Uma proposta do governo federal provocou reações intensas ao sugerir que donos de celulares roubados ou furtados recebam mensagens orientando a devolução voluntária dos aparelhos, inclusive utilizando os Correios como canal de entrega. O presidente Lula garantiu que a medida “deixará 200 milhões de brasileiros seguros”.
Números expõem contradição na estratégia do governo
O que chama atenção é a dimensão do problema que o próprio governo já tem mapeada: 2,5 milhões de celulares roubados estão cadastrados em bases oficiais. O dado levanta um questionamento central: se o código IMEI permite identificar cada aparelho individualmente, por que o esforço não está concentrado em bloquear imediatamente o funcionamento desses dispositivos, ampliar a fiscalização e desarticular as quadrilhas especializadas em furto, desbloqueio e revenda?
O app Celular Seguro, lançado em 2023 justamente para combater esse tipo de crime, continua subutilizado, o que evidencia falhas estruturais na comunicação e na execução das políticas públicas de segurança digital.
Declaração de Lula gera polêmica ao dividir debate por classe social
O aspecto mais controverso da iniciativa, entretanto, foi o discurso que a acompanhou. Lula afirmou: “Rico não compra telefone roubado, mas pobre compra”. A frase foi amplamente criticada por transformar uma questão de segurança pública em divisão de classes.
Especialistas apontam que a legislação brasileira já faz distinção clara entre receptação dolosa — quando o comprador sabe que o produto tem origem ilícita — e receptação culposa — quando não há esse conhecimento. Ao generalizar, o presidente acabou criminalizando a população de baixa renda por presunção, enquanto deixou de lado a responsabilização de receptadores conscientes que alimentam o mercado clandestino.
Críticos classificam a medida como ação performática
Na avaliação de analistas, a proposta não enfrenta de fato as redes criminosas que sustentam o roubo e a revenda de celulares no país. Tampouco ataca a receptação organizada ou a notória ineficiência do aparato estatal no combate a esses crimes. O resultado, segundo os críticos, é mais uma ação de caráter performático, que serve para projetar a imagem de protetor dos vulneráveis, enquanto o cidadão comum permanece refém da violência urbana e da impunidade.
Vale lembrar que os Correios enfrentam seus próprios problemas financeiros graves: a estatal registrou prejuízo de R$ 3,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, um rombo 83% maior do que o verificado no mesmo período do ano anterior. Nesse cenário, a ideia de transformar a empresa em canal logístico para devoluções de aparelhos roubados adiciona mais uma camada de ceticismo sobre a viabilidade e a seriedade da iniciativa.
Fonte/Créditos: Contra Fatos
Créditos (Imagem de capa): Reprodução
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