O ex-chefe da inteligência militar da Venezuela, Hugo "El Pollo" Carvajal, firmou um acordo com a Justiça dos Estados Unidos e se declarou culpado de acusações de narcotráfico, em um movimento que pode abalar as estruturas do regime de Nicolás Maduro. A confissão, feita poucos dias antes do início de seu julgamento em Nova York, abre caminho para que Carvajal coopere com autoridades americanas em troca de uma possível redução de pena — que pode chegar à prisão perpétua.
Apontado como uma das figuras mais poderosas da Venezuela durante os governos de Hugo Chávez e Maduro, Carvajal era peça-chave do chamado "Cartel de Los Soles", uma rede de tráfico de drogas operada por militares de alta patente. Segundo a Promotoria dos EUA, o ex-general usou sua posição para facilitar o envio de toneladas de cocaína aos Estados Unidos, com o apoio de grupos como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
“O ex-general Carvajal ajudou a envenenar as ruas de Nova York com drogas. Sua confissão mostra que nenhum cargo, por mais alto que seja, está acima da lei”, afirmou o procurador-geral americano, Jay Clayton, em comunicado oficial.
Além da confissão, Carvajal se comprometeu a fornecer provas e testemunhos envolvendo diretamente o presidente Nicolás Maduro e outros membros do alto escalão do governo venezuelano. De acordo com fontes próximas ao caso, o ex-militar afirma possuir documentos que detalham o envolvimento de Maduro em crimes que vão desde tráfico de drogas e manipulação eleitoral até espionagem internacional.
Entre as alegações mais explosivas, Carvajal diz que Maduro supervisionou pessoalmente a criação do Tren de Aragua, uma temida gangue de origem carcerária que se transformou em uma organização criminosa transnacional, com atuação em países como Colômbia, Peru, Chile e até Estados Unidos. Segundo ele, o grupo opera como braço paramilitar do regime, silenciando opositores e gerando receita por meio de sequestros, extorsão e tráfico de pessoas.
O ex-general também sustenta que o governo Maduro fraudou as eleições presidenciais de 2018 por meio da manipulação do sistema eletrônico de votação. Ele afirma ter provas de que o software das urnas podia ser alterado remotamente, tornando o pleito uma farsa orquestrada pelo Palácio de Miraflores.
Outro ponto sensível citado por Carvajal são os laços entre a Venezuela e o Irã. Ele afirma que há cooperação ativa entre os dois regimes em áreas de segurança, inteligência e finanças — com o objetivo de burlar sanções internacionais. Também alega que agentes de inteligência venezuelanos atuam clandestinamente nos Estados Unidos para vigiar dissidentes e coletar informações sobre a política americana para a América Latina.
Apelidado de "El Pollo", Carvajal ocupou o cargo de chefe da Direção de Contrainteligência Militar da Venezuela, posição que lhe deu acesso aos segredos mais bem guardados do regime. Após romper com Maduro em 2019 e apoiar o líder opositor Juan Guaidó, ele passou anos foragido na Europa, até ser extraditado da Espanha para os EUA em 2022.
Agora, o destino de Carvajal pode depender do valor das informações que ele fornecer. Se sua colaboração for considerada “substancial”, a Justiça americana pode conceder-lhe uma pena mais branda. No entanto, promotores dizem que qualquer alegação será rigorosamente verificada antes de gerar ações legais ou diplomáticas.
O caso pode marcar um ponto de inflexão nas tentativas dos EUA de desmontar o que Washington chama de “Estado criminoso” na Venezuela. Caso Carvajal cumpra o prometido, suas revelações podem não apenas aprofundar o isolamento internacional de Maduro, mas também fornecer as provas que há anos escapam das mãos de investigadores e diplomatas ocidentais.
Fonte: Miami Herald
Créditos (Imagem de capa): Hugo Arrmando Carvajal, El Pollo, com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro | Foto: Reprodução