No fim de 2022, Izabella Barroso, então com 32 anos, notou um sangramento esporádico nas fezes. O intestino sempre funcionou bem, ela dizia com orgulho. Ativa, saudável, sem vícios nem comorbidades, nunca imaginou que o incômodo discreto poderia ser sinal de câncer.
Foi inicialmente diagnosticada com hemorroidas, mas, mesmo medicada, o problema não cessou. Procurou, então, uma segunda opinião, e foi submetida a uma retossigmoidoscopia, exame que analisa o cólon e o intestino grosso. Do médico, ouviu o diagnóstico de forma direta: “Você tem uma neoplasia maligna”.
O choque foi inevitável. Ela passou por duas cirurgias — uma para retirada do tumor e outra, meses depois, para reverter a ostomia e religar o intestino. Não precisou de quimioterapia nem radioterapia. “Foi devastador, mas o diagnóstico precoce me salvou. Hoje, estou em remissão”, conta Izabella. Sua história representa um movimento silencioso e cada vez mais evidente: o câncer não escolhe idade, e a medicina está deixando de tratá-lo como uma sentença de morte.
Para especialistas ouvidos , a doença caminha para um novo status: o de condição crônica e controlável, semelhante ao que se vive hoje com o HIV ou a diabetes.
“O câncer será algo com que as pessoas vão conviver por anos. Não vamos erradicá-lo, mas vamos aprender a controlá-lo”, diz o oncologista Stephen Stefani, da Oncoclínicas e da Americas Health Foundation.
Por que se fala tanto em cronificação?
A cronificação significa transformar uma doença aguda e potencialmente fatal em uma condição que pode ser acompanhada por longo prazo, com qualidade de vida. “Alguns tipos de câncer já são tratados assim. O paciente não está curado, mas também não está em sofrimento ou à beira da morte. Ele vive com a doença sob controle, às vezes por décadas”, explica Stefani.
Essa virada vem sendo impulsionada por três pilares:
- Diagnóstico precoce. Quanto mais cedo o tumor é detectado, maiores as chances de intervenção eficaz.
- Terapias personalizadas. Medicamentos que atacam mutações específicas, com menos efeitos colaterais.
- Mudanças no estilo de vida. Exercícios físicos, alimentação saudável e acompanhamento contínuo reduzem riscos de recidiva.
Na prática, isso significa que o câncer começa a se comportar como outras doenças crônicas. "Há pacientes com metástases vivendo há mais de 10 anos com boa qualidade de vida. Isso era impensável até pouco tempo", afirma Carlos Donnarumma, gerente nacional de oncologia da Rede Total Care.
Personalização dos tratamentos
A medicina oncológica vive uma transição importante: está deixando de tratar todos os tumores da mesma forma e passando a individualizar os tratamentos, com base nas características moleculares de cada tumor.
“Não se fala mais em tratar só o câncer de pulmão, mama ou intestino. Hoje, a gente olha para a mutação que aquele tumor tem e decide o tratamento com base nisso”, explica Stefani.
Três medicamentos com essa lógica já estão disponíveis no Brasil:
- Larotrectinibe, indicado para tumores com fusão NTRK (rara, mas altamente responsiva).
- Pembrolizumabe, para casos com alta carga mutacional (TMB).
- Enhertu (trastuzumabe deruxtecana), voltado a tumores com expressão do HER2.
Fonte/Créditos: G1
Créditos (Imagem de capa): Imagem ilustrativa
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