Jornalista desmonta narrativa da PF e expõe bastidores do caso Ramagem nos EUA
Investigação do jornalista David Ágape revela contradições na versão oficial, detalha atuação de delegado brasileiro em solo americano e levanta questionamentos sobre os limites da cooperação internacional
A versão apresentada pela Polícia Federal sobre a detenção de Alexandre Ramagem nos Estados Unidos passou a ser questionada após uma investigação extensa conduzida pelo jornalista investigativo David Ágape, do projeto Twitter Files Brasil.
Ramagem, ex-diretor da Abin e ex-deputado federal, foi detido no dia 13 de abril de 2026 em Orlando, na Flórida, pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA). À época, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, classificou a ação como resultado de “cooperação internacional” para capturar um foragido condenado pelo STF.
No entanto, como aponta David Ágape, os próprios documentos do caso não sustentam essa narrativa.
O “Notice to Appear”, base da detenção, não menciona cooperação com o Brasil, não cita crimes brasileiros e nem faz referência a pedido de extradição. Dois dias depois, Ramagem foi solto sem fiança — procedimento padrão em casos migratórios com pedido de asilo em análise.
Segundo a apuração de David Ágape, investigadores brasileiros admitiram, nos bastidores, que a via migratória foi utilizada como alternativa ao processo formal de extradição, considerado mais incerto e politicamente sensível.
A prisão e o “atalho” migratório
De acordo com a investigação de David Ágape, a detenção teve início após uma infração de trânsito considerada leve. Durante a abordagem, autoridades americanas identificaram que Ramagem estava com visto vencido — situação conhecida como “overstay”.
Ele havia entrado nos EUA em setembro de 2025 com visto de turista, válido até março de 2026, e já havia protocolado pedido de asilo.
A utilização desse tipo de infração como ponto de partida reforça, segundo David Ágape, a tese de que não houve uma operação tradicional de cooperação criminal, mas sim o uso de mecanismos migratórios como atalho.
O delegado brasileiro no centro da operação
Um dos principais pontos revelados por David Ágape envolve o delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, que atua como oficial de ligação em Miami.
O próprio diretor-geral da PF admitiu que um agente brasileiro “deu alertas” que ajudaram na detenção. Segundo a apuração de David Ágape, há apenas um delegado da PF atuando dentro do ICE — justamente Marcelo Ivo.
A investigação levanta dúvidas sobre os limites dessa atuação.
Nos Estados Unidos, agentes estrangeiros não possuem poder de polícia sem acordos formais, credenciamento e supervisão das autoridades locais. Além disso, atividades de monitoramento podem exigir registro formal junto ao Departamento de Justiça, conforme a legislação americana.
David Ágape também cita relatos de que esse mesmo delegado já teria participado de ações de vigilância em território americano sem mandado judicial local — o que, se confirmado, poderia ter implicações legais.
Casos anteriores e padrão de atuação
A investigação de David Ágape mostra que esse não seria um episódio isolado.
Um dos casos citados envolve uma cidadã americana monitorada após ordem do ministro Alexandre de Moraes, mesmo sem ser ré em processo. O caso gerou repercussão e, segundo relatos, chegou a autoridades americanas.
Para David Ágape, esses episódios indicam um possível padrão de atuação que ultrapassa limites tradicionais da cooperação internacional.
Bastidores em Miami
Em publicação recente, David Ágape trouxe novos detalhes sobre a vida de Marcelo Ivo nos Estados Unidos.
Segundo o jornalista, com base em fontes e reportagens, o delegado manteria um padrão de vida elevado em Miami, vivendo em região nobre da cidade, com aluguel estimado em cerca de R$ 50 mil mensais.
A apuração de David Ágape também descreve sua presença frequente em ambientes de alto padrão e eventos sociais exclusivos.
Fontes ouvidas pelo jornalista relataram ainda a realização de encontros privados com membros da alta sociedade e autoridades, em ambientes descritos como mais reservados.
O contraste que chama atenção
Um dos pontos destacados por David Ágape é o contraste entre o rigor aplicado ao caso de Ramagem e o histórico do próprio delegado.
A investigação resgata um episódio de 2016, quando Marcelo Ivo se envolveu em um acidente fatal no Brasil, dirigindo sob efeito de álcool, segundo registros da época. O caso terminou sem condenação criminal.
Para David Ágape, a comparação evidencia diferenças de tratamento que chamam atenção dentro da própria estrutura institucional.
A soltura e o impacto
A libertação de Ramagem, apenas dois dias após a detenção, surpreendeu autoridades brasileiras.
Segundo mostra David Ágape, a Polícia Federal ainda preparava um dossiê para tentar impedir a soltura quando a decisão foi tomada pelas autoridades americanas.
O episódio acabou transformando o que foi inicialmente apresentado como uma vitória em um desgaste público.
Mais dúvidas do que respostas
Para David Ágape, o caso revela um cenário complexo, que envolve política, atuação internacional e estratégias fora dos caminhos tradicionais.
A investigação aponta que a narrativa oficial não se sustenta diante dos fatos documentados e dos próprios desdobramentos do caso.
Enquanto isso, Alexandre Ramagem segue nos Estados Unidos aguardando a decisão sobre seu pedido de asilo.
Já as revelações feitas por David Ágape continuam gerando repercussão e levantando questionamentos sobre os bastidores da operação — e sobre os limites da atuação de autoridades brasileiras fora do país.
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