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Macacos-prego intrigam a ciência e desafiam moradores do Rio na convivência, ainda mais em áreas de floresta da cidade

Animais sofrem com a violência urbana na forma de ataques por retaliação a furto de comida, atropelamentos e acidentes na rede elétrica

Macacos-prego intrigam a ciência e desafiam moradores do Rio na convivência, ainda mais em áreas de floresta da cidade
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O menu ao alcance da vista tinha frutos e flores silvestres e um saco com restos de biscoito jogado fora. Com a mão que lhe sobrou após uma briga, Maneta, como alguns dos frequentadores do Parque Nacional da Tijuca (PNT) o “batizaram”, escolhe o biscoito. E volta com o saco para seu posto de líder de um grupo de macacos-prego, no alto dos galhos das árvores da Mesa do Imperador, onde reina absoluto. Maneta e seu bando integram uma turma única do Rio de Janeiro, que se equilibra entre o urbano e o natural. Os macacos-prego da Floresta da Tijuca são cariocas-raiz. Não apenas nasceram no Rio, mas foram “inventados” aqui.

Pecado original

A macacada carioca é fruto do pecado original de boas e más intenções humanas. Maneta também perdeu uma das patas traseiras, possivelmente num choque na rede elétrica. Mas não largou a pose nem a liderança, numa demonstração de que os malandros da floresta são mestres da arte da sobrevivência. Os macacos-prego da Floresta da Tijuca intrigam a ciência e desafiam moradores do Rio e turistas a aprender a viver em harmonia com animais que materializam a história e o espírito da cidade.

Involuntariamente, o ser humano produziu ao longo de muitas décadas um primata não humano à sua imagem e imperfeição. Pois bem: os pregos, gênios do mundo dos macacos, sofrem com a violência urbana na forma de ataques por retaliação a furto de comida, atropelamentos e acidentes na rede elétrica. Comem junk food ultraprocessada que ganham ou furtam. Raspas e restos sempre os interessam — e os adoecem.

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Um dos primatologistas mais respeitados do Brasil, Alcides Pissinatti, chefe do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, do Inea, explica que a população atual da floresta é resultado da combinação de muitos anos de libertação de pregos de diferentes espécies, de outras partes do Brasil, com sobreviventes da população nativa da Mata Atlântica do Sudeste. Até os anos 70 do século XX, as solturas eram frequentes.

Macacos-prego são "carioca-raiz": não apenas nasceram no Rio, mas foram “inventados” aqui — Foto: Custodio Coimbra / Agência O Globo

A esses macacos se somaram ao longo do tempo outros que escaparam do tráfico de animais ou de gente que até hoje insiste na prática criminosa de manter esses bichos como pet. Se não fosse o ser humano capturar e traficar, essas populações jamais teriam se encontrado.

— Sabemos muito pouco sobre eles. E até agora ninguém fez um estudo sobre a genética desses animais. Para saber que bicho é esse, seria preciso investigar o DNA de pelo menos uns 20 a 30 indivíduos. É possível, mas caro. A olho nu fica difícil saber, até porque as espécies de macaco-prego são parecidas — afirma Pissinatti.

Leandro Jerusalinsky, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB/ICMBio), concorda. Ele diz que essa população é fruto de muitas liberações desordenadas, no passado, ainda que bem-intencionadas. Além de tráfico e uso como pet. Por muito tempo se pensava que os macacos-prego eram todos de uma só espécie. Com o avanço da ciência, descobriu-se que não, e isso é importante para a conservação e o manejo, pois essas espécies têm adaptações, por exemplo, a diferentes tipos de clima, vegetação e até patógenos.

Mas ele ressalta que nada disso invalida a necessidade da convivência harmônica com esses animais, que merecem uma vida digna e são vítimas da ação humana. Os cientistas destacam que eles são parte da mata e a ajudam a se manter viva. Estão entre os poucos mamíferos que habitam a Floresta da Tijuca, ainda hoje depauperada de sua fauna.

— Temos a obrigação de lhes oferecer uma vida digna. E isso significa não agredir, não aprisionar, não oferecer alimento. A questão do alimento é muito grave — frisa Jerusalinsky.

O macaco-prego come de tudo. Folhas, frutos, flores, insetos, aves, ovos, anfíbios, cobras, pequenos mamíferos. E também adora qualquer tipo de comida humana, que é hipercalórica e pode adoecê-lo. A busca por doces e gordura faz com que se aproxime de residências. O resultado é conflito.

Fonte/Créditos: Extra

Créditos (Imagem de capa): foto-marcello-cavalcanti

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