A presença da frota pesqueira chinesa próxima à Zona Econômica Exclusiva (ZEE) da Argentina cresceu até 50% na última década e passou a preocupar autoridades do país não apenas pela sobrepesca de lulas, mas também por suspeitas de atividades de espionagem e coleta de informações estratégicas no Atlântico Sul.
Segundo reportagem da Reuters, o governo argentino intensificou a vigilância marítima com apoio dos Estados Unidos para evitar incursões ilegais e monitorar os navios chineses que operam próximos ao Mar Argentino, em meio à crescente disputa geopolítica entre Washington e Pequim.
“Cidade de luzes” no Atlântico Sul
A dimensão da operação chamou atenção em janeiro deste ano, quando imagens da NASA registraram uma verdadeira “cidade de luzes” no oceano. Cerca de 200 embarcações chinesas foram identificadas operando simultaneamente na região, atraídas pelo lucrativo mercado da lula Illex argentinus, uma das espécies mais valorizadas do mundo.
Dados da Prefectura Naval Argentina mostram que a presença de embarcações chinesas saltou de aproximadamente 150 navios em 2016 para um pico de 340 em 2021. Em 2026, o número gira em torno de 230 barcos — ainda muito acima de frotas de outros países, como Coreia do Sul, Espanha e Vanuatu.
Suspeitas de espionagem
Autoridades argentinas e especialistas ouvidos pela Reuters afirmam que parte das embarcações pode estar sendo usada para fins além da pesca.
Marcelo Rozas Garay, ex-vice-ministro da Defesa da Argentina, revelou que alguns barcos chineses carregariam antenas incompatíveis com atividades pesqueiras tradicionais.
“Acredita-se que, na verdade, buscavam obter informações ou interceptar comunicações”, afirmou.
O governo argentino também suspeita que alguns navios tenham realizado mapeamentos da plataforma continental argentina, área estratégica cuja exploração pertence exclusivamente ao Estado argentino.
Apesar das suspeitas, análises feitas pela Reuters em parceria com a empresa Starboard Maritime Intelligence não encontraram provas conclusivas de operações sistemáticas de cartografia marítima entre 2025 e 2026. Ainda assim, especialistas admitem que atividades menores podem ter ocorrido sem detecção.
Pesca intensiva e tecnologia avançada
A frota chinesa utiliza métodos altamente tecnológicos para capturar lulas durante a noite. Os barcos usam potentes refletores de até 4 mil watts para atrair os animais à superfície, além de redes automatizadas e iscas luminosas.
Toda a operação ocorre oficialmente fora da ZEE argentina, mas muito próxima da área controlada pelo país.
Segundo autoridades locais, o reforço na fiscalização reduziu significativamente os casos de pesca ilegal dentro das águas argentinas. Entre 2021 e 2025, foram registrados apenas quatro incidentes suspeitos.
“Agora temos certeza de que os chineses sabem que temos capacidade para monitorá-los”, declarou Juan Battaleme, ex-secretário argentino de Defesa para Assuntos Internacionais.
Disputa entre China e EUA na América do Sul
O caso também reflete a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China na América Latina.
Washington vê com preocupação o avanço chinês na região, que inclui investimentos em portos no Brasil e Peru, projetos de petróleo na Venezuela e até uma estação espacial chinesa em território argentino.
O Pentágono demonstrou preocupação com o chamado “uso duplo” da frota pesqueira chinesa — ou seja, embarcações civis que poderiam ser usadas também para inteligência estratégica.
Já o governo chinês negou qualquer atividade de espionagem e classificou as acusações como “especulação sem fundamento”, afirmando que a cooperação pesqueira do país segue o direito internacional.
Apesar do tom de alerta, o governo do presidente Javier Milei evita confrontar diretamente Pequim. A China é atualmente o segundo maior parceiro comercial da Argentina e principal compradora de soja e carne bovina do país, além de investidora em áreas como lítio, energia e infraestrutura.
Impacto ambiental preocupa especialistas
Pesquisadores alertam que a pesca intensiva da lula Illex argentinus pode gerar danos graves ao ecossistema marinho do Atlântico Sul.
A especialista Marcela Ivanovic, do Instituto Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Pesqueiro da Argentina, afirmou que a espécie é particularmente vulnerável por ter ciclo de vida curto e movimentos migratórios previsíveis.
“Está sendo realizada uma pesca selvagem nessa região”, resumiu.
Organizações ambientais internacionais também demonstram preocupação com a falta de coordenação global para controlar a exploração pesqueira em águas internacionais, cenário que pode acelerar o colapso de ecossistemas marinhos estratégicos.
Créditos (Imagem de capa): (Pixabay)
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