Estados Unidos.

Sua cama ficava em um corredor da casa, de forma que ele não tinha privacidade.

Ele não descreve maus tratos, mas afirma que seus pais o julgavam constantemente. Somente o amor pela natureza unia sua família.

Kull levou um caiaque, um bote inflável e muitas ferramentas de construção, incluindo madeira, martelos e uma motosserra — Foto: Bob Kull/via BBC

"No verão, fazíamos piquenique todos os domingos à tarde. Era o que nos mantinha unidos", ele conta. E dali também nasceu seu interesse e a busca constante da solidão.

"De certa forma, minha infância foi idílica, mas eu absolutamente não entendia isso. Sentia apenas que havia algo errado em mim."

"Por isso, cruzar a estrada, pular a cerca de arame farpado e desaparecer em um bosque, nos pastos e em um riacho, simplesmente para ficar sozinho, era uma grande bênção para mim", relembra Kull.

"Era o único lugar onde podia relaxar e ser quem realmente sou. Acredito que foi ali que começou este amor por ficar sozinho no mundo não humano."

Depois de adulto, Kull saiu de casa assim que pôde. Ele viajou pelos Estados Unidos e se mudou para o Canadá, para evitar ser recrutado para a Guerra do Vietnã (1959-1975, com participação dos Estados Unidos a partir de 1965).

Ali, ele teve inúmeros trabalhos — no corpo de bombeiros, em uma serraria, em manutenção e na construção civil. Kull chegou a fazer um curso de fotografia de dois anos.

E também viveu uma crise existencial.

"Eu me havia transformado em um homem machista, que se embriagava nos bares e estragava tudo o que tocava", segundo ele.

Fonte/Créditos: G1

Créditos (Imagem de capa): Reprodução

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